A prosa de Luiz Vilela

Ariovaldo Vidal é professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH-USP

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Ariovaldo Vidal – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
Em meados da década de 70, eu fazia o curso de Letras na FFLCH, mas andava também às voltas com teatro amador e por isso aparecia na Biblioteca da ECA algumas vezes, por conta do acervo de peças mimeografadas. Numa dessas vezes, estava no final de uma pequena fila de espera e vi no balcão um cartaz em PB que me chamou a atenção: nele havia uma fila e o último sujeito da fila, um homem na casa dos 30 anos, de terno “de bater” e com expressão cansada, olhava para trás atendendo ao chamado da legenda, que dizia: “Ei! Os escritores brasileiros estão falando de você”. Criava-se uma situação curiosa, um jocoso mise en abyme, pois eu era o último da pequena fila, que certamente nada tinha a ver com a fila simbólica do cartaz; esta falava de um Brasil de filas imensas que a literatura do tempo tematizava (com perdão do lugar-comum) kafkianamente. Mas o mais importante dessa imagem estava no fato de que os jovens escritores de então, seguindo ainda a lição do Modernismo, falavam da vida de seu leitor, agora perdido nos meandros de um país sujeito à ditadura e à burocracia.

A legenda se referia a um grupo de escritores jovens ou novos que estava fazendo por aqueles anos uma literatura que ganhava feição própria, identificando não propriamente um grupo, mas um movimento. De certo modo, se a literatura brasileira não entrava no boom da literatura hispano-americana por razões óbvias ou compreensíveis, o fato é que havia no Brasil daqueles anos um bunzinho de nossa literatura, com uma significativa penetração nos ambientes escolares, o que veio acompanhado de um trabalho editorial sagaz, especialmente concentrado na imagem da Editora Ática (edições ilustradas e chamativas, paratextos voltados à linguagem dos adolescentes, etc.), bem como da Editora Brasiliense, com suas coleções destinadas ao público jovem, as “cantadas literárias”, que traziam uma literatura em boa parte marcada de erotismo e aventura.

Dei essa pequena volta para chegar ao ponto que mais interessa: o romance brasileiro do período, e também ou sobretudo o conto brasileiro que se alastrou enormemente naqueles anos, queriam falar do presente do País, adotando nessa empresa muitas vezes uma linguagem despojada ou coloquial, de uma maneira particularmente nova, nem sempre feliz, uma linguagem de desrecalque (para usar um termo de Antonio Candido ao falar de 22), em que o palavrão, de livre curso, tinha mesmo uma conotação política. Se a matéria da literatura sempre fora a vida presente, os homens presentes, o fato é que agora havia um sentimento de urgência na literatura feita por esses novos escritores (e não só na ficção, nem só na literatura), urgência que dava ao conto e ao romance quase sempre uma feição de denúncia, querendo transformar a matéria realista imediata em alegoria do País, conforme a notação crítica de Davi Arrigucci.

Um dos autores mais característicos desse período completou recentemente 50 anos de literatura: Luiz Vilela. Vilela estreou com um volume de contos chamado Tremor de Terra, em 1967, ganhando com ele o Prêmio Nacional de Ficção, em Brasília. Depois desse vieram muitos outros livros e alguns prêmios, passando por Tarde da Noite (contos, 1970), O Fim de Tudo (contos, 1973), O Inferno É Aqui Mesmo (romance, 1979), Lindas Pernas (contos, 1979), Entre Amigos (romance, 1983), para citar apenas alguns, até chegar a O Filho de Machado de Assis (2016) – que eu saiba o mais recente – totalizando cerca de três dezenas de obras entre contos, romances, novelas e várias antologias.

A crítica já observou o que de certo modo é sentimento de grande parte dos leitores de Luiz Vilela, a saber, que sem se dar conta o leitor vai se sentindo personagem do autor. Mas quem é esse leitor, questão que sempre se impõe quando se fala de recepção? Não é fácil definir, até porque muitos leitores não têm essa empatia com a obra, mas é possível dizer duas ou três coisas sobre ele – ou sobre um desses leitores –, a partir de uma evidência de época e de alguns traços de seu personagem central, espécie de alter ego do escritor.

Como se sabe, as grandes cidades brasileiras começaram a inchar ainda mais aceleradamente na passagem dos anos 60 aos 70; e nesse movimento migratório, surgiu uma camada particular de viventes que vinham não do campo para a cidade, mas do interior para a capital, fenômeno que se deu em muitas partes do País. Era uma população jovem, formada de estudantes que pisavam pela primeira vez o chão de uma universidade (o primeiro da família a entrar no ensino superior, geralmente público), deixando para trás uma formação católica de classe média e a segurança do mundo estável e geralmente opressivo dos pais. Na cidade (e na universidade) encontravam também novas formas de sociabilidade, mais abertas e desafiadoras, concentradas na metonímia da “república”. Não era uma “juventude transviada”: era antes uma juventude em trânsito, que não se reconhecia mais no mundo católico dos pais, nem tinha chegado ainda onde queria ou sonhava, pois entre outras angústias o País vivia o entrave da ditadura; e esse era um dado novo: uma juventude que ganhava uma visão politica dos fatos, em meio ao anonimato da grande cidade.

Em muito a personagem central de Luiz Vilela é esse mesmo jovem, e não é por acaso que em sua obra haja um grande número de estudantes e adolescentes. O romance que melhor concentra esse universo de relações é Os Novos (1971), que conta a história de um grupo de universitários em Belo Horizonte, vivendo os impasses de escolhas novas, num país também em impasse. O romance se passa no final dos anos 60, no contexto do nefasto AI-5: Nei é a personagem central que, recém-formado, já dá aulas de filosofia, escreve contos, frequenta bares com os amigos, mantém uma relação afetiva com o pai distante, que às vezes vem visitá-lo, e vive o drama sentimental de fazer dos amantes dois inimigos.

O livro retoma de maneira clara a tradição mineira dos romances que misturam a crônica de grupo e a confissão do protagonista; é visível a presença de O Amanuense Belmiro (1937), de Cyro dos Anjos, nas cenas vivas da roda de amigos que contrastam com um lirismo subjacente ao protagonista (diga-se que no romance de Cyro, o lirismo está por toda parte, enquanto no de Vilela o prosaísmo está por toda parte); mas retoma também e de modo mais claro o livro de Fernando Sabino, O Encontro Marcado (1956), com o qual compartilha um mesmo grupo de amigos que dividem suas preocupações e impasses: “Estou cansado de tudo isso – disse Nei. – Cansado dessa confusão, cansado da literatura, cansado dessa cidade e dessa chuva, cansado até dessas nossas conversas, que não levam a nada. Dá vontade de sumir pra longe daqui”. E compartilha também o fato de ser o depoimento vivo de uma geração, na expressão de Alfredo Bosi para o livro de Sabino.

O romance possui um andamento solto (não desordenado), contando a história de uma geração de jovens escritores, não mais formados em medicina, farmácia ou direito, mas agora ganhando a vida com o magistério ou o jornal, e a caminho do universo da publicidade. Trata-se de um romance de geração, abusando de um prosaísmo pesado, com o palavrão correndo solto e – como romance de geração – tendo no bar o espaço por excelência em que transcorre a ação. Nele (ou neles) habitam as personagens que vivem os impasses de sua geração: além do protagonista Nei, aparecem seus dois amigos mais próximos Vítor e Zé, além de outros que transitam bastante ou pouco pelos mesmos espaços: Ronaldo, Martinha, Milton, Leopoldo, Queiroz, Dalva, Mário Lúcio, Gabriel e Telmo.

Nas conversas que preenchem o livro, aparecem os temas do período e daquele contexto: o papel da literatura, a comédia provinciana dos medalhões conservadores, a liberdade sexual (tratada na chave do preconceito quase o tempo todo), as saídas políticas contra o autoritarismo, etc. E o problema que mais avulta é o sentimento de impotência diante da situação política e a consequente autoironia com a literatura que fazem, por não sentirem vocação para a ação política; e algumas cenas são simbólicas nesse sentido: numa delas, Nei e alguns amigos assistem ressentidos (sentados numa mureta…) a exibição de heroísmo de alguns alunos que haviam sido presos numa passeata no dia anterior; em outra cena, num bar, cogitam as possibilidades de escolha: no primeiro chope, a saída é a revolução; num dos seguintes, a saída é o suicídio; e entre as duas possibilidades acabam escolhendo um filé a palito.

Ainda em outra cena, definem-se como sendo uma “esquerda festiva e manifestiva”; mas o romance não é uma sátira a esse comportamento, e o fato é que as angústias pequeno-burguesas (como dizia o chavão da época) de suas personagens são verdadeiras e garantem o melhor da obra; suas criaturas não dependem ou se explicam por um momento político (ainda que tão nefasto), e sim pelo processo histórico que ultrapassa e explica esse momento.

Não é difícil perceber a composição da tríade central: de um lado, Vítor, o poeta fracassado, que assume de vez ao final a vida burguesa de pai de família, funcionário público, agora “viciado em tevê” e que combate precariamente o vício da cerveja e as idas ao bar com uma horta que cultiva no fundo da casa; de outro, a figura pungente de Zé, funcionário escravizado a um banco, preso irremediavelmente aos cuidados com a mãe, sabendo que não fará nada de bom na vida, pois o talento – que todos reconhecem nele – ressecará na vida burocrática e doméstica a que está preso. Entre os dois, situa-se a figura discreta do personagem central Nei, aquele que parece encontrar uma saída, tantas vezes protelada e desacreditada.

A saída está indiciada numa cena em abismo no meio do romance, que antecipa o próprio romance que estamos lendo: os amigos decidem escrever uma peça – que acaba (mal) escrita e censurada – para denunciar e protestar contra a opressão política; ocorre que de início a peça não está saindo e Nei pondera que a discussão para a escrita pode ser a própria peça: “Está divertido. Essa preparação para a peça daria outra peça, talvez melhor do que a própria. Ou então: a peça nem chegaria a ser escrita”. E o romance que Nei escreverá (e que Vilela escreveu) é justamente a história da preparação para o romance, talvez melhor do que o próprio, relação entre a obra planejada ou desejada e a obra vicária e precária que acabou saindo, mas por isso mesmo mais visceral. No final da narrativa, diz o protagonista que irá retomar o romance e, quem sabe, conseguir escrevê-lo; de fato, é isso que acontecerá: depois de tanta negação, ele finalmente se encaminhará para seu encontro marcado.

Mas para além desse romance, a mesma personagem aparece em diferentes contos e novelas, com outros nomes e roupas, não sem um sentimento de desconcerto que se traduz num olhar solidário (da personagem ou do autor que subjaz ao texto) a outros viventes igualmente sofridos – as mulheres, os velhos, as crianças, os que passam por alguma tragédia. No caso das primeiras, trata-se de um olhar feminino que deixa ver uma condição de opressão num mundo que vai deixando de ser patriarcal; no caso dos segundos, o sentimento de rejeição, de inutilidade, num mundo que vai ficando cada vez mais jovem. Tudo isso filtrado por um olhar melancólico, que não deixa de se disfarçar muitas vezes em humor.

Não vai sem crítica um comentário à prosa do autor, pois a questão é saber o quanto do que estava preso ao momento (“estão falando de você”) não envelheceu com o tempo. Um incômodo evidente a muitos leitores (e a mim) é certo vezo do escritor em buscar um final impactante, que se traduz em revelação algo suspeita ou mesmo em carga patética. Por razões de gênero, isso é mais comum no conto que no romance, mas ainda assim – e por justiça com o autor – é necessário fazer uma leitura modulada do problema. De qualquer modo, sua linguagem sempre às voltas com um coloquial desataviado, seu diálogo que tantas vezes a crítica elogiou, o olhar de ternura para criaturas indefesas ou deslocadas são ainda motivos para seduzir novos e jovens leitores que acabarão sentindo-se personagens do autor.

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