1968 no mundo, além da lenda

Osvaldo Coggiola é professor titular de História Contemporânea da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – FFLCH-USP

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Visão geral dos manifestantes marchando durante os eventos de maio de 68 na Rua Alsácia-Lorena, em Toulouse – Foto: André Cros via Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Osvaldo Coggiola – Foto: Francisco Emolo

1968 não é só o símbolo de um processo, mas também de um evento, que condensa acontecimentos não exclusivos desse ano, que vão da Revolução Cultural chinesa (“iniciada” em 1966), até o cordobazo argentino (1969) ou a ascensão do governo de Salvador Allende no Chile (1970), passando pelo “outono quente” italiano (também de 1969). O franco-centrismo de 1968, evidente na grande mídia, não é, por outro lado, produto do acaso ou arbitrário. Paris, “capital do mundo” no século XIX, recuperou transitoriamente essa condição em 1968. Os antecedentes de 1968 foram não só franceses, mas europeus: a greve geral na Bélgica, em 1960, as enormes mobilizações operárias na Inglaterra. O maio francês concentrou elementos que, noutras latitudes e eventos, apareceram dispersos ou só esboçados: o papel detonador do movimento estudantil, a participação (central, no momento álgido do confronto) da classe operária, distinguida do conjunto das “classes populares”, o questionamento de todas as formas de vida social precedentes, o papel central do “desejo”, o forte apelo do anti-imperialismo e da luta anticolonial, o questionamento do regime político. Em 22 de março, estudantes que levantavam palavras de ordem anti-imperialistas, contra a guerra no Vietnã, em defesa da organização estudantil e por uma reforma universitária, tomaram a Universidade de Nanterre (Paris X), recentemente criada. Menos de dois meses depois, em 13 de maio, uma greve geral começou na França, envolvendo mais de dez milhões de trabalhadores. Paris espirrou, a França contraiu um resfriado, e o mundo uma gripe.

Os eventos franceses foram o epicentro de uma crise mundial. 1968 foi o único evento da era contemporânea em que uma rebelião social questionadora da ordem reinante abrangeu todos os continentes, inclusive a África, que testemunhou mobilizações decisivas, em especial no Senegal (Dakar foi teatro de um confronto social e político sem precedentes), hoje esquecidas. 1968 foi um 1848 mundial? O paralelo histórico é, talvez, o primeiro passo de uma tentativa, se não de “compreensão”, pelo menos de medição. 1968 abriu uma nova era, antecipada nos anos precedentes. Para um protagonista do levantamento de Nanterre, “1968 não é somente o 68 francês, é, sobretudo, uma fratura cultural mundial – de Leste a Oeste e de Norte a Sul. Ela será também a Primavera de Praga, Berkeley, a luta contra a guerra do Vietnã, o movimento hippie. O 68 francês, mesmo que tenha adquirido uma relativa importância em relação aos outros, deve estar sempre ligado a essa fratura mundial. Maio de 68 é, portanto, uma vitória inacabada, que não tem linguagem para ser expressa, que não tem uma forma política verdadeira. Alguns anos depois, aquilo que vai se denominar movimento autogestionário tentará encontrar uma linguagem política. Mas em 68 isso não existe”.
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Charles de Gaulle – Foto: Wikimedia Commons

O maio francês foi o epicentro do esgotamento das condições do desenvolvimento capitalista do pós-guerra, que se manifestou logo depois na desmonetização do dólar e na crise econômica mundial. Recebeu a impulsão da guerra no Vietnã, que mobilizou a juventude europeia e dos EUA. Nas fronteiras da França assistimos ao início de uma década de lutas operárias na Itália e à mudança da situação política na Espanha, onde uma onda de lutas operárias e estudantis iniciou a contagem regressiva da ditadura de Franco. Em abril de 1974 explodiu, finalmente, a revolução portuguesa, que liquidou em breves dias o Estado originado da longa ditadura de Salazar-Caetano. A situação potencialmente mais revolucionária teve por teatro a Tchecoslováquia, onde foi derrubada a ditadura burocrática de Novotný. O setor encabeçado por Alexander Dubcek, que o substituiu, propunha uma integração ao mercado mundial capitalista, mas a crise desatou um movimento vigoroso da classe operária, que se estendeu a outros países (Polônia, Iugoslávia) também controlados pelo Kremlin, que lançou uma intervenção armada do exército do Pacto de Varsóvia em Praga e no restante do país em agosto de 1968.

Em menos de um mês, passou-se de uma ocupação de escritórios de uma universidade para uma greve geral, em que foram tomadas e coordenadas entre si 122 fábricas. A oposição de centro-esquerda chegou a propor a queda de De Gaulle, buscando uma saída eleitoral para a crise.

 

Mao Tsé-Tung – Foto: Wikimedia Commons

Durante a Revolução Cultural na China a fração encabeçada por Mao Tsé-Tung mobilizou controladamente as massas. A mobilização, porém, fugiu ao seu controle e iniciou um processo de derrubada do Estado. A própria fração maoísta restabeleceu a ordem, desembocando num gigantesco “culto à personalidade” (Mao atingiu quase qualidades de divindade, no discurso oficial), o que permitiu a Mao acordar com o governo republicano de Richard Nixon as condições para uma restauração capitalista sui generis controlada pelo aparelho do PCCh (partido comunista). Foi na França que as tensões sociais e políticas atingiram sua tensão máxima, com a greve geral e o virtual vazio de poder que ela criou. Em menos de um mês, passou-se de uma ocupação de escritórios de uma universidade para uma greve geral, em que foram tomadas e coordenadas entre si 122 fábricas. A oposição de centro-esquerda chegou a propor a queda de De Gaulle, buscando uma saída eleitoral para a crise. De Gaulle sumiu durante 24 horas, indo consultar o alto comando militar na Alemanha sobre a possibilidade de um golpe militar. A 30 de maio convocou à mobilização a “classe média” patriótica: esta ocupou as ruas de Paris. A situação política pendeu por um fio, até a greve geral ser desmantelada.

A esquerda, de modo geral, não previu o maio francês nem seus fenômenos correlatos; na América Latina propunha a luta armada, e buscou também na Europa se mimetizar na política da OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade), criada em Cuba, defendendo uma política militarista em todo o mundo, embora raramente levada à prática na Europa. Não se percebeu a dimensão de uma crise econômica que já era mundial. Em 1968 o governo norte-americano de Lyndon B. Johnson decretou de facto a não conversibilidade do dólar mediante um acordo com os Bancos Centrais, que se comprometeram a não exigir a troca de dólares por ouro, como pretendia o governo francês. A crise política começou a virar fator de crise econômica: bruscos movimentos de capitais (ultrapassando três bilhões de dólares) fizeram a viagem Paris-Zurique e Paris-Frankfurt desde maio de 1968, depois da greve geral, e ocasionaram a crise monetária de novembro de 1968. Na crise mundial, 1968 não significou apenas a explosão da dissidência na Igreja católica. Também significou um desenvolvimento da Igreja sobre a paz e a guerra, devido a muitas reações contra a guerra do Vietnã. Isso marcou o primeiro teste sério das medidas tomadas no Concílio Vaticano II em direção a uma nova teologia, cujo setor mais radicalizado deu origem à “Teologia da Libertação”. No Brasil, em junho de 1968, o movimento estudantil atingiu seu ápice. As passeatas, as greves e as ocupações das faculdades se generalizaram. Rio de Janeiro foi seu cenário principal com a “Passeata dos Cem Mil”. O balanço pleno de 1968, que ainda resta a ser feito, não é o réquiem de um período já ultrapassado, mas uma chave para decifrar nosso futuro.

 

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