Especialistas discutem o cinema na era da multimídia

Com participação de professores do Brasil e do exterior, evento ocorre na USP entre os dias 14 a 16 de agosto

Por - Editorias: Cultura
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Robert Mitchum em Mensageiro do Diabo, dirigido por Charles Laughton, 1955 – Foto: Divulgação / O Cinema como Experiência Sensível / ECA

O Cinema como Experiência Sensível é o tema do primeiro Congresso Internacional Cinemática 1, que será realizado de 14 a 17 de agosto na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, reunindo especialistas do Brasil, Estados Unidos e Alemanha. As palestras serão antecedidas pela exibição de filmes de vanguarda acerca do romantismo noir e do cinema experimental. “O objetivo do evento é mostrar o processo histórico da linguagem cinematográfica até a chegada da multimídia e sua incorporação nas artes”, afirma a organizadora do evento, professora Giselle Gubernikoff, do Departamento de Artes Plásticas da ECA.

“Como definir uma área que é emergente?”, questiona a professora, relatando que a multimídia, apesar de ser uma evolução natural do cinema, é considerada bastante controversa por se tratar de algo novo, com poucas pesquisas realizadas no mundo e bases teóricas que ainda precisam ser definidas. A ideia inicial era pesquisar a multimídia em museus, os projetos interativos e a própria arte eletrônica, já que, segundo ela, as artes estão acompanhando as mídias digitais e incorporando esse novo elemento como meio de expressão.

A professora Giselle Gubernikoff, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Porém, a professora sentiu a necessidade de abordar, em um primeiro momento, a base histórica do cinema, desde os filmes experimentais da década de 30, através da vanguarda francesa, com os movimentos do Surrealismo e do Dadaísmo. “O Cinemática 1 é um evento histórico”, afirma a professora, avisando que a segunda edição do seminário, prevista para 2019, vai abordar o pós-cinema. “A primeira edição vai abrir caminho para esse novo tipo de arte, que mistura multimídia e interatividade, no qual o espectador não é mais passivo e pode interferir e criar sua própria narrativa”, diz a professora.

A experiência de Giselle com o filme experimental através do cinema underground, a influência de sua família – o pai marchand e a mãe violinista – e a convivência com o meio artístico através das muitas viagens a Nova York, sua cidade natal, contribuíram para seu questionamento acerca da produção audiovisual na arte. “No Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, vi o primeiro filme exibido na parede, que saía de um pequeno projetor colocado no chão. Era o final do movimento underground nos cinemas e eles estavam passando isso nos museus”, conta Giselle. E acrescenta: “Foi também no MoMA que assisti ao Cinema Novo, Vidas Secas, Macunaíma, O Padre e a Moça”. O cinema já estava dentro do museu e o audiovisual ganhava a arte.

O cinema como arte

Duas convidadas internacionais vão abordar o cinema como arte. Uma delas é Angela Dalle Vacche, professora de História da Arte da Universidade de Yale e do Georgia Institute of Technology, nos Estados Unidos, e especialista em teoria estética e história do cinema. “Ela é uma das primeiras teóricas do mundo a trabalhar dentro da mesma linha de pesquisa que a minha, de um lado, cinema e artes plásticas e, de outro, a área de museologia”, diz a professora, citando um dos livros de Angela, Museum without Walls (Museu sem Paredes). A outra convidada estrangeira é a professora Stefanie Plappert, curadora do Deutsches Filminstitut e organizadora do setor de cinema da mostra Romantismo Negro, de Goya a Max Ernst, no Museu Städel, em Frankfurt, na Alemanha.

Giselle destaca ainda a participação da professora Miriam Tavares, coordenadora do Centro de Investigação em Arte e Comunicação da Universidade do Algarve. Em vídeo, ela fará palestra sobre a montagem nos cinemas de vanguarda e sobre o teórico André Bazin, mentor da nouvelle vague francesa e cofundador da publicação Cahiers du Cinéma. Além disso, haverá o depoimento de Antonio Peticov, um dos mais importantes artistas da geração dos anos 60, que rompeu com uma série de tabus sociais. Já a professora Silvia Miranda Meira, pesquisadora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, vai abordar o Surrealismo.

Cidade dos Anjos (1998), de David Lynch, rompe com a narrativa clássica, dando liberdade para que o espectador crie sua própria história – Foto: Reprodução/Warner Bross

O viés contemporâneo fica por conta dos pesquisadores nacionais Marcello Giovanni Tassara, professor aposentado da ECA e pesquisador da linguagem cinematográfica, primeiro a trabalhar com o cinema de animação no Brasil, que falará sobre cinema experimental e computação gráfica, e Roberto Moreira dos Santos Cruz, produtor cultural, curador independente e aluno de pós-doc do MAC, que abordará o cinema expandido, em que surge a linguagem alternativa nas artes plásticas com a utilização das mídias eletrônicas.

As palestras de encerramento sobre o diretor norte-americano David Lynch serão ministradas por Giovanna Bartucci, professora de Teoria Psicanalítica e crítica da Associação Brasileira de Críticos de Arte, e por Victor Acquino Gomes Corrêa, professor da ECA. “O cinema de David Lynch é pautado na desconstrução de uma narrativa clássica no cinema. O diretor é dono de uma narrativa fragmentada, em que o espectador constrói a própria história, e ainda assim é sucesso de público”, afirma Giselle, informando que o filme Cidade dos Anjos (1998), de Lynch, também será exibido no seminário (o título foi incluído depois de a programação ser fechada).

Mostra de filmes

Evento reúne pesquisadores do Brasil, Estados Unidos e Alemanha, e ainda inclui mostra de filmes – Clique na imagem para ampliar

A mostra de filmes, que foi pensada para ilustrar as mesas e palestras, tem curadoria de Sergio Lima. Serão exibidos três filmes cult de longa-metragem: As Diabólicas (França, 1955), de Henri-Georges Clouzot, suspense baseado no romance Celle Qui N’Était Plus, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, considerado pela revista Time um dos 25 melhores filmes de horror, Deserto Rosso – Dilema de uma Vida ou O Deserto Vermelho (1964), filme franco-italiano dirigido por Michelangelo Antonioni e estrelado por sua musa, Monica Vitti, e La Chute de la Maison Usher (França, 1928), de Jean Epstein, um dos vários filmes baseados no conto gótico A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe, com adaptação de Luis Buñuel e música de Jason Staczek.

Também serão apresentados os curtas Entr’acte (Estados Unidos, 1924), filme experimental de René Clair, com música de Erik Satie, Vormittagsspuk (Alemanha, 1928), de Hans Richter, animação dadaísta com trilha composta por Paul Hindemith, e Um Cão Andaluz (França, 1929), filme surrealista escrito e dirigido por Luis Buñuel e Salvador Dalí, com música de Richard Wagner e Ludwig van Beethoven, uma reunião de imagens oníricas encadeadas como se fossem um pesadelo.

O Congresso Internacional Cinemática 1 será realizado de 14 a 16 de agosto, das 9 às 21 horas, e no dia 17 de agosto, das 9 às 12 horas, no Auditório Lupe Cotrim da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 443, Cidade Universitária, em São Paulo). As inscrições são gratuitas e devem ser feitas neste link

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