Projeto da USP usa o futebol para recuperar memórias perdidas pelo Alzheimer

Em Revivendo Memórias, imagens e narrações antigas de jogos de futebol viram gatilho para o disparo de memórias emocionais nos idosos

 26/11/2020 - Publicado há 1 ano
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Foto: Divulgação/Projeto Revivendo Memórias

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O futebol tem o poder de mexer com as emoções das pessoas; ainda mais no Brasil, considerado o País do futebol. Pelé, Garrincha, Ademir da Guia e tantos outros craques que desfilaram pelos gramados, hoje, assumiram nova posição fora das quatro linhas. Mas o projeto Revivendo Memórias, do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (HCFM) da USP em São Paulo, em parceria com o Museu do Futebol, está convocando novamente todos os grandes craques e suas conquistas no futebol para juntos marcarem novos “golaços”, ajudando idosos a relembrar momentos importantes de suas vidas.

Pioneiro no Brasil, o projeto tem ações para estimular pacientes com Alzheimer a lembrarem momentos vividos na infância e juventude, usando o futebol como gatilho. Para entender a dimensão da iniciativa, basta conferir os dados da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), mostrando que mais de 33% dos idosos no Brasil têm algum tipo de demência e, desse total, entre 40% e 60% dos casos, o diagnóstico é de Alzheimer.

“O projeto utiliza memórias ligadas a paixões que as pessoas tiveram durante a vida como forma de estimular aqueles que têm algum comprometimento cognitivo e também uma forma de evitar o isolamento dessas pessoas”, destaca Leonel Takada, neurologista do HC-SP e um dos responsáveis pelo projeto. Segundo Takada, o futebol foi escolhido como gatilho para despertar as lembranças dos idosos por ser uma paixão nacional que pode despertar o interesse das pessoas que “têm memórias ligadas a jogadores, campeonatos e até das copas”.

Cofundador e coordenador do projeto, Carlos Chechetti conta que os estímulos são feitos através de imagens e narrações antigas de jogos de futebol. Dessa forma, segundo ele, além de lembrar dos jogadores ou do time do coração os idosos acabam lembrando de outros momentos importantes de suas vidas. E é isso mesmo que o projeto busca. Os fatos do futebol são usados como gatilho para que sejam encontradas as memórias emocionais de cada idoso. As atividades que usamos fazem “com que eles lembrem desses jogos, dessas paixões, de jogadores e, com isso, lembrem de mais coisas também, por exemplo, com quem ele foi ao jogo, quando foi o jogo, muitas vezes, lembram até dos gols”.

Conta Chechetti que a ideia do projeto nasceu após uma visita ao Football Memories, evento realizado na Escócia que, da mesma forma, usa o futebol como forma de fazer os idosos reviverem suas memórias. Depois de conhecer o programa, Chechetti entrou em contato com o Museu do Futebol, em São Paulo, que logo aceitou a parceria. Para Iale Cardoso, coordenadora do Núcleo Educativo do museu e responsável por fazer as interações com os pacientes, “a gente se encantou pelo projeto e abraçamos de cara e com muito ânimo essa parceria”, relembra.

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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

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Revivendo Memórias, presencial ou #em casa, quer alcançar todo o País

Os encontros acontecem desde 2019, mas, neste ano, por conta da pandemia, também precisou se reinventar. Os organizadores decidiram criar o Revivendo Memórias #EmCasa, em que as reuniões acontecem por videoconferência. Iale destaca que, além da importância dos estímulos cognitivos, o programa também ajuda na inclusão social e cultural e, agora, durante a pandemia, na inclusão digital do idoso, já que, neste caso, os participantes também aprendem a mexer no computador e em aplicativos de videochamadas.

O projeto é feito por voluntários, não tem custos e também não recebe recursos. Chechetti destaca que já está procurando parceiros para patrocinar o projeto, “para que possa se expandir e atender mais pessoas no Brasil todo”. Segundo ele, a ideia é difundir tanto o Revivendo Memórias presencial, após o fim da pandemia, e também continuar o Revivendo Memórias #EmCasa. “Nosso principal objetivo é conseguir levar esse projeto para pessoas de baixa renda, em qualquer lugar, porque, infelizmente, não tem muitas coisas para pessoas de baixa renda no Brasil, principalmente na área de demência”, destaca Chechetti.

Para participar do programa, de forma on-line , é preciso agendar pelo e-mail agendamento@museudofutebol.org.br. Ou então, pelo telefone (11) 99113-0226.

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Ouça no player abaixo a entrevista com Leonel Takada, Carlos Chechetti e Iale Cardoso ao Jornal da USP no Ar – Edição Regional


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