“O Capital”, 150 anos da grande obra de Karl Marx

Lincoln Secco é professor associado do Depto. de História da FFLCH-USP;
Marisa Midori Deaecto é professora da ECA-USP

Por - Editorias: Artigos
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Lincoln Secco – Foto: Arquivo Pessoal
Marisa Midori Deaecto – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A obra, cujo volume I entrego ao público, constituiu a continuação de meu texto publicado em 1859: Contribuição à Crítica da Economia Política. A longa pausa entre começo e continuação deve-se a uma enfermidade de muitos anos, que reiteradamente interrompeu o meu trabalho.

Karl Marx, Prefácio à primeira edição, 1867.

Sem dúvida, “uma longa” pausa marcada pela enfermidade, como afirma o autor, mas também por horas não menos longas dedicadas aos estudos. Afinal, todos se lembram da imagem de Karl Marx, sentado à mesa G7, na monumental Round Reading Room, do British Museum, onde consultava os cadernos azuis do Parlamento, ou tomava notas dos livros de economia política.

Com uma boa dose de imaginação, vêmo-lo entabular uma conversa amigável, ao final do expediente, com o bibliotecário-chefe da sala de leitura. Figura interessante, que certamente merecera a atenção do Mouro. Antonio Genesio Maria Panizzi nasceu em Modena e, em 1818, formou-se em Direito pela Universidade de Parma. Como militante da carbonária, ele foi perseguido em sua terra natal após o assassinato de um chefe de polícia. Tal incidente o obrigou a fugir para Gênova e, em seguida, para Londres, onde passou a trabalhar como professor de italiano, até ingressar na recém-fundada University of City of London (UCL) e, em seguida, na British Library. Nessa última instituição o nome de Panizzi se projetou para além dos limites do bairro intelectualizado de Bloomsbury, o que lhe permitiu o acesso a políticos liberais prestigiosos e, certamente, aos recursos necessários para a consecução de seus projetos. A Round Reading Room, a sala redonda do British Museum, que abrigava sua biblioteca, acabara de ser fundada nos tempos em que Marx realizava seus estudos. Desde então, ela viria a receber grandes nomes da literatura universal e de cientistas que, a exemplo de Marx, deixaram marcas indeléveis na história do pensamento ocidental.

Continente História

Em sua incessante leitura de novos materiais daquela biblioteca, Marx jamais terminaria sua obra. Como o filósofo francês Althusser comentou, Marx delineou um novo continente, como Galileu o fizera com a mecânica. O continente História. E, dessa forma, aquilo que estava descoberto restava por ser explorado e, por isso, quedara inconcluso.

Em fevereiro de 1867, Marx pediu a Engels que lesse a “obra-prima ignorada” de Balzac. É a história de um pintor que dedica dez anos à mais perfeita representação da realidade, mas quando exibe o quadro, seus amigos só enxergam ali cores misturadas em formas aleatórias e horripilantes.

Marshall Berman lembraria que aquela era a descrição de uma pintura abstrata antes de seu tempo… Cabe acrescentar que Marx pediu a Engels que escrevesse resenhas para quebrar a “cortina de silêncio” contra o seu livro. Até mesmo Feuerbach e sua esposa Jenny foram mobilizados para escrever resenhas ou cartas sobre O Capital.

Afinal, o livro era inovador não apenas pelo conteúdo (pauperização relativa da classe operária, estratos subproletários à margem do consumo, queda da taxa de lucro e crises cíclicas, exploração da força de trabalho, crise do valor e um fetichismo desenfreado da mercadoria), mas também à forma que apela à literatura (Shakespeare, Goethe, Dante, Ésquilo, Balzac), à ironia, bricolage de discursos, diálogos imaginários, alegorias e fontes diversas.

Primeiras edições

A primeira edição do volume primeiro de O Capital apareceu em Hamburgo, em 1867, com uma tiragem de mil exemplares. Uma segunda edição, publicada em fascículos e revista pelo autor, viria a ser publicada entre junho de 1872 e maio de 1873. Em 1883, uma edição póstuma foi publicada sob a responsabilidade de Engels, com os acréscimos e correções baseados em notas manuscritas do autor e de duas edições anteriores: a segunda alemã e a primeira francesa.  Uma edição “definitiva”, pelo menos aquela que nortearia novos estudos e traduções ao longo do século XX, viria a lume em 1890, com alguns novos acréscimos de Engels, tirados, sobretudo, da edição inglesa traduzida por Edward Aveling e Samuel Moore.

A edição francesa é especialmente importante, porque foi a partir dela que muitos leitores do mundo ocidental tiveram acesso ao texto de Marx.

O próprio editor, Maurice Lachâtre, tinha consciência da importância e do bom negócio que realizava ao publicar, em fascículos, a versão traduzida de O Capital por Joseph Le Roy, embora o autor considerasse o texto demasiado hermético para o público francês. Como escreve Lachâtre a Marx, às vésperas da publicação do livro: todas as traduções d’O Capital serão feitas a partir deste livro, na Inglaterra, na Itália, na Espanha, na América, enfim, por todas as partes, onde houver homens preocupados com o progresso.

Otimista e consciente do caráter universal da língua francesa, pelo menos naquela época, ele anunciou uma tiragem de 100 mil exemplares. No final, os estudos dão conta de que essa edição, publicada entre agosto de 1872 e maio de 1875, tivera uma tiragem de 10 mil exemplares.

150 anos e centenas de milhares de exemplares depois…

O Capital recobrou uma atualidade assustadora. Não só a crise de 2008 tornou o livro atraente para capitalistas mais ou menos ilustrados, o que permitiu reedições nos Estados Unidos e na Alemanha, mas também novos protestos globais, o aumento da jornada de trabalho, da concentração de renda e a retirada de direitos trabalhistas fizeram recordar as tenebrosas descrições que Marx fazia das fábricas inglesas.

O jornalista inglês Francis Wheen recorda que O Capital pode ser lido “como um vasto romance gótico cujos heróis são escravizados pelo monstro que criaram”. Nunca a imagem de vampiros ou zumbis vagando por um planeta destruído, empresas com força paramilitar e cientistas a seu serviço controlando espaços privativos de milionários esteve tão em voga no cinema e na literatura.

Afinal, Marx respirou a atmosfera de Mary Shelley, E. T. A. Hoffmann, E. A. Poe e do Romantismo. Em vários momentos de sua obra o leitor poderá ver O Capital morto sendo reanimado continuamente ao sugar lentamente o sangue do trabalho vivo. Como um vampiro (Vampir), ele acrescenta…

 

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