Testes iniciais identificam composto com propriedade anti-inflamatória no óleo de copaíba

Em testes preliminares com células, pesquisadores encontraram um composto no óleo que atua nas proteínas mediadoras da inflamação. Pesquisas em animais e depois em humanos ainda são necessárias para saber se o potencial se confirma para além do laboratório

 30/09/2022 - Publicado há 2 meses  Atualizado: 03/10/2022 as 15:18
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Imagem de uma Copaifera pubiflora, árvore da qual se extrai o óleo de copaíba, presente nas regiões tropicais da América Latina, África e Ásia – Foto: Juan Manuel Cardona Granda

 

Testes em laboratório na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP identificaram um composto com propriedades anti-inflamatórias no óleo de copaíba. Responsável pelo estudo, o farmacêutico Guilherme Venâncio Símaro explica que a oleorresina tem vários compostos, por isso o estudo comparou as propriedades do óleo e de um composto separadamente, o ácido hardwíckiico, que é o componente predominante na oleorresina da árvore Copaifera pubiflora.

Em testes com células no laboratório (in vitro) tanto a oleorresina quanto o ácido hardwíckiico apresentaram efeito anti-inflamatório, antinociceptivo (capaz de anular a percepção de dor) e não se mostraram tóxicos às células. Os experimentos, feitos na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, são preliminares, e uma possível aplicação medicamentosa demanda outras pesquisas, incluindo testes em pessoas, os chamados ensaios clínicos.

 

Uso em medicamentos depende de mais testes

Guilherme Venâncio Símaro – Foto: Reprodução/Facebook

Na ação anti-inflamatória, há bloqueio do chamado “fator de transcrição do NF-κB (lê-se “NF kappa B”). Isso significa que a oleorresina e o ácido podem impedir que o organismo produza proteínas chamadas citocinas, que regulam a inflamação. Ao bloquear esse processo, há a redução também dos sintomas que “denunciam” o problema, como dor e febre. O pesquisador exemplifica com um quadro de infecção de garganta, em que existe dor, febre e sensibilidade aumentada na garganta. “Quando a gente bloqueia essas proteínas, por consequência, o processo inflamatório é reduzido”, acrescenta.

Além da ação anti-inflamatória, Símaro esteve atento à atividade citotóxica da oleorresina e do ácido, ou seja, observou se eles causavam danos ou matavam células, sejam elas normais ou tumorais. De acordo com o pesquisador, a citotoxicidade não necessariamente é uma coisa ruim, “quando você tem um tumor, você quer matar aquela célula tumoral; se você testa um composto que mata as células tumorais isso seria bem interessante”, assinala o pesquisador. 

Os testes não encontraram nenhum tipo de citotoxicidade, entretanto, Símaro deixa claro que são respostas ainda preliminares que demandam muitas outras etapas de pesquisas para verificar se o óleo extraído da planta pode ser utilizado como composto de medicamentos.

Além dos estudos toxicológicos, o pesquisador destaca a importância das pesquisas farmacocinéticas, aquelas que estudam como e por quais vias os compostos da planta são absorvidos pelo organismo. “Qual é a biodisponibilidade do composto da planta? Ele chega com uma quantidade suficiente ao sangue, ou não? Ele tem perda? Qual é a melhor via de administração? Isso tudo teria que ser verificado.”

 

Propriedades da copaíba vão além das medicinais

Jairo Kenupp Bastos – Foto: Reprodução/Fapesp

Jairo Kenupp Bastos, orientador do estudo e professor da FCFRP, conta que, pelas propriedades anti-inflamatórias, a copaíba tem potencial medicinal, mas também de uso cosmético e industrial. Diz que o Brasil produz cerca de 600 toneladas por ano da oleorresina, que são comercializadas para o mundo inteiro para produção de diversos produtos. Ainda segundo Bastos, a parte mais volátil desse óleo também é usada como resina para a solubilização de aromas, tintas, verniz, além dos próprios cosméticos.

A pesquisa Avaliação das atividades citotóxica, anti-inflamatória e antinociceptiva da oleorresina de Copaifera pubiflora Benth e de seu metabólito majoritário ácido ent-hardwíckiico foi defendida em maio de 2021 como tese de doutorado de Guilherme Venâncio Símaro, sob orientação do professor Jairo Kenupp Bastos. Um artigo resultante da pesquisa pode ser acessado neste link.

Mais informações: e-mail guilhermesimaro@gmail.com com Guilherme Símaro, ou e-mail jkbastos@fcfrp.usp.br, com Jairo Bastos


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