O que fazer para melhorar nosso ensino?

Vivian Batista da Silva é professora livre-docente da Faculdade de Educação (FE) da USP

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Vivian Batista da Silva – Foto: Arquivo pessoal

 

O que fazer para melhorar o nosso ensino? A pergunta interessa a todos nós, pedagogos, professores, pais, alunos, políticos ou a grande imprensa. Talvez isso explique em boa parte o sucesso d’As crianças mais inteligentes do mundo – e como elas chegaram lá, escrito por Amanda Ripley, reconhecida jornalista americana. Publicado originalmente em 2013 pela Simon & Schuster Paperbacks, o texto foi traduzido para o português em 2014 pela Três Estrelas, contando com ampla divulgação e muitos elogios.  Trata-se de uma investigação jornalística – bem organizada e envolvente, por sinal – acerca de como alguns alunos, os “melhores” do mundo, vivem seu cotidiano escolar. O que explica seu desempenho tão destacado nas provas de matemática, ciências e leitura feitas pelo PISA (Programme for International Student Assessment)?

Amanda Ripley, em sua investigação, atenta para os resultados do exame realizado em 2000, quando cerca de 300 mil estudantes de 43 países fizeram uma das edições desse teste educacional. Desenvolvido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), criado por cientistas como o alemão Andreas Schleicher, o exame ultrapassa fronteiras dos testes tradicionais porque não quer medir o que o aluno sabe de determinado conteúdo, como costumeiramente se faz em outras provas, mas quer medir o tipo de pensamento, as competências e habilidades para responder a diferentes situações e problemas.

Os resultados desse PISA causaram surpresa. Além de propor objetivos e questões até então pouco medidos, eles colocaram em destaque países quase desconhecidos no cenário educacional, como foi o caso da Finlândia, que apareceu em primeiro lugar no ranking, da Coreia do Sul e da Polônia.

Mas o PISA não é o único nem o primeiro teste internacional de aproveitamento escolar. Trata-se de um entre tantos outros retratos que vêm sendo construídos da escola em diversas partes do mundo desde que os sistemas públicos de ensino mantidos pelo Estado de forma pública, leiga, obrigatória e gratuita foram criados, no século XIX. Os primeiros esforços nesse sentido remontam a 1817, quando da publicação do Esquisse et vues préliminaires d’un ouvrage sur l’éducation comparée (em português: Esboço e visões preliminares de um livro sobre educação comparada).

Esse pequeno livro de Marc-Antoine Jullien de Paris foi escrito depois de uma viagem à Suíça e algumas partes da Alemanha e da Itália. Jullien escolheu esses países para observar e coletar dados de seus sistemas de ensino. Em Esquisse, o autor chegou a sublinhar seu desejo de fazer mais viagens, de modo a compor quadros comparativos de outras nações europeias, julgando seus avanços, recuos, tirando daí lições a serem transportadas de um país para outro.

Embora pioneiro, o livro de Jullien não teve uma repercussão tão notável, mas foi emblemático de um esforço que foi levado a efeito em outros lugares e por outros comparatistas, como Horace Mann, nos EUA, Victor Cousin, na França, ou Matthew Arnold, na Inglaterra. No Brasil, uma das figuras de destaque foi Lourenço Filho, em sua Educação Comparada que, escrita originalmente na década de 1960, foi reeditada pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) em 2004.

Quantos de nós não gostariam de saber também quem são as crianças mais inteligentes do mundo e como elas chegaram lá?

Em todas as suas versões, o livro afirmou a necessidade crescente de intercomunicação entre os povos, posta aos professores e alunos da disciplina Educação Comparada, também a administradores de ensino e todos os que se interessaram pelo desenvolvimento da escola e do seu país. Lourenço Filho trouxe súmulas descritivas de dez sistemas de ensino, entre os quais estiveram os da Inglaterra, França, Alemanha e Itália, além de ter percorrido programas de ensino na América Latina.

A literatura educacional brasileira contou com outras viagens a diferentes tempos e espaços, como a que Lourenço Filho nos apresentou. E outros exemplos poderiam ter sido mencionados aqui. Mais raros foram os textos de viagens feitas ao Brasil. Um dos poucos conhecidos foi o livro de um professor da Escola do Magistério Primário de Lisboa, Orbelino Ferreira, que em 1953 publicou as 218 páginas de Brasil pedagógico (Notas duma viagem de estudo, crítica aos programas de Ensino Primário do Brasil, etc). A narrativa destacou uma série de defeitos. Foi um olhar marcado pelo “nacionalismo exacerbado” que marcou Portugal à época, pela certeza de que os brasileiros foram mesmo um “povo atrasado” e de que os portugueses foram realmente melhores no campo pedagógico e literário.

As críticas de Orbelino Ferreira contrastaram com as descrições de Lourenço Filho e de Amanda Ripley. Os três autores se diferenciaram pelo lugar de onde falaram e pelas suas intenções. Suas viagens foram múltiplas, portanto, motivadas ora por desalentos, ora por desejos. Mas todas nasceram de uma curiosidade.

Quantos de nós não gostariam de saber também quem são as crianças mais inteligentes do mundo e como elas chegaram lá? De uma maneira ou de outra, precisamos nos perguntar sobre o que nossas viagens têm produzido. Que tipo de experiências estão sendo valorizadas? Quais consensos temos criado em torno do que tomamos como “boa” escola? Em que medida conseguimos refletir sobre os dados internacionalmente produzidos?

Amanda Ripley, por exemplo, não se satisfaz com os números expressos nos resultados do PISA. Em 2000, eles colocam em pauta experiências até então pouco conhecidas e questionam algumas supostas certezas. Países historicamente reconhecidos no campo econômico e educacional, como os EUA e a Alemanha, deixam de ser os primeiros entre as nações tidas como mais adiantadas, já que os resultados escolares têm sido um dos quesitos mais considerados para qualificar seu nível de desenvolvimento econômico e social. Algumas viagens podem ser provocativas e abalar evidências outrora tão consolidadas. A nós resta saber: que lições queremos tirar disso?

 

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