Culturas do Brasil e da República Tcheca são tema de evento

Mesa-redonda acontece no dia 21, terça-feira, no Instituto de Estudos Brasileiros da USP

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Folha de rosto da tradução tcheca do livro História de Uma Viagem Feita à Terra do Brasil, de Jean de Léry – Foto: Reprodução / Relações Luso-Tchecas

O Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, em convênio com a Faculdade de Letras da Universidade Carolina de Praga, na República Tcheca, promove no dia 21 de agosto, terça-feira, a partir das 14 horas, a mesa-redonda Brasil – República Tcheca: Diálogos Culturais, que tem o objetivo de discutir as relações culturais e intelectuais entre os dois países. Na ocasião, será inaugurada a exposição 90 Anos da Língua Portuguesa na Universidade Carolina em Praga, comemorativa das nove décadas de ensino do português na Faculdade de Letras da Universidade Carolina e dos 60 anos do curso de português. A abertura conta com a participação de Pavla Havrlíková, cônsul geral da República Tcheca em São Paulo, e do diretor do IEB, professor Paulo Teixeira Iumatti.

Segundo o organizador da jornada, professor Marcos Antonio de Moraes, do IEB, o evento faz parte de um convênio acadêmico internacional iniciado em 2014, que já rendeu muitos desdobramentos de caráter científico. Entre os resultados dessa parceria estão cursos de pós-graduação, colóquios e jornadas, além de intercâmbios entre alunos das duas universidades e a realização de pesquisas. “O projeto tende a crescer, na medida em que temos que pensar em outros aspectos da história e dos vínculos culturais dos dois países.” Além disso, o professor lembra que 21 de agosto (data do evento) é justamente o dia em que chega ao fim a Primavera de Praga – movimento de democratização da então chamada Tchecoslováquia, ocorrido em 1968, durante o domínio da União Soviética. “Todo o viço democrático, o esforço de concretizar uma ampliação dos direitos e da cultura foi ceifado por uma gestão autoritária”, diz, afirmando que o encontro também vai valorizar, através do diálogo, o sentido democrático do contato entre culturas.

Tradução de Os Lusíadas, de Luís de Camões, dicionário e manual de português publicados em theco – Foto: Reprodução / Relações Luso-Tchecas

A conferência de abertura será ministrada pela professora Walnice Nogueira Galvão, docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e pesquisadora sênior do IEB. Na sequência, a professora e historiadora Simona Binková, da Universidade Carolina de Praga, vai abordar As relações tcheco-brasileiras através de séculos.

Segundo a professora Šárka Grauová, da Universidade Carolina de Praga, que também organiza a jornada ao lado do professor Marcos de Moraes, Simona vai falar do interesse dos tchecos pelo Brasil, desde os missionários jesuítas e o antropólogo e etnógrafo Alberto Vojtěch Frič (1882-1944) até a diva de teatro Klementina Kalašová (1850-1889), dando um amplo leque de possibilidades de relações entre dois países. Um exemplo da colaboração ativa entre artistas tchecos e brasileiros foi a visita de um grupo de concretistas paulistas, nos anos 60, a Praga.

Traduzindo autores brasileiros

A correspondência entre a tradutora Pavla Lidmilová e o poeta Murilo Rubião é assunto do professor Cleber Araújo Cabral, da Universidade Vale do Rio Verde, em Minas Gerais, que vai falar do sucesso do poeta e de seus contos fantásticos na República Tcheca. “Além de artigos de crítica literária, Pavla traduziu, do português para o tcheco, autores muito distintos em termos de linguagem, estilos e temáticas”, destaca o palestrante, citando, além de Murilo Rubião, outros nomes da literatura brasileira, como Clarice Lispector, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

Numa entrevista publicada na edição 43 da Revista do IEB, de 2006, Pavla se referiu a Guimarães Rosa como “minha paixão”. “As histórias de Guimarães Rosa foram, para mim, naquele tempo, há mais de 40 anos, uma revelação”, conta ela na entrevista.

A tradutora Pavla Lidmilová recebe das mãos do então presidente de Portugal, Mário Soares, a Comenda da Ordem de Infante D. Henrique – Foto: Reprodução / Relações Luso-Tchecas

O português como ponte entre culturas

Outra palestra a ser dada no evento é História da filologia portuguesa na Universidade Carolina, de Filip Vavřínek, mestre pela Universidade Carolina de Praga. Para o professor Marcos de Moraes, esse assunto é muito importante porque é o modo como o português foi lido e assimilado na República Tcheca. É considerado, muitas vezes, como língua exótica, fenômeno que contrasta com o seu caráter universalista, que faz dela uma verdadeira ponte entre culturas. O crescimento mundial do número de alunos, a implementação do português como língua regular nos sistemas de ensino de muitos países, a sua utilização como língua oficial de várias organizações internacionais e o aumento do número de trabalhos científicos sobre a língua portuguesa, nas suas diversas variantes, provam que esse interesse está em crescimento, segundo dados obtidos no workshop internacional realizado no ano passado em Praga.

Visita dos concretistas de São Paulo a Praga: grupo inclui Vladimír Fuka, Bohumila Grögerová, Josef Hiršal, Haroldo de Campos e Júlio Medaglia – Foto: Reprodução / Relações Luso-Tchecas

Fechando o evento, será discutido o tema Os estudos luso-brasileiros na Universidade Carolina – Desafios e perspectivas, com Šárka Grauová. “Ela é uma grande estudiosa do Brasil e já traduziu Macunaíma (de Mário Andrade), mostrando seu apuro e conhecimento do português, além de ser uma crítica arguta da literatura brasileira”, diz Moraes, que vai mediar a palestra. O professor acrescenta que Šárka viveu o momento mais fechado da história da então Tchecoslováquia e, para atender aos interesses do bloco russo, o ensino do português, que era uma coerção, acabou se transformando em uma grande paixão. “Ela se tornou a figura mais representativa da difusão cultural brasileira na República Tcheca”, ressalta.

“É a primeira vez que no Brasil se fala nas relações tcheco-brasileiras”, afirma a professora Šárka. Na opinião do organizador, o evento é um convite para que as pessoas reconheçam a literatura e a história tcheca como fontes de pesquisa. “É um evento multicultural, que vai falar de ‘culturas’, no sentido mais forte da palavra, como representações em vários campos do conhecimento e das artes”, conclui Moraes.

A mesa-redonda Brasil – República Tcheca: Diálogos Culturais acontece no dia 21 de agosto, terça-feira, das 14 às 18h30, no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, na Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3091-1149 e no site do evento.  

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