Mostra do Cinema da USP destaca memórias familiares de cineastas

Fotos e vídeos caseiros são a matéria-prima das produções apresentadas em “Álbum de Família”

 15/06/2021 - Publicado há 3 meses
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Cena do filme Retratos Pra Você – Foto: Divulgação/Cinusp

Mostra do Cinema da USP destaca memórias familiares de cineastas

Fotos e vídeos caseiros são a matéria-prima das produções apresentadas em "Álbum de Família"

15/06/2021

Por: Juliana Alves

Arte: Simone Gomes

Fotos e vídeos de familiares podem ser motivos de brincadeiras e risos, lembranças e saudades dos membros distantes ou falecidos, instrumentos para reencontrar parentes e até mesmo material para curtas-metragens. Essa mescla de emoções está presente na nova mostra do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), Álbum de Família, em cartaz entre 14 de junho e 11 de julho. Em cada produção, diretoras e diretores exibem relações com seus familiares fazendo com que venham à tona reflexões e sentimentos para cada um que assiste.

O objetivo da mostra é explorar o universo dos documentários familiares, ainda mais neste período em que a família tem sido um grande tema do cotidiano, seja pela ausência, seja pela presença constante imposta pela pandemia, conforme afirma Gustavo Maan, curador da mostra. Álbum de Família provoca também  várias questões, como Victória Okubo, curadora e produtora de mostras no Cinusp, cita: “O que leva alguém a expor sua vida privada em frente às câmeras? Como essas histórias pessoais se comunicam conosco? Quais são os frutos disso?”.

Cena do filme Rebu – A Egolombra de Uma Sapatão Quase Arrependida – Foto: Divulgação/Cinusp

Os curtas dialogam com o público de várias maneiras. Alguns mostram como a figura paterna influencia nos comportamentos e nos relacionamentos das filhas, como em Afundar ou Nadar, de 1990, da diretora norte-americana Su Friedrich, um marco no cinema autobiográfico. Num relato pessoal em preto e branco, uma menina conta eventos da infância que definiram suas ideias sobre paternidade e relacionamentos familiares. Numa espécie de diário, ela descreve que foi abandonada pelo pai e registra a maneira como foi profundamente afetada pelo comportamento dele.

Essa relação paternal se manifesta de outra forma em Rebu – A Egolombra de Uma Sapatão Quase Arrependida, de 2020. A diretora pernambucana Mayara Santana percebe semelhanças com o pai, Pedro Bala, de quem herdou, além dos traços,  condutas amorosas marcadas pela irresponsabilidade afetiva. Por meio de prints, fotos, stories e vídeos do Youtube, discute relacionamentos abusivos, reprodução de machismo, impulsividade e romance. Temas que permeiam as vidas de pai e filha mesmo sendo de gerações distintas.

Gustavo Mann cita Rebu para demonstrar que os contexto mais íntimos marcam fortemente os reflexos de construções sociais. No filme, a diretora faz um belo conjugado entre suas experiências amorosas, sua relação com seu pai e as influências de comportamentos machistas interiorizados. “Acredito que não só é possível, como essencial nos voltarmos para nossas histórias particulares para pensarmos os temas gerais da sociedade”, diz o curador.

Cena do filme Ayani por Ayani – Foto: Divulgação/Cinusp

A figura materna também é um dos focos dos curtas. De forma delicada, Margaret Tait constrói um retrato carinhoso e bem-humorado de sua mãe, Ga. Com cenas detalhadas do cotidiano e expressões doces, o curta Um Retrato de Ga, de 1952, a diretora escocesa Margaret Tait registra o humor e o carinho entre mãe e filha. Essa ternura está presente também no curta Window Water Baby Moving, de 1959, no qual o diretor norte-americano Stan Brakhage documenta o nascimento de sua primeira filha. A arte imita a vida com as imagens emocionantes do processo de gravidez nesse filme experimental. Diferente de O Corpo Bonito (Reino Unido, 1991), que mostra os dramas vividos por uma mulher que se submeteu a uma mastectomia pós-parto. Entre a ficção e o documentário, há as redescobertas da diretora nigeriana Ngozi (negra) e de sua mãe (branca) sobre questões como adoção, raça e sexualidade.

Em outros filmes a maternidade é registrada no processo de luto. Em diálogo com seu irmão e seus avós, a diretora portuguesa Catarina Vasconcelos organiza as memórias remanescentes de sua mãe já falecida no curta Metáfora ou a Tristeza Virada do Avesso, de 2014. Nessa viagem ao passado, a cineasta tenta conhecer mais sobre sua falecida mãe.

Em Por Mais Uma Hora com Você, de 2002, a diretora italiana Alina Marazzi também observa a jornada da mãe, a quem tenta dar voz, já que sua história foi tragicamente interrompida: em 1972, Liseli Marazzi se suicidou, deixando sua filha Alina, de apenas 7 anos. Anos depois, pelas lentes da câmera do avô, a diretora reconstrói a personalidade da mãe com fotografias da década de 1920 até 1970.

Cena do filme Travessia – Foto: Divulgação/Cinusp

Muito mais que retratar a família ao longo de gerações, a diretora brasileira de origem indígena Ayani Hunikuin permite cristalizar o conhecimento ancestral por meio de observações de detalhes do dia a dia de sua avó, Ayani, no filme Ayani por Ayani, de 2010. Enquanto cuida dos seus netos mais novos, confeciona cestos e prepara refeições, Ayani transmite a cultura e o saber histórico do povo indígena huni kuï. Do mesmo modo, no filme Retratos pra Você, Pedro Nishi mostra práticas centenárias chinesas de uma família do interior do país. Assim consegue emocionar com os afetos que envolvem aquelas pessoas.

O resgate cultural está presente também em FotogrÁfrica, de 2016. Com relatos de sua mãe e das fotografias de família, a diretora pernambucana Tila Chitunda aborda a migração de sua família angolana para o Brasil na década de 1970 e os impactos disso em sua formação, buscando suas raízes.

A memória de famílias negras permeia também o curta Travessia, de 2017, mas com postura crítica diante do sistema escravocrata que direciona relações pessoais até hoje. As cenas do filme, dirigido pela baiana Safira Moreira, demonstram esse trauma colonial como um processo de “perda da própria imagem”.

A partir de imagens, a diretora japonesa Naomi Kawase investiga familiares e os estágios da vida, como o nascimento de seu filho e o envelhecimento de sua avó, no curta Nascimento e Maternidade, de 2006. Já em Tio Yanco, de 1967, a investigação tem como foco a procura de um parente até então não conhecido pela diretora belga Agnès Varda, o artista plástico Jean Varda.

Cena do filme Tio Yanco – Foto: Divulgação/Cinusp

Para a curadora Victória Okubo, Álbum de Família gera reflexões sobre as relações familiares, sobre  como elas impactam ao longo da vida (positiva ou negativamente) e sobre a importância da construção de memórias. Além disso, a curadora comenta que a mostra possibilita gerar identificação por parte do público. “Acho muito interessante perceber que os vídeos, fotos, cartas, áudios, que eu tenho guardado poderiam virar um filme e contar minha história de alguma forma.”

“Acima de tudo, os filmes mostram sua relevância por meio do afeto”, complementa o curador Gustavo Maan. “São formas de explorar esteticamente nossos laços familiares, marcados pela ausência, raiva ou amor.”

A mostra Álbum de Família, do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), está disponível até 11 de julho no site e no canal do Cinusp no Youtube.


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