Técnica da USP que usa ultrassom para reposicionar DIU tem mais de 90% de efetividade

O procedimento inédito é simples, rápido e pode ser resposta à falta de recursos nos hospitais públicos, além de reduzir gastos no sistema privado

 18/08/2022 - Publicado há 1 mês  Atualizado: 22/08/2022 as 11:31
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A escassez dos dispositivos intrauterinos nos hospitais públicos e o alto índice de deslocamento do DIU quando colocado por médicos residentes, em formação, levaram ao desenvolvimento do novo procedimento – Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

 

Técnica desenvolvida pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP usa ultrassom para reposicionar o DIU (dispositivo intrauterino) parcialmente expelido de dentro do útero das pacientes, com taxa de sucesso em mais de 90% dos casos. O relatório final do estudo, publicado no mês passado na revista americana Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, mostra que o procedimento evita gastos com um novo dispositivo e despesas médicas, além de auxiliar médicos em treinamento.

A inserção do DIU é feita após um exame com espéculo, mesmo instrumento utilizado na coleta do papanicolau, e a limpeza do colo do útero e das paredes vaginais com antisséptico. Em seguida, o médico prende o colo com uma pinça, introduz um instrumento para medir a cavidade uterina da paciente e insere o dispositivo, que deve permanecer totalmente dentro do útero. Mulheres com deslocamento parcial do DIU podem apresentar sintomas como cólicas e sangramento aumentado ou prolongado.

Arte de Lívia Magalhães com imagens de FlatIcon

 

A médica Erciliene Moraes Martins Yamaguti, do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP e uma das autoras do estudo, conta que a pesquisa acompanhou 55 mulheres submetidas ao reposicionamento do DIU com a nova técnica, entre janeiro de 2016 e fevereiro de 2020, durante os seis meses que se seguiram ao procedimento.

Como resultados, obtiveram 93% de sucesso dos reposicionamentos. Das 55 participantes, 51 tiveram o dispositivo reposicionado corretamente. Erciliene informa que quatro participantes não completaram o procedimento devido à dor. Outro dado importante foi verificar que, após seis meses, 80% dos DIUs “continuaram no lugar, uma coisa bem interessante”, destaca a médica.

A técnica

A técnica, inédita e de fácil aprendizado, foi desenvolvida em 2012, na FMRP, por dois médicos especialistas em obstetrícia e ginecologia, Erciliene Yamaguti e Wellington de Paula Martins. A partir de 2016, o procedimento foi incluído no programa de treinamento em obstetrícia e ginecologia do curso médico da unidade USP.

Segundo Erciliene e Carolina Sales Vieira, professora associada do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP, a técnica é indicada para aqueles DIUs com o braço cervical estendido parcialmente ou totalmente pelo canal cervical – parcialmente expelidos e verificados por um ultrassom. O procedimento é feito por dois profissionais da saúde: o primeiro fica responsável pelas imagens do ultrassom e o outro pelo exame ginecológico e o reposicionamento do dispositivo com uma pinça.

A professora Carolina conta que o objetivo foi criar uma técnica em que “o médico não precisa ser expert para aprender, então seria uma técnica altamente reprodutível”. Ao ensinar os residentes, o conhecimento da técnica se multiplica e possibilita que outros profissionais e hospitais realizem o procedimento, como já acontece atualmente.

Da necessidade surgiu a técnica

A médica conta que a escassez de dispositivos intrauterinos nos hospitais públicos e o alto índice de deslocamento do DIU quando colocado por médicos residentes, em formação, levaram ao desenvolvimento da nova técnica. 

Carolina Sales – Foto: FMRP

“Foi uma saída para melhorar nosso ambiente universitário mesmo; falta de DIU e o médico que está sempre em treinamento, que tem mais erro na inserção; então foi da necessidade que a gente começou a fazer esse procedimento”, comenta Carolina Sales.

Trabalhar em um ambiente com poucos recursos contribuiu para os autores da técnica encontrarem uma solução em que o dispositivo não precisasse ser substituído, evitando novos gastos. “A ideia de desenvolver essa técnica veio da necessidade de achar uma forma mais barata de recolocar no lugar aqueles DIUs que estão saindo do útero”, afirma Carolina.

E o benefício do reposicionamento do DIU, garante Erciliene, está também na economia que o procedimento proporciona, “não só para a saúde pública, mas para a saúde suplementar também é um ganho grande”.

Outro fator destacado pelo estudo a favor do desenvolvimento da técnica foi o alto índice de deslocamento do DIU quando colocado por um médico ainda em treinamento. “Além da escassez do DIU, a gente ainda tinha essa dificuldade em trabalhar com residente, que está em treinamento constante, então é comum essa curva de aprendizado, esses DIUs fora do lugar”, diz Erciliene.

Importância do DIU para as mulheres brasileiras

Erciliene Yamaguti – Foto: Arquivo pessoal

Conforme pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz, que ouviu 24 mil mães em 191 municípios do Brasil, 55% das brasileiras tiveram gravidez não planejada, número acima da média mundial, que é de 40%. Segundo Erciliene, os métodos contraceptivos mais usados atualmente pelas mulheres no Brasil são a pílula anticoncepcional e a laqueadura; porém, os chamados LARC, sigla em inglês que na livre tradução significa Métodos Contraceptivos Reversíveis de Longa Duração, que incluem o DIU e o implante subcutâneo, podem ser mais seguros e eficazes.

A médica afirma que os LARC apresentam taxa de falha muito pequena, menor que a da própria laqueadura, e podem ajudar na redução do índice de gravidez não planejada. “Atualmente, no Brasil, a taxa de LARC é muito baixa, menos de 2%”, diz Erciliene, destacando os benefícios do método, principalmente para os grupos vulneráveis, como adolescentes e usuárias de drogas.

Colaboração: Patrícia Cainelli


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