O significado histórico da Primavera de Praga

Edgardo Loguercio é jornalista e mestre pelo Programa de Pós-Graduação da América Latina (Prolam-USP)

.Manifestação em Helsinque contra a invasão da Checoslováquia liderada pelos soviéticos em agosto de 1968 – Foto: Szilas – Self-photographed  via Wikimedia Commons / Domínio público

Edgardo Loguercio – Foto: Francisco Emolo / USP Imagens

Os processos de desintegração da burocracia soviética e seus satélites haviam começado a se manifestar com as revoltas de Berlim Oriental (1953), Poznan, na Polônia (1956) e a revolução política na Hungria (1956), afogada em sangue. Na Checoslováquia, onde uma “democracia popular” controlada por uma burocracia alinhada ao Kremlin tinha sido estabelecida em 1948, um terremoto político sacudiu o país no início de 1968.

A Primavera de Praga evidenciou as contradições apresentadas pelas tendências na burocracia à restauração capitalista e das massas a se rebelarem contra a ordem stalinista. A rebelião checoslovaca se inserta no esgotamento do equilíbrio alcançado no final da II Guerra Mundial, expresso em uma série de eventos, como o Maio francês, a revolução dos povos coloniais e o atoleiro dos EUA no Vietnã.

Uma crise econômica, em meados dos anos 60, causada pelos métodos de gestão burocráticos, levou a uma divisão dentro da burocracia checoslovaca, opondo ao setor “ortodoxo” o  presidente Antonín Novotný ao grupo dos “reformadores” liderado por Alexander Dubcek e o economista Ota Sik. A reforma propunha aumentar o papel do mercado e direcionar a produção para a demanda externa, isto é, no sentido de integração com o mercado capitalista.

Alexander Dubcek – Foto: Romanian National Archives via Wikimedia Commons / Domínio público

A crise eclodiu quando, no final de 1967, foi descoberto um plano de Novotný para endurecer o regime, o que acelerou as disputas internas. Os reformadores buscaram então uma base social nos setores mais avançados da intelligentsia e da juventude, que exigiam o fim da censura e das liberdades políticas. A fração Dubcek-Sik, que assumiu o governo, representava os interesses “independentes” da burocracia checoslovaca perante Moscou e se apoiava no ódio acumulado na sociedade contra o despotismo da era Novotný.

A ascensão revolucionária que se seguiu revelaria a intransponível contradição entre os interesses da casta parasitária de origem stalinista e os interesses das massas. As críticas da burocracia soviética multiplicaram-se na mídia. As artes, as publicações políticas, o debate intelectual e o ativismo social floresceram. A censura foi formalmente abolida, a formação de forças políticas independentes e clubes sem afiliação política foi autorizada. Conselhos de trabalhadores foram formados nas principais cidades e os antigos burocratas sindicais foram repudiados. No final de junho, o “Manifesto das 2.000 palavras”, como foi conhecido, ia dirigido diretamente contra os burocratas do Kremlin.

Placa do Memorial em Košice, atual Eslováquia – Foto: Marián Gladiš via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

Como concessão ao movimento de massas, Dubcek comprometeu-se a convocar um XIV Congresso Extraordinário do Partido Comunista da Checoslováquia (PCC). Essa foi a principal razão que precipitou a decisão da União Soviética de intervir militarmente, depois que um relatório secreto revelara que o resultado seria a substituição da burocracia subordinada a Moscou. A mobilização militar do Pacto de Varsóvia deixou a nu o desespero da burocracia internacional perante o espectro da revolução.

A intervenção não tinha como objetivo enfrentar o programa econômico dos reformadores, mas as concessões democráticas que abriram um cenário revolucionário que, aos olhos do Kremlin, estava transbordando a capacidade de contenção da fração Dubcek. Diante da crise checoslovaca, as grandes potências capitalistas permaneciam expectantes, apostando que a burocracia iria sufocar a revolução política. Os EUA e os países da Otan respeitaram a divisão do mundo com a URSS em “esferas de influência”.

Na noite de 20 a 21 de agosto, as forças do Pacto de Varsóvia – URSS, Polônia, Hungria e Bulgária – ocuparam Praga e, em seguida, outras cidades da Checoslováquia, com meio milhão de soldados e 7 mil tanques. A rejeição da população checoslovaca, que confrontou os invasores com métodos de resistência pacífica, foi unânime. A invasão resultou na prisão de Dubcek e outros reformadores, levados a Moscou para “negociações”, após o fracasso na tentativa de formar um novo governo de burocratas afins e a resistência maciça em todo o país.

Uma crise econômica, em meados dos anos 60, causada pelos métodos de gestão burocráticos, levou a uma divisão dentro da burocracia checoslovaca, opondo ao setor “ortodoxo” o  presidente Antonín Novotný ao grupo dos “reformadores” liderado por Alexander Dubcek e o economista Ota Sik.

Em meio ao choque causado pela invasão, no dia seguinte os setores mais avançados da resistência em Praga conseguiram convocar os delegados já eleitos para o XIV Congresso, que vieram de todas as regiões do país para se reunir clandestinamente no bairro operário de Vysocany, na capital checoslovaca. O Congresso declarou que não aceitaria “uma autoridade de ocupação nem um poder colaboracionista apoiado pela força militar dos ocupantes”, reafirmou a defesa da ordem socialista e o repúdio da burocracia.

Gustav Húsak – Foto: Bundesarchiv, Bild via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0 de

Os chefes do Kremlin, em resposta, aceitaram que os “renovadores” retomassem o governo que seus próprios tanques tinham tentado liquidar. A burocracia do “socialismo com rosto humano” procurará então resolver com medidas políticas o que não fora possível apenas com a força das armas. A missão de Dubcek era implementar os Acordos de Moscou: preservar o antigo aparelho do partido, ignorar o XIV Congresso Extraordinário e terminar com os conselhos operários, o que foi chamado a política de “normalização”.

O relato corrente encerra a experiência da Primavera de Praga com a chegada das tropas soviéticas. A invasão, no entanto, provocou um aumento notável do movimento dos conselhos de trabalhadores na indústria. As fábricas tornaram-se os pontos mais fortes de resistência contra a intervenção. Logo depois, uma greve estudantil promoveu o surgimento de comitês de ação conjunta entre trabalhadores e estudantes.

O surgimento dos conselhos de fábrica disparou no final de 1968. Era o sintoma mais revelador de que os objetivos da invasão estavam longe de serem alcançados. Embora até então o processo tenha se mantido dentro dos limites impostos pela burocracia reformista, em janeiro de 1969 foi realizada a histórica Conferência Nacional dos Conselhos de Trabalhadores, que reuniu em Plzen representantes de 190 empresas e cerca de um milhão de operários. Poucos dias depois, num ato heroico e desesperado, um jovem se imolaria publicamente em uma praça para provocar a reação popular em Praga. Mais de 800 mil pessoas se mobilizaram, e o governo voltou a temer a onda revolucionária.

Multidão de manifestantes cercando tanques soviéticos durante os primeiros dias da invasão – Foto: Engramma.it via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

Nessas circunstâncias, a burocracia deu o passo final para sufocar a revolução. Desgastado aos olhos das massas, Dubcek foi demitido por ordem de Moscou como primeiro-secretário do CPCh e substituído por Gustav Húsak em abril, que desatou uma repressão generalizada. O bloco operário-estudantil e todos os seus acordos e atividades foram considerados ilegais. Em maio, a burocracia declarou que a autogestão industrial deveria ser rejeitada porque “reabriria a questão do poder”. A tática de desmantelar gradualmente os conselhos chegou ao fim em julho de 1970, quando foram proibidos pelo Ministério da Indústria.

A partir de então, as burocracias de todo o bloco soviético entrariam num processo de desintegração irreversível, que as levaria a idealizar o processo de restauração capitalista consumado duas décadas depois. Apesar de derrotada, a luta da classe operária checoslovaca pela revolução política conseguiu demonstrar em toda sua extensão a natureza reacionária e parasitária da casta stalinista.

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