Como o projeto do Estado Novo se traduziu na inauguração do Pacaembu

Com Vargas na tribuna e disciplina quase militar, cerimônia inaugural do estádio foi espécie de testemunho do regime

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Panorama da fachada do Estádio do Pacaembu – Werner Haberkorn via Wikimedia Commons / Domínio público

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A inauguração do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho – localizado na região do Pacaembu, no centro-oeste da cidade de São Paulo – pode ser interpretada como um testemunho do projeto político do Estado Novo de Getúlio Vargas. É o que propõe o jornalista Ricardo Assumpção, que está pesquisando a trajetória do Estádio do Pacaembu de 1940 a 1970 no mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. No período estudado, o futebol já estava consolidado como espetáculo de massas.

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Detalhe do portão do primeiro projeto – Arquivo Histórico de São Paulo

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Anteprojeto do Estádio do Pacaembu datado de junho de 1934 de autoria do Escritório Severo & Vilares. Nesse projeto o estádio teria apenas duas arquibancadas laterais e um portão monumental ligando o campo à praça em frente – Arquivo Histórico de São Paulo

Segundo projeto para o Estádio Municipal, realizado durante a gestão do prefeito Francisco Prestes Maia – Imagem publicada no Suplemento em Rotogravura do jornal O Estado de S. Paulo, 1ª quinzena de abril de 1940

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Vista do interior do Estádio do Pacaembu – Werner Haberkorn via Wikimedia Commons / Domínio público

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O Estádio do Pacaembu foi inaugurado no dia 27 de abril de 1940, com uma cerimônia que contou com a presença de Vargas e outras autoridades. Apesar de se tratar de uma obra municipal, a data de inauguração foi escolhida para marcar o segundo aniversário da interventoria de Adhemar de Barros no governo estadual. Assim, conta o pesquisador, as três esferas do poder estatal estavam presentes e representadas na solenidade. Assumpção procurou analisar a cerimônia como um aporte para entender a política de disciplinarização da sociedade promovida pelo Estado Novo.

“O Pacaembu foi visto como uma coisa hipermoderna na época da inauguração”, diz o professor Renato Cymbalista, da FAU, que orienta o trabalho de Assumpção. “Ele passou a ser visto como obsoleto nos anos 1950, após a inauguração do Maracanã, no Rio de Janeiro”, completa o docente. São os jornais que registram essa mudança na percepção sobre o estádio municipal paulistano, acompanhando a conjuntura política, e foi por meio da pesquisa nesses acervos jornalísticos que o pesquisador obteve boa parte dos elementos para análise.


Inauguração do Estádio do Pacaembu, em 27 de abril de 1940. Ao fundo, detalhe da concha acústica – Foto: via Wikimedia Commons / Domínio público
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Estádio do Pacaembu no dia da inauguração – Foto: sob a guarda do Arquivo Nacional via Wikimedia Commons / Domínio público

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Cerimônia de inauguração

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A edição daquele 27 de abril da Folha da Manhã publicou as instruções dadas aos atletas participantes da solenidade. “Eram (instruções) bem específicas da distância que cada atleta devia ter para o outro, como deveria levar a bandeira, como deveria fazer a saudação à tribuna de honra onde estavam Getúlio Vargas e outras personalidades políticas”, diz o mestrando, destacando trechos em que o texto exigia dos atletas um olhar forte, decidido e altivo. “(Era) quase uma disciplina militar, para provar que eram cidadãos capazes de defender o País caso houvesse uma guerra e, durante o tempo de paz, produtivos nas indústrias, nas fábricas e tudo mais. O esporte seria uma maneira do cidadão se manter saudável, sem prejudicar o trabalho na fábrica”, analisa Assumpção.

 

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No dia seguinte, tanto a Folha quanto O Estado de S. Paulo publicaram uma detalhada descrição da cerimônia de inauguração do Pacaembu. A escolhas de palavras dos jornalistas de então reforçam a tônica do discurso oficial. “As palavras que eles utilizam são bem essas, de ordem, disciplina. O discurso do Getúlio Vargas também é interessante. Ele tem muito da ideia de harmonia, desse projeto de criar uma sociedade harmônica”, afirma o pesquisador, acrescentando que, na visão do chefe de Estado, uma sociedade harmônica seria aquela que suprimisse a ideia da luta de classes e se concentrasse em um objetivo único, que naquele momento era “a identidade nacional, que seria o futuro do Brasil”.


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Assumpção, que apresentou sua análise no último congresso da Sociedade Internacional para a História da Educação Física e do Esporte (ISHPES, na sigla em inglês), destaca como resultado importante da pesquisa a compreensão de que a inauguração do Pacaembu foi também resultado de um esforço de diferentes esferas de governo e setores da sociedade para empenhar recursos na construção do estádio – a sociedade civil contribuiu por meio de doações e parcerias para viabilizar a parte social do clube municipal. Cada um dos grupos que se envolveram com a obra tinha seus próprios interesses, mas todos convergiram no apoio ao projeto ideológico do regime autoritário de Vargas. No meio do caminho, o projeto mudou de cara algumas vezes até chegar à configuração de 1940.

 

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Panorama do interior do Estádio do Pacaembu – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Ricardo Assumpção – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Tempos de glória

Os tempos de glória do Pacaembu, pela pena dos cronistas daquela época, acabaram em questão de dez ou 15 anos. A inauguração do Maracanã tirou do estádio municipal paulistano o título de maior arena da América Latina e, segundo Cymbalista, representou uma mudança de linguagem arquitetônica. De acordo com Assumpção, a opinião pública passou a ver o Pacaembu como ultrapassado e o poder público, incapaz de mantê-lo. Assim, a cidade precisaria de um novo estádio para receber os grandes clássicos.

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Vistas pontuais do Estádio Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu) – Foto: Werner Haberkorn via Wikimedia commons / Domínio público

 

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“É interessante a gente pensar na mudança do público para o privado. O Morumbi começou a ser construído pelo São Paulo em 1952 e era um empreendimento que não tinha como dar certo, porque era um estádio gigantesco de um clube que era grande, mas não era rico. Aí, nos jornais, ao mesmo tempo em que a gente vê essa ideia de que o Pacaembu não serve mais, a sociedade inteira precisa apoiar o SPFC [São Paulo Futebol Clube] porque o esporte paulista precisa do Morumbi”, comenta o jornalista, apontando para o marco final de sua pesquisa. Com a inauguração em 1970, o Estádio Cícero Pompeu de Toledo acabou por substituir o Pacaembu como principal arena do futebol paulista por décadas.


Concha acústica ao fundo, em foto da decisão da Taça Cidade de São Paulo entre Palestra Itália e Corinthians realizada em 1940 – Foto: via Wikimedia Commons / Domínio público

Partida realizada entre Palmeiras e Corinthians no Estádio do Pacaembu – Foto: Leonef  via Wikimedia commons / Domínio público

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Vistas pontuais do Estádio Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu) – Foto: Werner Haberkorn via Wikimedia commons / Domínio público

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Vistas pontuais do Estádio Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu) – Foto: Werner Haberkorn via Wikimedia commons / Domínio públicom

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