Mudanças nos canaviais impõem desafios ao setor sucroenergético

Laboratório em Piracicaba desenvolve estudos para melhorar a qualidade do açúcar produzido no Brasil

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Com a mecanização da colheita canavieira, há o surgimento de uma nova matéria-prima, desconhecida dos profissionais do setor. Foto: Mayke Toscano/Gcom-MT via Fotos Públicas

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O açúcar cristal movimenta bilhões de reais e gera milhares de empregos no setor sucroenergético. Mas a qualidade da cana-de-açúcar, de fundamental importância nos processos industriais em que o produto é utilizado, tem sido colocada em xeque. A avaliação é do engenheiro químico Claudio Lima de Aguiar, professor do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.

Com o advento da mecanização da colheita canavieira, há o surgimento de uma nova matéria-prima, desconhecida dos profissionais do setor. “Novas variáveis são adicionadas ao processo industrial, gerando novas demandas de estudos e pesquisa científica”, analisa Aguiar.

Se “a cana agora é outra”, é preciso saber trabalhar bem com ela. Coordenado pelo docente, um grupo de pesquisa que atua no Laboratório Hugot de Tecnologia em Sucroderivados tem trabalhado para desenvolver conhecimentos nas áreas de controle analítico, tratamento/purificação de caldo de cana e armazenamento de açúcar cristal.

Claudio Lima de Aguiar, professor do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq – Foto: Gerhard Waller / Esalq

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Lembrando que neste setor o aumento dos custos da produção não é repassado ao consumidor, a manutenção das empresas depende ainda mais da boa gestão de seus processos e da redução do uso de insumos, ou mesmo da busca de novos insumos mais eficientes, por exemplo. Uma das perguntas que se busca responder é: quais seriam os impactos da mudança de cana queimada integral para cana crua picada nos processos industriais? Desgaste de equipamentos? Aumento de insumos químicos? Aumento do custo de produção? Necessidade de ajustes operacionais? Os resultados dos estudos até agora indicam resposta afirmativa para todas essas questões. “O fato é que, a cada nova safra, estamos descobrindo novas facetas desta matéria-prima”, diz o pesquisador.

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Desafios

Os trabalhos têm foco nos impactos da presença de impurezas vegetais e minerais sobre métodos analíticos já consagrados para avaliação da qualidade e controle de processo. Muitas das impurezas advindas de um novo conceito de colheita trazem desvios nos valores reais de sacarose, glicose e frutose. “Um melhor entendimento das causas nos permitirá a busca e o desenvolvimento de soluções. Um exemplo é o aumento da presença de flocos (ditos ácidos) em refrigerantes adoçados com açúcar cristal. Os flocos ácidos são percebidos em refrigerantes após dias do envase, não trazendo perigo ao consumidor, muito embora seu aspecto possa causar uma recusa na aquisição do produto”, explica o docente.

Outra decisão a ser pensada pelo setor sucroenergético, com apoio direto da comunidade científica, é definir o destino/manejo do ponteiro, a parte superior da cana, região com maior teor de amido, que antes era queimada e agora segue para a indústria. “O ponteiro não pode ficar no campo porque, dependendo do tipo de solo, forma uma cama de palha sobre o broto da cana e aumenta a dificuldade do brotamento. Além disso, no tratamento do caldo, já na usina, o aquecimento acaba transformando o amido em um material gelatinoso e isso pode gerar entupimento dos filtros”, exemplifica.

Muitas das impurezas advindas de um novo conceito de colheita trazem desvios nos valores reais de sacarose, glicose e frutose – Foto: Mayke Toscano/Gcom-MT via Fotos Públicas

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No campo, a infestação de pragas tem aumentado e, após a proibição da queima, foi registrado um aumento gradual da incidência da broca-da-cana e do raquitismo. “Essa é outra questão a ser sanada, sobre a qual já estão debruçados, juntamente com colaboradores, entomologistas e fitopatologistas. Em linhas gerais, antes tínhamos o que poderíamos chamar de ‘cana de garapeiro’, ou seja, aquela cana cortada e limpa uniformemente. Agora, o setor precisa apurar seu conhecimento sobre as safras, redefinir processos, dialogar com essa ‘nova’ matéria-prima que chega às usinas.”

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Grupo de pesquisa

Desde seu início, em 2009, o Laboratório Hugot de Tecnologia em Sucroderivados já publicou 33 artigos, formou dez mestres e deu treinamento técnico-científico a diversos alunos, inclusive estrangeiros, de diferentes áreas do conhecimento. Atualmente, são seis os laboratórios que encontram suporte nas dependências do laboratório Hugot da Esalq. “Nosso grupo de pesquisa tem por meta a busca de soluções práticas para o setor açucareiro nacional, buscando o desenvolvimento de pesquisas em conjunto com os mais renomados laboratórios e institutos do mundo em suas especialidades e em parcerias com o setor produtivo”, define Claudio Lima de Aguiar.

Da Divisão de Comunicação da Esalq, com edição do Jornal da USP
Mais informações: e-mail acom.esalq@usp.br
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