Inovações na medicina propiciam dúvidas em médicos

Para especialista, profissionais podem ter ansiedade para usar novas terapias, que nem sempre são mais eficazes

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Quando se fala em ansiedade em relação a diagnósticos e tratamentos, sempre se pensa no lado do paciente. Mas o problema atinge os médicos também. Os especialistas sofrem com dilemas em suas áreas: quais operações realizar, quais medicamentos utilizar, etc. Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, o dr. Flavio Hojaji, professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP e especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, fala sobre o alto número de exames relacionados à glândula tireoide, formas de diagnósticos atuais e seus achados: tumores de vários tamanhos, que muitas vezes não eram diagnosticados e tratados há 20 anos.

Na opinião dele, uma das coisas importantes que os médicos vivem hoje é o que é trazido como “inovação”. Ele exemplifica que, assim como as pessoas têm ansiedade e vontade de consumir produtos “da moda”, elas querem também consumir as novidades da medicina. Quando o médico não oferece a novidade (que pode ser uma cirurgia diferente ou um medicamento novo), a impressão que dá é de que ele é defasado, o que nem sempre é verdade. Usando a sua área, cirurgia de cabeça e pescoço, como exemplo, ele cita a cirurgia robótica de tireoide como uma novidade que não tem tantos benefícios. A cirurgia feita hoje propicia um descolamento tecidual em volta da glândula de 3 a 4 cm de comprimento e o paciente recebe uma anestesia geral que dura uma hora. Já as cirurgias robóticas precisam de deslocamentos grandes por conta do local de incisão ser longe do pescoço, gerando um deslocamento de tecido de 10 a 12 cm. Além disso, é uma operação mais longa. Ou seja, o único benefício é só mudar o local de incisão.

Medicina – Foto: Visual Hunt /CCO

Para o médico, é papel da Universidade investigar novas possibilidades, mas no dia a dia é necessário ter cuidado em oferecer algo novo sem ter certeza de que isso responderá a todas as necessidades do paciente.

Falando sobre tratamentos para câncer nessa região, ele comenta novos estudos que sugerem a não retirada de tumores quando estes são muito pequenos (de 1 a 2 cm). No Japão, há uma pesquisa que mostra que apenas a observação do tumor pode ser eficaz. Para Flavio Hojaji, as terapias geralmente são radicais: ou não se mexe no tumor ou se retira toda a glândula. Ele esclarece que se pode fazer cirurgias parciais, que trarão benefícios, uma vez que o paciente não perde toda a tireoide. O médico ressalta o mais importante: avaliar criticamente durante todo o tempo o que deve ser feito.

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