Chico de Oliveira explicou o “estranho capitalismo” brasileiro

Sociólogo da USP, que morreu nesta quarta-feira, dia 10, foi um dos grandes intérpretes do Brasil

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O sociólogo Francisco de Oliveira – Foto: Francisco Emolo / USP Imagens

O tipo de capitalismo em vigor no Brasil é responsável, ao mesmo tempo, pela modernização e pelo atraso que caracterizam a realidade do País. Diferente do sistema predominante nos países capitalistas centrais – onde há espaço para a distribuição de renda –, o capitalismo brasileiro é marcado pela superexploração de mão de obra barata e pela exclusão de boa parte da sociedade.

Essa foi uma das principais descobertas do sociólogo Francisco de Oliveira, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que morreu nesta quarta-feira, dia 10 de julho, aos 85 anos de idade. “Através de seu ensaio clássico A Economia Brasileira: Crítica à Razão Dualista, de 1972, foi possível entender de modo muito agudo essa combinação entre modernização e atraso que vigora no Brasil”, afirma o professor André Singer, do Departamento de Ciência Política da FFLCH. “Isso faz dele um dos grandes intérpretes do Brasil.”

Em razão da convivência de modernização e de atraso na economia brasileira, Chico de Oliveira – como era conhecido – considerava que é inadequado falar em “subdesenvolvimento” ao se referir ao Brasil. “Existe o desenvolvimento, mas de um modo diferente”, explica Singer. “É uma economia com uma maneira diferente de funcionar, que combina avanço e atraso, modernização e exclusão.”

Foi esse modo atípico de funcionar que fez com que Oliveira utilizasse a figura do ornitorrinco para classificar a economia brasileira. “O ornitorrinco é um bicho estranho, mistura de ave, mamífero e réptil, resultado de diversos tipos de evolução, que não é passagem para nada”, destaca Singer, comparando o animal com a estranha realidade econômica do Brasil, em que convivem o avanço e o atraso. “É uma chave para entender o desenvolvimento do País.”

Singer descreve Oliveira como um “combativo e obstinado” militante socialista desde a juventude, em Recife (PE), onde nasceu em 7 de novembro de 1933. Embora nunca tenha abandonado essa característica, o sociólogo soube absorver as mudanças ocorridas nas últimas décadas do século 20, inclusive no que se refere ao socialismo. “Ele incorporou a democracia ao socialismo, colocou a questão da democracia no centro do socialismo”, afirma Singer. “Ressalto que ele tinha um profundo compromisso com as lutas do povo brasileiro, não apenas com as causas da esquerda.”

Como acadêmico, Oliveira era capaz de provocar fascínio nos estudantes, graças à profundidade de sua reflexão, continua Singer. Tinha também “enorme apreço” pela USP, segundo o professor. “Ele dizia que a USP tem a responsabilidade de ser uma espécie de guia para a universidade no Brasil e precisa assumir essa responsabilidade.”

Trabalhadores avançados, empresários atrasados

Chico de Oliveira inverteu a visão tradicional sobre as relações trabalhistas no Brasil. Segundo ele, os trabalhadores que chegavam à cidade grande em busca de trabalho – normalmente vistos como mão de obra atrasada – contribuíram para a modernização dessas relações ao reivindicar direitos consagrados nas economias capitalistas centrais. Já os empresários viam nessa nova formação social – os trabalhadores urbanos – uma oportunidade de aprofundar a exploração e aumentar os lucros, promovendo a exclusão.

Essa é outra grande tese de Oliveira, segundo o professor Ruy Braga, chefe do Departamento de Sociologia da FFLCH. “As favelas, para ele, eram a expressão dessa tentativa dos empresários de comprimir ao máximo a exploração em busca de maiores lucros”, analisa Braga. “Nesse sentido, os trabalhadores seriam a modernidade e os empresários, o atraso”, acrescenta o professor, lembrando que, como demonstrou Oliveira, em países periféricos como o Brasil as relações sociais modernas “não rompem com o atraso, mas repõem esse atraso em condições novas”.

Braga se lembra das últimas palavras que trocou com o sociólogo, no dia 4 de julho passado, quando o visitou no Hospital São Camilo, em São Paulo, onde ficou 21 dias internado. Depois de uma longa conversa – em que discutiram um projeto de pesquisa sobre as transformações das classes sociais no Brasil –, eles concordaram em afirmar que há muitas diferenças entre a época atual e a década de 60, ao mesmo tempo em que há muitas semelhanças. Foi quando Braga se referiu ao filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937), que utilizou uma frase célebre do romance Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) – “Tudo deve mudar para que tudo fique como está” – para retratar a política italiana de seu tempo. Oliveira sorriu e elogiou Gramsci: “O Sardo foi genial”.

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