Baixos níveis educacionais dificultam compreensão dos conceitos científicos da pandemia

Para professor da USP, por não compreender o fenômeno científico da pandemia, população carente está mais exposta e demanda maior mobilização para melhorar comunicação e entendimento

Que a expansão da pandemia de covid-19 potencializou a perversa desigualdade social e econômica entre as classes sociais no Brasil não é segredo para ninguém; e em Ribeirão Preto não foi diferente. O avanço sobre as periferias mostra uma realidade desafiadora. Com a contagem de casos e mortes ainda em alto patamar, mesmo tendendo à estabilização, o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) a respeito do novo coronavírus no Brasil ganha constatação.

Em Ribeirão Preto, de acordo com a Secretaria Municipal da Saúde, o bairro mais afetado pela covid-19, em julho, estava na região oeste, mais precisamente o Parque Ribeirão Preto. Na Unidade Básica de Saúde do bairro, 428 pessoas tiveram o diagnóstico positivo para o coronavírus. Em seguida, aparece o bairro Vila Virgínia, também na zona oeste e periferia da cidade, com 425 casos detectados na Unidade Básica Distrital de Saúde (UBDS), até a última atualização oficial da Secretaria da Saúde. 

Ao avaliar a situação local, o professor de Psicologia Social, da  Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, Sérgio Kodato, diz que “a pandemia escancarou o agravamento da desigualdade entre ricos e pobres e entre as regiões centrais e a periferia onde moram os trabalhadores temporários, sub-remunerados e desempregados em condições precárias de vida”.

Segundo o professor, o alto índice de infecção pelo novo coronavírus nas regiões mais vulneráveis da cidade decorre dos baixos níveis educacionais, que reduzem a capacidade de compreensão científica da pandemia. “Pensar cientificamente significa pensar a causa dos fenômenos”, comenta.

Por isso, alerta o professor, nas favelas, as marcas da desigualdade aumentam o desafio para prevenção e controle da covid-19 e exigem estratégias intersetoriais adaptadas a contextos diferentes. Uso de álcool gel e máscaras, higienização das mãos e mesmo a recomendação para não sair de casa são medidas que esbarram em realidades  brasileiras, ou na ausência de direitos básicos, como saúde, emprego e moradia.

Juliana Pereira, moradora do bairro Jardim Progresso em Ribeirão Preto, também na região oeste, comenta que no bairro “não houve nenhuma ação para conscientizar os moradores sobre o isolamento social, higienização e o uso de máscaras”.  A moradora relata que “as pessoas não estão respeitando o isolamento social no bairro, promovendo festas sem distanciamento nem uso de máscaras”.

Para Kodato, “estamos diante de uma catástrofe, de uma guerra, que exige a mobilização comunitária de todos os setores, utilizando tecnologia da informação e da inteligência para melhorar a comunicação e o entendimento da população”. Ações como a articulação com agentes de saúde, Secretarias da Prefeitura, universidades e institutos de pesquisa poderiam ser implantadas para mudar a realidade em bairros como o Jardim Progresso e outros da periferia de Ribeirão Preto, explica.

“A segregação socioespacial agravou a situação”, diz Kodato, lembrando que as condições de trabalho, moradia e deslocamento articulam-se “como um enlace contraditório” das diferentes condições entre classes sociais desigualmente percebidas na cidade. E afirma também que não se pode comparar as periferias de Ribeirão Preto e de São Paulo, já que na capital “tudo acontece em larga escala”.

Ouça a entrevista completa do professor Sérgio Kodato e da moradora Juliana Pereira no player acima.

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