“Estamos vivendo o desmonte total das instituições da Cultura”

Essa afirmação é da professora da USP Maria Arminda do Nascimento Arruda, que analisa as mudanças na Secretaria Especial da Cultura, hoje subpasta do Ministério do Turismo

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Maria Arminda do Nascimento Arruda – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Desde que o dramaturgo e diretor teatral Roberto Alvim assumiu o comando da Secretaria Especial da Cultura, que passou a ser subordinada ao Ministério do Turismo, muitas mudanças têm acontecido. Mas não são para melhor. Alguns cargos estão ganhando nomes articulados a um projeto mais conservador em consonância ao governo de Jair Bolsonaro. “O que está acontecendo é uma destruição dos principais órgãos que compõem a Secretaria Especial da Cultura, que agora está adida ao Ministério do Turismo”, afirma Maria Arminda do Nascimento Arruda, diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária da USP entre 2010 e 2015. “Primeiro, não entendo essa relação entre Cultura e Turismo. Ainda que haja uma relação possível do ponto de vista de entender que o Turismo hoje é parte da Cultura, efetivamente a Cultura como espaço de reflexão e política não tem uma conexão com Turismo”.

Entre as grandes mudanças, a nova secretária do Audiovisual, Katiane de Fátima Gouvêa, membro da Cúpula Conservadora das Américas; o pastor e colunista social Edilásio Barra, conhecido como Tutuca, que chegou a ser cogitado para a Secretaria do Audiovisual mas assumiu a Superintendência de Desenvolvimento Econômico da Ancine, com a tarefa de gerir os recursos do Fundo Setorial do Audiovisual; e o diretor da Fundação Palmares, o jornalista Sérgio Nascimento de Camargo. Além disso, o comando do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Fundação Nacional de Artes (Funarte) também estão sendo trocados.  No caso da Funarte, seu novo dirigente é o maestro Dante Mantovani, que recentemente postou um vídeo no Facebook em que rege um coral com o texto: “canto gregoriano em latim para crianças, é nisso que acredito”.

O que se vê é uma abertura de espaço para conservadores e religiosos em cargos de comando e muitas declarações controversas em relação às mudanças na área da Cultura. As alterações ainda incluem novos secretários responsáveis pela promoção de diversidade sexual, de economia criativa e de fomento e incentivo à cultura (à frente da Lei Rouanet), este último dirigido agora por Camilo Calandreli, que já afirmou que a lei era usada pelo “marxismo cultural”. Segundo a professora Maria Arminda, são mudanças muito sérias e graves, porque estão finalizando uma tendência para pensar a cultura a partir de um prisma apenas. Ela ainda ressalta que a cultura é um direito, além de ser muito importante nas sociedades contemporâneas, citando o consumo cultural, o significado de museus e das exposições. “Há filas nos museus da Europa, e isso aciona o chamado mercado da economia cultural”, diz e continua: “Quando você transforma a cultura em um instrumento que é de fundamentalismo ou de visões preconceituosas, você está destruindo a cultura”.

“É só olharmos quem está assumindo a Fundação Palmares”, lembra Maria Arminda, retomando uma fala em que ele diz que a escravidão foi boa. O atual dirigente, em seu perfil no Facebook, se define como “negro de direita, contrário ao vitimismo e ao politicamente correto”. Mas como reitera a professora, “a escravidão é um estigma; é o contrário disso na história brasileira”. Maria Arminda ainda comentou a questão da alteração, naquele mesmo dia da entrevista, acerca do comando da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. “Hoje eu li que a diretora da Biblioteca Nacional, Helena Severo, que há anos se dedica a gerir instituições da Cultura, ficou sabendo que seria substituída a partir da nomeação do seu sucessor (Rafael Nogueira)”, relata. “O que está acontecendo com as instituições culturais do Brasil é um horror! Primeiro acabaram com o Ministério da Cultura, que foi construído no bojo da redemocratização. É literalmente um desmonte da cultura”.

Intolerância e indignação

São muitas as afirmações de intolerância. O próprio secretário da Cultura Roberto Alvim tem feito afirmações polêmicas, e indignou não só a classe artística, mas toda a população quando disse, no final de setembro, que sentia “desprezo” pela atriz Fernanda Montenegro. Na época, ainda ocupava o cargo de diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte. Mesmo depois de ser nomeado secretário especial da Cultura, Alvim continuou a atacar a produção artística dos últimos 20 anos, gerando espanto, também, em delegações estrangeiras, como afirmou o colunista do Uol Jamil Chade, que cobriu a reunião anual da Unesco, em novembro último, em Paris. Nas palavras de Alvim, “a arte brasileira transformou-se em um meio para escravizar a mentalidade do povo em nome de um violento projeto de poder esquerdista”. Chade ainda informa que, citando Deus, o secretário prometeu criar uma “nova geração de artistas”, garantindo que o novo governo retomaria a “beleza” nas obras de arte. “Mas o que é a definição de belo?”, questiona Maria Arminda. “A noção do belo é histórica, é social e se transforma”, completa.

“É inquietante, é preocupante, é impressionante”, diz Maria Arminda. “Há muitas afirmações de intolerância, mas o Estado é laico”, afirma veemente. “As pessoas têm direito a ter suas religiões, mas o estado democrático representa todas as tendências”, acrescenta, dizendo ainda que a pesquisa também está na linha de frente do atual governo. “O CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) está correndo riscos. Não querem financiar um tipo de pesquisa, como a de gênero”, conta. A própria universidade pública está sendo atacada, segundo Maria Arminda. “Mas as universidades brasileiras têm feito um papel de inclusão enorme. Atualmente, as universidades brasileiras recebem mais de 70% de alunos advindos da escola pública, além dos chamados alunos PPI (Pretos, Pardos e Indígenas), que hoje alcançam cerca de 50% nas universidades federais por causa das políticas de cotas. Isso a médio prazo é uma revolução, no sentido da construção da igualdade de oportunidades na educação”, afirma. “Mas a universidade está sendo atacada”, adverte. Segundo ela, “a ciência hoje é a força do desenvolvimento econômico assim como a cultura”.

Mas qual o futuro da cultura brasileira? “Se as coisas continuarem assim, se não houver alterações no cenário, vamos ver o desmonte total das instituições da cultura”, reafirma a professora. “O que esperar de alguém que chama um ícone do teatro e do cinema brasileiro, como Fernanda Montenegro, de ‘sórdida’? Isso é um sintoma do que está acontecendo”. Com pessimismo em relação ao panorama atual, ela diz que é preciso combater essas mudanças.

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