Aceiros e equipes de combate a incêndios preveniram fogo descontrolado no campus de Ribeirão Preto

Estratégias utilizadas no campus da USP em Ribeirão Preto se mostraram eficazes e o local registrou apenas seis ocorrências de incêndios sem grandes proporções durante o longo período de estiagem deste ano

 18/10/2021 - Publicado há 2 meses
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Equipe de combate a incêndio no campus de Ribeirão Preto – Foto: Arquivo/PUSP RP

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O longo período de pouca chuva e baixa umidade do ar teve consequências negativas para a biodiversidade e a sociodiversidade do País. Para prevenir que voltem a se repetir é preciso prevenção e entender suas origens, afirma o geógrafo Sidnei Raimundo, professor e coordenador do curso de Lazer e Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP em São Paulo.

Exemplo de que as afirmações do professor fazem a diferença foram as estratégias adotadas e os resultados obtidos pelo campus da USP em Ribeirão Preto. O local mostrou ser possível prevenir incêndios: em 2020 foram 13 ocorrências de incêndios, neste ano foram seis até o início de outubro, todas sem grandes proporções. Situação diferente do que ocorria até 2011, quando foram registrados cerca de 40 incêndios no local, sem causas exatas; ainda no mesmo ano, um incêndio de grandes proporções queimou aproximadamente 82 hectares de área reflorestada, situação que não era esperada, conta Antônio Justino da Silva, chefe do Serviço de Áreas Verdes e Meio Ambiente da USP em Ribeirão Preto. “Era um local de plantio, em que se aguardava a recuperação da floresta, mas não levamos em consideração que nós estávamos em uma área urbanizada e o risco que corríamos, assim o acontecimento mostrou a necessidade de meios e estratégias de prevenção contra o fogo.” 

Segundo o especialista, os incêndios que se propagaram durante o longo período de seca que assolou várias partes do País são ocasionados principalmente por fatores humanos, como o hábito de arremessar dos veículos bitucas de cigarro, por exemplo, ou mesmo são iniciativas intencionais e até alguns rituais religiosos que podem gerar fogo desproporcional. Além disso, acredita o professor, a incorporação do ateamento de fogo à cultura brasileira é um reforço à prática, pois “fez e ainda faz parte da cultura brasileira no processo de expansão das roças e da fronteira agrícola”, um “processo ilegal e criminoso”, que exige fiscalização e legislação.
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Aceiro (solo exposto) para proteger área de mata de incêndios – Foto: Arquivo/PUSP RP

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Para o professor existem duas estratégias principais para reduzir e combater o fogo descontrolado. A primeira é a criação de aceiros, “áreas de solo exposto que, com certa largura, separam o ambiente que se quer proteger”. Dessa forma, ainda que haja fogo na área circunvizinha, ele não é propagado “em direção à área que se queira proteger por conta desse obstáculo”, explica Raimundo. Aliado aos aceiros é importante manter uma equipe de brigada de incêndio, capacitada e preparada para lidar com o fogo na área.
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Incêndio na mata da USP em Ribeirão Preto – Foto: Arquivo/PUSP RP
Foto: USP Imagens

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Lição de casa

Adilson de Lima Biagi, supervisor de Serviço da Guarda Universitária da USP em Ribeirão Preto, conta que, depois do ocorrido em 2011, “houve melhoria nas condições justamente dos aceiros, treinamentos de brigadistas, instalação de duas torres de monitoramento de 40 metros de altura, com vigilância 24 horas, intensificação na fiscalização com viaturas motorizadas 24 horas e conscientização de moradores ao redor da floresta e pessoas que eventualmente transitam pelo local”.

O supervisor conta que, além de caminhão autobomba, carretas e tanque de água, foi providenciada “uma viatura exclusiva que realiza ronda na área de floresta”, permitindo ação rápida diante de focos de incêndio. 

Todos os trabalhos de prevenção, conta Biagi, foram frutos de parceria entre os setores da Prefeitura do Campus da USP em Ribeirão Preto, como a Guarda Universitária, Seção de Parques e Jardins e Seção de Transportes, em conjunto com o Corpo de Bombeiros.

Nos finais de semana, conta Biagi, em que há forte ocorrência de vandalismo, “nós mantemos um tratorista de plantão com a carreta acoplada e o tanque de 15 mil litros que fica na área da floresta; se acontecer algum incêndio esse funcionário é imediatamente acionado”, conta o senhor Justino da Silva. 

A partir de agora, tanto para a segurança como para a prevenção de incêndios, o campus vai ganhar mais um aliado, um drone que será utilizado em situações específicas, especialmente em rondas na área rural e no patrulhamento diário da Guarda Universitária.

A floresta é dividida em 30 hectares de recomposição florestal, 45 hectares de banco genético de sementes e para futuras pesquisas, e cerca de 35 hectares de compensação florestal. O local possui árvores características da mata atlântica e com transição para o cerradão.
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Ouça no player a seguir a entrevista do geógrafo e professor Sidnei Raimundo, dos senhores Antônio Justino da Silva e Adilson de Lima Biagi para o Jornal da USP no Ar, Edição Regional

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Sidnei Pedroso – Foto: IEA

Educação ambiental  

Para o professor Raimundo, a conscientização sobre os perigos dos incêndios passa por duas frentes: a primeira e mais complexa é o “investimento na prevenção ali da questão fundiária”, a fim de evitar ampliação de áreas de desmatamento por meio do fogo, especialmente em relação à Amazônia e ao Pantanal, diz. Já a segunda maneira é a educação ambiental, desde os primeiros anos escolares até o ensino superior.

Além disso, afirma o professor, esse conhecimento deve ser trabalhado em outras instituições, como Organizações Não Governamentais (ONGs) e associações de bairro, onde sejam ofertados cursos sobre a importância de não atear fogo “inadvertidamente na floresta” e outros fatores humanos, como bitucas de cigarro arremessadas dos carros, o uso de balões, entre tantos outros fatores. Nesse sentido, o especialista acredita na força de campanhas massivas junto aos órgãos e meios de comunicação.

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