USP Analisa #56: Usuários espalham desinformação de forma consciente na maioria dos casos

Segundo Ana Regina Rego, mesmo desconfiando da veracidade, público usa conteúdo falso para derrubar pessoas e pensamentos com os quais não concorda

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Jornal da USP
USP Analisa #56: Usuários espalham desinformação de forma consciente na maioria dos casos
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O formato em que a desinformação chega até os usuários das redes sociais contribui para sua credibilidade. Produções de qualidade em vídeos, trilhas sonoras e estética jornalística são comuns em grande parte delas. Mas mesmo que haja uma desconfiança de que aquele conteúdo seja falso, a disseminação desses conteúdos pelas pessoas comuns é, em sua maioria, consciente. É o que discute a jornalista, professora da Universidade Federal do Piauí e coordenadora da Rede Nacional de Combate à Desinformação, Ana Regina Rego, na segunda parte da entrevista que vai ao ar nesta semana no USP Analisa.

Ela cita uma pesquisa da Universidade de Regina, no Canadá, feita com seus habitantes e dos Estados Unidos no final de 2019, que apontou justamente isso. “As pessoas desconfiam que alguma coisa ali não está legal, não é verdadeira. Mas elas querem divulgar para compor uma onda maior, formar mais pessoas aliadas a seu pensamento e derrubar aquele político com o qual você não concorda, derrubar aquele pensamento que é mais científico com o qual você não concorda. Então, esse compartilhar sem pensar é entre aspas, porque há aí uma consciência que se diz inconsciente, mas é porque ela está em uma linha bem limítrofe, que faz com que a pessoa pense: ‘Eu sei que tem alguma coisa errada, mas eu quero que isso vá adiante’”, afirma Ana.

Ela destaca que falta um trabalho educativo com a população jovem, principalmente a faixa etária egressa de universidades, que, segundo pesquisa de uma empresa de cibersegurança divulgada em 2020, é a que mais compartilha fake news em seus perfis e comenta notícias sem checar.

“No projeto atual da educação brasileira, a ideia é que as humanidades deixem de ser cursos nas universidades públicas, quando a ideia principal é levar as ciências humanas sociais e sociais aplicadas, letras, linguística e artes também para dentro dos cursos de exatas, de ciências naturais, sobretudo disciplinas mais críticas como a Filosofia, a Sociologia e, dentro do processo comunicativo, essa necessidade de uma educação para a mídia. Acho que o Brasil ficou meio que na contramão desse processo, porque a intenção é esvaziar o pensamento e formar o homem laboro, o homem para o trabalho. O homem que trabalha não é despertado para o pensar, ele trabalha, ganha seu dinheiro, bebe sua cerveja, come seu churrasco. E, como ele não desenvolve o pensar, ele pode ser um terraplanista, um anticomunista, porque ele não consegue entender os extremos e as irregularidades que podem acontecer em cada uma dessas situações de vida política em sociedade”, explica a professora.

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