Trégua olímpica

Katia Rubio é profa. associada da Escola de Educação Física e Esportes da USP e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Katia Rubio – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Conta-se que na Antiguidade a importância dos Jogos Olímpicos era tamanha que mesmo os conflitos entre as cidades-estados cessavam para que atletas e espectadores pudessem chegar a Olímpia em segurança. E assim, três meses antes e três meses depois de finalizadas as competições as armas descansavam para que outro tipo de disputa ocorresse. A trégua olímpica, como foi chamada, era de fato uma oportunidade não apenas para cessar embates, mas também um momento de celebração, reflexão e reconhecimento dos possíveis campos de batalha e dos adversários.

Se entendido como uma metáfora de tantos jogos sociais o esporte também oferece a oportunidade para a reflexão sobre os ataques, as tréguas e os recuos necessários em diferentes contextos. Toda competição esportiva envolve mais do que habilidade motora. Atletas estudam-se mutuamente para elaborar a estratégia apropriada para cada etapa classificatória até a chegada ao pódio. Força, velocidade, agilidade somam-se à espera ativa, ao reconhecimento do jogo adversário, a comparação entre forças competitivas. Essa é talvez uma das razões que leva as manifestações esportivas a ocupar espaço privilegiado nos meios de comunicação em diferentes momentos do dia ou mesmo em canais específicos onde a programação de todo o dia é dedicada a diferentes modalidades.

O processo de profissionalização e espetacularização pelo qual passou o esporte nas três últimas décadas também alterou radicalmente o papel e a importância das instituições esportivas e de seus dirigentes mundo afora. Função dedicada aos amantes do esporte, que, por sua vez, dedicavam parte de suas vidas a uma atividade voluntária, amadora que tomava tempo e retribuía, no máximo, com prestígio social, sofreu profundas transformações durante o processo de profissionalização dos atletas e da gestão das entidades. Tornado um dos negócios mais lucrativos do planeta o esporte passou a ser regido pelas mesmas regras de qualquer mercado produtivo, muito embora o imaginário olímpico persistisse ditando valores e limites para a atuação dos envolvidos em suas fronteiras. Isso talvez justifique a indignação pública diante de atos imorais ou ilícitos cometidos por membros desse seleto grupo. O esporte, entendido para além de uma prática física repetitiva à exaustão para se chegar à perfeição, é uma ação que carrega consigo um vasto repertório simbólico pouco entendido por aqueles que o transformaram apenas em um negócio altamente lucrativo.

Entre os vários entendimentos possíveis da palavra queda estão o tombo, o ato de cair, a decadência e a perda de prestígio. A queda também se refere ao pecado, à desmesura, à ultrapassagem do metron, a hybris, elementos relacionados diretamente à perda de referência de si e do outro, ao desrespeito.

Nada mais mítico do que o entendimento da organização do universo por essa ótica, a começar da cosmogênese. Conta o mito que no princípio era o Caos de onde surgiu Géia, que por partenogênese gerou Urano com quem se uniu para criar os Titãs, e outros seres. Esse pai primordial, temendo ser destronado por um dos filhos, devolvia a todos ao seio da terra mãe que, se sentindo cansada, resolve libertá-los. Crono, o filho caçula, castra o pai, pondo fim àquele ciclo, iniciando a ordem ditada pelo tempo cronológico.

Unindo-se à irmã Réia, com quem concebe Héstia, Deméter, Hera, Hades e Posídon, e temendo pelo mesmo fim do pai, repetiu proximamente o estilo tirano daquele, engolindo-os imediatamente após o nascimento. Instruída por Urano e Géia, Réia deu à luz Zeus, colocando-o no fundo de uma gruta e em seu lugar deu ao pai uma pedra envolvida em panos, que foi devorada. Quando adulto Zeus libertou e se uniu aos Ciclopes, aos Hecatônquiros e aos irmãos devorados para, depois de uma longa batalha, triunfar, dando início à geração olímpica. Entre as muitas celebrações em honra aos Olímpicos estão as práticas atléticas, transformadas em competições.

Reinventados no final do Século XIX, os Jogos Olímpicos deixaram de ser um ritual em honra a deuses e heróis, para se transformar em um dos maiores fenômenos socioculturais do planeta, organizados pelo Comitê Olímpico Internacional, uma entidade quase tão mítica quanto o próprio Olimpo. De si derivaram os Comitês Olímpicos Nacionais, que, à sua imagem e semelhança, reproduziram um modelo de gestão e hierarquia autônomas que pouco, ou nenhum espaço, permite a ingerências externas à sua própria organização. Olimpo contemporâneo, abrigou em seus quadros monarcas, nobres e aristocratas europeus, que pouco a pouco cederam espaço para alguns outros mortais não tão nobres, nem tão afeitos ao espírito amador, ao longo das décadas.

Enquanto os Jogos Olímpicos eram o palco para a exibição de atletas capazes de feitos sobre-humanos, realizados dentro do mais nobre espírito olímpico, a disputa pelo poder nessa instituição, de organização tão singular, atendia à vaidade de homens abastados, que quase nada ganhavam para se dedicar a tarefas que demandavam tempo e recursos. Estar no poder da instituição olímpica era tão glamouroso como ter um título nobiliárquico, mesmo sem ter posses.

O processo de profissionalização ocorrido ao longo da década de 1980 alterou radicalmente esse imaginário, na medida em que a celebração passou a custar muito e a gerar altos lucros, bem como o atleta deixou de ser alguém que “fazia por amor” para se tornar uma commodity. E então, assim como no mito, alguns pais passaram a temer os filhos, cuja profecia previa um patricídio, perpetuando um sistema de poder autocrático, auto referenciado e auto preservado por uma estrutura de poder que não pode ser regulada por nenhuma outra instância senão o próprio sistema olímpico internacional. E isso tudo foi pensado por Pierre de Coubertin, que no final do século XIX entendia que a democracia era um perigo para uma instituição de caráter internacional como o COI. Era preciso pensar no longo prazo e, portanto, mandatos curtos, com ampla participação poderia colocar em risco aquilo que havia sido instituído para ser um grupo fechado, composto por gentlemen.

O Brasil entrou nesse seleto grupo pelas mãos de um diplomata, Raul do Rio Branco, da estirpe do Barão de Rio Branco, muito embora Santos Dumont fosse digno da admiração de Coubertin, que chegou a homenageá-lo. Organizado em 1914 o Comitê Olímpico Nacional transformou-se em do Brasil na década de 1930 e desde então o COB esteve nas mãos de 7 presidentes, cujos mandatos tiveram de 10 meses, a menor duração com o Almirante Attila Aché (janeiro a outubro de 1963) a 27 anos (Major Sylvio de Magalhães Padilha de 1963 a 1990) e 21 anos (Carlos Arthur Nuzman de 1995 a 2017). Se para Padilha a questão central de sua gestão era a manutenção da condição amadora do atleta olímpico, Nuzman chegou ao poder do COB justamente pelo reconhecimento por profissionalizar o voleibol brasileiro, transformando-o em uma potência mundial. Juntamente com a profissionalização da estrutura da modalidade vieram a visibilidade, a capacidade de gerar negócios e a necessidade de centralizar o poder para que a rentabilidade desse produto fosse cada vez maior. Depois de conquistar a presidência de COB, entrou para o seleto grupo de membros do COI em 2000. E uma vez mais o mito explica a vida. Como as divindades das primeiras gerações, devorou os próprios filhos para não os ter como sucessores. E como Midas, que pediu a Dionísio para que tudo o que tocasse se tornasse ouro, Nuzman passou a colher as dádivas que semeou. Com seu toque produziu a estrutura que trouxe algumas medalhas douradas e também os Jogos Pan-americanos e os Jogos Olímpicos. Porém, como no mito, seu pedido se converteu em maldição, e tudo em que tocava, inclusive a filha amada, a comida que comia e a água que bebia, tornavam-se ouro, mesmo metal usado para fins nada olímpicos, a saber, a compra de votos para a realização dos Jogos no Rio de Janeiro.

A queda, hoje vivida dentro da Cadeia Pública de Benfica, resulta de uma acusação desencadeada pela polícia francesa e parece atender a um clamor contemporâneo pela transparência, honestidade e igualdade, princípios que norteiam o Olimpismo, garantem valor à marca e prometem longevidade a um negócio ameaçado por seu próprio gigantismo. Isso, entretanto, não indica permeabilidade a uma estrutura que nasceu para ser fechada. A prisão de Nuzman serve até aqui como leve analgésico para um doente, que em fase terminal precisa de morfina. Sua prisão atende aos clamores de justiça pelos desvios realizados em nome de uma instituição quase sagrada, que teima em se manter à margem das tradições democráticas e dos sistemas efetivamente representativos.

 

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