Dados de celular sugerem que paulistano aderiu ao isolamento

Pesquisadores verificaram redução da circulação de pessoas em SP entre 14 e 21 de março; busca agora é por dados de pacientes de covid-19

Dados de localização de celulares sugerem que houve uma diminuição sensível na circulação de pessoas na cidade de São Paulo a partir do dia 14 de março, um dia depois de a prefeitura determinar a suspensão de eventos promovidos pelo poder público municipal e o governo do estado anunciar a suspensão das aulas na rede estadual de ensino, devido aos risco de disseminação do novo coronavírus. A análise é de um grupo de pesquisa sediado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, em parceria com uma startup que trabalha com soluções de inteligência para empresas.

Os pesquisadores do Laboratório de Bioinformática e Biologia de Sistemas Computacional da FCF criaram uma escala de -5 a 5 para qualificar o volume de deslocamentos nos 96 distritos paulistanos durante o período de 1º de fevereiro a 21 de março. Na escala, o zero representa a mediana da circulação de pessoas em cada dia da semana. A partir de 14 de março, quase todos os distritos da cidade registraram quedas diárias na escala de circulação de pessoas, na comparação com a mediana. No dia 21, toda a cidade atingiu o grau mínimo na escala dos pesquisadores, com a exceção de um único distrito onde a redução no volume de deslocamentos foi menos expressiva.

Confira no vídeo a visualização produzida pelo Laboratório de Bioinformática
e Biologia de Sistemas Computacional da FCF:

Os resultados devem ser considerados com cautela, pois a base de dados representa apenas uma fração da população da cidade e da região metropolitana de São Paulo: foram 4 milhões de celulares vinculados a aplicativos da startup In Loco, em comparação com os 20 milhões de habitantes da Grande São Paulo. Dessa forma, o estudo serviu como uma espécie de “piloto” para outros monitoramentos do comportamento da população de São Paulo durante a pandemia de covid-19. O artigo relatando os resultados foi disponibilizado online em formato preprint (que ainda não passou por revisão por cientistas externos ao grupo) e ainda poderá sofrer alguns ajustes.
 
Apesar dessas limitações, Helder Nakaya, professor da FCF e coordenador do laboratório, afirma que a metodologia permite verificar quais bairros estão mantendo o isolamento de forma mais contundente. Além disso, ela pode ajudar a melhorar as políticas de distanciamento social.
 

Várias cidades do Brasil fizeram medidas um pouquinho diferentes umas das outras. Será que quando eu paro as escolas de uma cidade, vou parar a mobilidade lá, ou as pessoas começam a ir para o shopping, começam a ir para outros lugares? Será que se eu parar as escolas e os transportes públicos, eu isolo mais as pessoas?”,

exemplifica Nakaya. “Você consegue usar isso para monitorar e saber melhor quais são as medidas que mais funcionam para conter a epidemia; consegue melhorar a economia, no sentido de que você não precisa de repente parar todos os serviços”, completa o professor.

Os pesquisadores também analisaram a movimentação no aeroporto de Guarulhos e verificaram que, só no período de 17 de fevereiro a 22 de março, mais de 70 mil usuários visitaram o local – e muitos deles seguiram viagem para destinos localizados a mais de 2 mil km de distância.

Nakaya conta que percebeu que a abordagem daria resultados quando viu nos dados um aumento no índice de isolamento em São Paulo em dois dias atípicos. “Eu vi que tinha dois dias, uma segunda e uma terça, em que estava todo mundo isolado. Que diabo foi isso? Como é que segunda e terça estava todo mundo isolado? Aí eu vi que foi aquela segunda e terça que São Paulo estava alagada. Então, realmente, a gente está capturando momentos em que ninguém se move”, diz ele.

Dados de pacientes podem ajudar a conhecer a covid-19

Esta não é a primeira vez que a equipe do laboratório trabalha com dados de localização de celulares. O grupo mantém há alguns anos um projeto chamado SiPoS (do inglês para “sistema de posicionamento de doenças”), que cruza dados de geolocalização registrados por celulares para identificar possíveis focos de doenças infecciosas. Agora, com a pandemia do novo coronavírus, a equipe de Nakaya está trabalhando junto com pesquisadores do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP para montar uma base de dados com informações de pacientes de covid-19.

A professora Anna Sara Schafferman Levin, médica infectologista do HC e colaboradora do projeto, contou ao Jornal da USP que o hospital obteve da Secretaria Estadual de Saúde uma listagem inicial de cerca de 600 pacientes diagnosticados com a doença. A base de dados inclui apenas a data de início dos sintomas e uma informação de contato. Estudantes da Faculdade de Medicina estão telefonando para essas pessoas para convidá-las a fazer parte do projeto.

Se a pessoa concordar em participar, ela autoriza a localização no celular e a gente não vai usar nada exceto a informação de onde ela andou”, afirma Levin.

Para os pesquisadores envolvidos no projeto, a análise dos dados de geolocalização pode ajudar os cientistas a refinar os modelos epidemiológicos e fazer melhores estimativas sobre o comportamento do vírus SARS-CoV-2.

“Tem um monte de perguntas que a gente não sabe responder sobre o covid-19. Uma pessoa antes de ter os sintomas, quanto tempo antes ela transmite; depois que ela tem sintomas, por quanto tempo transmite; se existe uma pessoa que a gente chama de super-spreader, uma pessoa que infecta mais gente – porque em algumas doenças tem pessoas específicas que espalham muito mais do que outras”, diz a infectologista do HC, sobre os objetivos do projeto durante a pandemia.

Mais informações: e-mail siposusp@gmail.com

Este vídeo do Canal USP, produzido em 2017, conta como os pesquisadores
usam os dados do SiPoS. Assista:

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