Um coração simples

Ariovaldo José Vidal – FFLCH

Por - Editorias: Artigos
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Ariovaldo José Vidal é doutor no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ariovaldo José Vidal é doutor no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Como a criança do cronista que entrava no céu assobiando, ele deve ter entrado no céu, em que tanto acreditava, lépido e de bom humor, cumprimentando a todos. Ainda que nos últimos tempos sofresse muito com o joelho ruim e a velhice que o fazia vacilar, quase cair, cair, amparar-se em bengala e parede, e dizer com uma feição sofrida, “eu estou no fim”.

Mas o fim demorou noventa anos (incompletos) pra chegar, e ele não o apressou, uma de suas maiores sabedorias. Até lá, perambulou pra cima e pra baixo, para os quatro cantos da sua cidade, pois andar era um de seus dons; e dizia “é sempre melhor andar à toa do que estar à toa”. E nunca estava à toa.

Sofreu o que os pobres de classe média sofrem neste país, mas ao lado da esposa deu uma vida digna aos filhos. O mais alto grau de opressão que conhecia estava no gerente do banco (“aleija a gente”); e não sabia que por trás do gerente havia outro gerente, e mais outro…

Tinha prazer no trabalho e trabalhou a vida toda; até o dia que cansou e resolveu viver da aposentadoria. Dois enganos: não podia viver sem trabalhar, nem da aposentadoria.

Quando esta começou a minguar, entrou na justiça para revisá-la junto com tantos outros pobres aposentados, num processo infindo. E começaram as idas e vindas aos advogados, na esperança de um pagamento que fosse digno como digno havia sido seu trabalho.

E começaram os aborrecimentos, as decepções, as manifestações de revolta (pacífica) diante das mentiras da televisão, a “consciência” do descaso do Estado para com os aposentados: governo é governo. Quando o reajuste veio, depois de incontáveis anos, estava próximo do fim e o valor não era o que esperava ou merecia.

Tinha um grande amor pelos objetos e uma grande habilidade nas mãos; se as coisas tinham dois lados errados, ele mostrava o terceiro; se os três eram errados, um deles tinha algo de bom. Com as pessoas era o mesmo, sobretudo com as pessoas.

Sofreu o que os pobres de classe média sofrem neste país, mas ao lado da esposa deu uma vida digna aos filhos. O mais alto grau de opressão que conhecia estava no gerente do banco (“aleija a gente”); e não sabia que por trás do gerente havia outro gerente, e mais outro…

Como bom caipira, era ao mesmo tempo ingênuo e astuto. Gostava de cerveja, que tomou a vida toda, e das boas coisas que estão em torno da cerveja.

Gostava de anedotas, católico fervoroso e brincalhão que gostava de anedotas de santos; de um (grande) pintor conhecido na cidade (e muito seu amigo), que gostava de cachaça e tinha predileção pelos motivos do fogo e da água em suas paisagens, dizia que quando ele estava de fogo, pintava água, quando estava na água, pintava fogo.

Gostava da música de rádio, entre tantos de Orlando Silva, Gilberto Alves, Nelson Gonçalves, e depois de Agnaldo Timóteo, Martinho da Vila, e depois ainda se encantando com alguma canção de Chico Buarque ou Caetano Veloso.

Sempre se lembrava de um faroeste brasileiro assistido na tevê numa noite perdida no tempo; e de Mazzaropi, é claro, de quem ia adquirindo a fisionomia.

Escrevia e lia o suficiente para sua vida, mas sobretudo sabia conversar, num tempo em que o comércio das palavras era também uma arte.

Não era voltado à literatura e aos livros, ainda que em certo momento da vida trabalhasse como vendedor de livros, tendo que vender, como dizia de forma humorada, “livro de psicologia pra crente”.

Mas não era indiferente à beleza das palavras e da poesia: muito pelo contrário; numa noite longínqua, levantou-se da mesa onde jantava sozinho e veio até a sala impressionado, ficando de pé para ouvir as frases poderosas que Walmor Chagas dizia no programa de tevê: “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana/ Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;/ Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!…”.

Tinha um jeito floreado de assinar o nome, afeito a caneta-tinteiro, e uma vocação natural para a fotogenia; nas fotos da juventude, posava de Clark Gable, e nada sabia de Narciso, ainda que trabalhasse com espelhos, mas, por isso mesmo, não trazia dentro de si o inimigo. Tinha na verdade a transparência dos vidros, que foram sempre sua profissão.

Ao filho (melancólico) que perdia a hora e dizia que seria ator de teatro, retrucava que “os atores também cumprem horário”; ao filho que perguntava sobre a carreira militar, dizia peremptório: “fuja de farda”; ao filho que chegava constrangido por ter reprovado no exame do ginásio, se mostrava generoso e solidário, pois ele também naquele dia não conseguira o emprego que buscava.

Escrevia e lia o suficiente para sua vida, mas sobretudo sabia conversar, num tempo em que o comércio das palavras era também uma arte.

Muito urbanizado, mesmo com a pouca instrução formal que a escola lhe oferecera; mas trazia a urbanidade na alma, nunca sendo grosseiro ou inconveniente, e com a intuição natural de nunca querer parecer; entre o que se mostrava e o que era, não havia distância alguma: sua roupa, sua alma.

Já próximo do fim, dependia cada vez mais da esposa, ao lado de quem vivera por 65 anos, e a quem pedia desculpas; amado por inúmeros familiares, sobrinhos, vizinhos e conhecidos.

Costumava perguntar serenamente (como sempre viveu) onde ficava a rua (em que morava), quando ia voltar para casa (na qual habitava), quando voltaria a ver sua mãe (há tantos anos morta), pois, como diz o mineiro, começava a fazer distâncias, a frequentar a terceira margem, ele, para quem um dos maiores prazeres era estar nas duas margens do rio, pescando.

Talvez pelo santo católico, talvez porque fosse vocacionado para edificar tantas coisas, chamava-se Pedro.

 

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