A vida e a carreira do “homem-pégaso”

Fusão de ritmos e inventividade eram marcas do cantor e compositor baiano Moraes Moreira, que morreu no dia 13

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Moraes Moreira, jovem tropicalista – Fotomontagem: Luana Franzão

“Meu filho, ou você corta esse cabelo ou teremos que lhe dar o desemprego. Assim está indo de encontro às tradições do nosso banco. Você é quem decide.” Foi essa ameaça, relatada em setembro de 1969 ao Jornal da Bahia, que o bancário Antonio Carlos Moreira Pires ouviu do gerente. A entrevista foi publicada na edição que precedia o show Desembarque dos Bichos Após o Dilúvio Universal, no qual os “tropibaianos da Nova Bahia” iriam se apresentar no Rio de Janeiro. Parte desses artistas formariam, ao final daquele mesmo ano, os Novos Baianos. Moraes Moreira era um dos “tropibaianos” que a matéria destacava. E sua cabeleira, de lá para cá, só cresceu mais.

Mas seus cabelos ainda estavam a meio termo quando, por intermédio de Tom Zé, encontrou-se com o jovem letrista Galvão, numa pensão da Rua Chile, em Salvador. Era o ano de 1967. Um precisava de quem musicasse seus versos. Outro precisava encontrar as palavras que verbalizassem a linguagem de seus acordes no violão. Eles ainda não sabiam, mas seriam o núcleo de um dos grupos mais influentes da música popular brasileira até hoje.

Numa entrevista concedida em 2010 a Fabio Ferron e Sergio Cohn, Moraes Moreira contou sobre o contexto da formação dos Novos Baianos: “Novos Baianos começou na Bahia, no eco de um vazio, no momento em que foi todo mundo embora, exilado. A gente estava lá na Bahia, no show Barra 69, vendo Caetano Veloso e Gilberto Gil indo embora para Londres. A gente estava totalmente embalado pelo movimento tropicalista. De repente, aquele vazio. Novos Baianos entra exatamente nessa hora. Com a responsabilidade de não deixar cair a bandeira da liberdade da música”.

Essa liberdade que os Novos Baianos se incumbiam de manter acesa se expressava nas suas misturas musicais.

“O grupo formulou uma linguagem musical renovada e muito própria, associando e estabelecendo relações entre o rock, o samba, a bossa nova, o choro, o frevo e assim por diante, que influenciou inúmeros compositores, bandas e movimentos musicais. E no epicentro desse processo e do conjunto estava justamente Moraes Moreira.” Essa constatação, feita pelo historiador e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP José Gerado Vinci de Moraes, demonstra tanto a porosidade artística do grupo quanto a força criativa daquele ex-bancário cabeludo.

Moraes Moreira
Moraes Moreira em foto de 2003 – Foto: Wilson Dias/Agência Brasil/EBC

Aliás, nada poderia demonstrar melhor esse frescor constantemente renovado do que a comparação entre o primeiro e o segundo disco dos Novos Baianos. Enquanto o álbum de estreia, É Ferro na Boneca!, de 1970, é predominantemente roqueiro psicodélico, o segundo, Acabou Chorare, é… como dizer… inclassificável. Sim, inclassificável, mas com a influência decisiva de João Gilberto. No caso de Moraes Moreira, as gravações em vídeo da época ajudam a entender. Enquanto nas músicas de É Ferro na Boneca! sua mão toca o violão rasqueando, como é típico na guitarra-base do rock, a partir de Acabou Chorare seus dedos frequentemente puxam as cordas como um sambista.

Acabou Chorare, além do disco, é também uma das mais emblemáticas músicas dos Novos Baianos e da carreira de Moraes Moreira. Quase uma canção de ninar. Após a morte de Moraes Moreira, na madrugada do dia 13 de abril, Bebel Gilberto, musicista e filha de João Gilberto, contou no Instagram sua versão sobre a música: “Acabou Chorare foi escrita pra mim, quando fui visitar os Novos Baianos com meu pai de carro no meio da madrugada… eu tinha apenas 5 anos. Estávamos no carro e, quando chegamos, acordei com todos eles em volta de mim. Saí do carro, escorreguei no chão ainda sonolenta, sem entender bem onde estava e abri o maior berreiro. Moraes então escreveu Acabou Chorare. E assim nossa história começou”.

A parceria que deu à luz Acabou Chorare começou com a queda de uma garotinha – no Brasil ou no México, dependendo da versão contada, pois há outras -, passou por imagens de abelhas beijando flores numa conversa entre Galvão e o poeta Capinam, teve a aprovação do mestre João Gilberto e virou história.

Essa visita que a pequena Bebel fez aos Novos Baianos foi no Cantinho do Vovô, um sítio em Jacarepaguá, onde os artistas moravam todos juntos. É isso mesmo. Eles eram não apenas um grupo de música, eram também uma comunidade. A saída de Moares Moreira do grupo se dá justamente em razão de sua necessidade de ir morar numa casa fora dali. Como o próprio Moraes contou em entrevista cedida à UnB TV, ele já tinha dois filhos, mais a esposa, e queria organizar melhor seu núcleo familiar. Mas a proposta do coletivo era que as relações não se restringissem apenas ao campo profissional, o que exigia viver a comunidade integralmente. Então, em 1975, Moraes Moreira saiu dos Novos Baianos e iniciou sua carreira solo.

“Eu não, eu não, eu não, que não ia, eu só vou pra Bahia de caminhão”

Detalhe da capa do primeiro álbum solo de Moraes Moreira, lançado em 1975 – Foto: Divulgação

Sua presença nos Novos Baianos pode ser considerada um dos dois aspectos mais centrais da vida e obra de Moraes Moreira. O outro aspecto é o carnaval. Mais especialmente o Trio Elétrico.

Para Moraes Moreira, os trios elétricos eram sagrados. Ele foi, afinal, um dos nomes mais emblemáticos dessa tradição. Ao se reunir aos pioneiros Dodô e Osmar, Moraes Moreira inaugurou o trio elétrico cantado em 1975, pois antes as apresentações eram completamente instrumentais.

Já em 1976, Moraes deu asas a uma antiga composição de Dodô e Osmar. Colocou letra na melodia que se tornou um dos maiores símbolos do carnaval baiano: Pombo Correio.

Por tamanha vinculação aos trios elétricos e ao carnaval em sua forma mais popular, Moraes Moreira sentiu muito quando a festa começou a se elitizar, puxada pelo sucesso avassalador do axé. Depois de anos afastado do carnaval, e crítico em relação ao esvaziamento dos trios elétricos independentes e dos tradicionais afoxés, em 2010 ele comemorou a volta dos “foliões pipoca”. Quem são estes? As pessoas sem vinculação com os blocos fechados, o povo, muitas vezes pobre, muitas vezes de pele escura, muitas vezes negros e negras dos bairros mais periféricos, que durante anos ficaram afastados dos abadás e cordões onde – como Moraes Moreira relatou em entrevista a Ferron e Cohn – “se chegasse uma moça que eles não achassem bonitinha e que não fosse branca não entrava nos blocos”.

Ironicamente, uma de suas músicas, Chão da Praça, é tida como uma das precursoras do axé. Como ele poderia saber que aquela nova expressão musical sufocaria durante tanto tempo o tipo de carnaval que acontecia na Praça Castro Alves, justamente a homenageada pela canção?

“Era o carnaval mais democrático que tinha na Bahia, porque ali cabia tudo: o povão, os intelectuais, os músicos, os cineastas, o desfile dos travestis. Era super democrático. Chegavam a ter seis trios naquela praça”, conta Moraes na entrevista a Ferron e Cohn. E, depois, lamenta: “A Praça Castro Alves, hoje, está meio que morta, perdeu esse sentido com a chegada do axé, que levou o carnaval para o circuito da praia. Esvaziou a festa do povo e começou a história dos abadás e das cordas, construindo o que eu chamo de condomínios na via pública”.

Sua resposta a esse lamento já ressoava há tempos. Na música Cidadão, de 1991, em parceria com Capinam, ele afirma:

No coração do poeta

cabe a multidão

quem sabe essa praça repleta

navio negreiro já era

agora quem manda é a galera

nessa cidade nação

Cidadão

Pela graça da mistura

Moraes Moreira com os Novos Baianos em um trio elétrico – Foto: Divulgação

Moraes Moreira fincou raízes e pedais de guitarra, viveu a arte dos ancestrais junto com a “elétrica cultura”. Uma mistura que José Geraldo Vinci de Moraes enxerga assim: “Esse talvez seja um dos traços mais marcantes de sua obra: ele não seguia uma, digamos, ‘escola’ ou ‘tradição’. Certamente há o Moraes roqueiro, assim como são evidentes os sinais do violão e a voz bossanovistas; a influência do samba, do choro e do frevo são cristalinos e perfeitamente audíveis em sua obra; assim como seu interesse pela música de carnaval e outros gêneros da cultura musical oral são tangíveis. Acontece que em nenhum desses casos é possível qualificá-lo rigorosamente como ‘sambista’, ‘chorão’, ‘roqueiro’ etc. Sua prática era das fusões, combinações e inventividade”.

Apesar de navegar por toda essa diversidade, ele navegava de um jeito muito próprio, ou “moreiriano”.

Completa Vinci de Moraes: “Claro que há uma identidade ‘moreiriana’, que muitas vezes se confunde com a dos Novos Baianos e, nos anos 1980, com o Trio Elétrico. Mas ele transportou para esses lugares sua voz anasalada, o toque de seu violão muito singular, o ritmo incessante associado a uma delicadeza evidente e permanente. E, no meio desse turbilhão afetuoso, brota a inquietude com as fusões, experiências e inventividade. Ao se identificar traços e práticas tão marcantes, como os ‘moreirianos’, se percebe a grandeza da obra e influência do artista”.

Moraes Moreira, nascido em Ituaçu (BA), em 1947, e morto na segunda-feira passada, dia 13 de abril, manteve a preocupação com o mundo em que viveu até há poucos dias. Chegou a escrever um cordel sobre a situação deflagrada pela pandemia do novo coronavírus, em que atenta para o contexto de violência do qual essa crise emergiu, cita Marielle Franco e convoca para a consciência geral e o valor da dignidade de todos os que têm sofrido.

Em 1980, Moraes Moreira lançou uma canção-fábula, numa parceria com Jorge Mautner, contando a história de um passarinho feio que, depois de muito aspirar ser o que não era, descobriu-se sendo um pégaso. A cabeleira desse músico que não se adequava ao banco em que trabalhava nos anos 60 ali permaneceu. Como permaneceram as asas do cavalo e a crina do bicho voador, um fantástico animal que não era nem um sabiá nem um equino de curral. Ele decidiu voar pela vida, com asas sonoras e cabelo farto. E agora segue a trilha de sua composição Arco-Íris:

Meu presente é viver no presente

que saudade me dá do futuro

o que hoje pra mim é escuro

amanhã poderá ser a luz.

Quero um tempo onde não haja tempo

sentimentos não são medidos

onde não faz sentido os sentidos

quando só o silêncio traduz.

Céu de prazeres e flores

pincel e todas as cores

do arco-íris do amor

 

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