Os desafios do ensino superior depois da covid-19

Por Vahan Agopyan, reitor da Universidade de São Paulo

Vahan Agopyan, reitor da USP – Foto: Jornal da USP

 

A pandemia fortaleceu a percepção da sociedade sobre a necessidade e a importância da ciência para o combate aos problemas com que ela convive e a proposição de novas soluções. Aqui no país também ficou patente a primordialidade do controle do conhecimento, em situações emergenciais, como a que estamos vivendo.

As melhores universidades do mundo estão empenhadas em combater o novo coronavírus e contribuir para minimizar os danos dessa crise, que é sanitária, mas está se tornando econômica e política. Com isso, a denominada “Terceira Missão” das universidades, além do ensino e da pesquisa, ganhou uma nova dimensão e a interação das instituições com a sociedade e os governos se intensificou. No Brasil, minha percepção é que está ocorrendo o mesmo e, com isso, a população está compreendendo melhor a função, notadamente, de uma universidade de pesquisa.

A Universidade de São Paulo, além de se adequar rapidamente e conseguir ministrar, de forma remota, 90% das disciplinas teóricas ou teórico-práticas de graduação, tem mais de 200 grupos de pesquisa que se adaptaram ou começaram estudos relacionados ao combate da covid-19. Somado a isso, vários laboratórios juntaram esforços e criaram uma rede de diagnósticos, entre outras ações que estão sendo desenvolvidas.

O cenário pós-covid-19 impõe novos desafios para o ensino superior, cujos principais tópicos são elencados a seguir:

  • Revisão radical da maneira de oferecer as disciplinas de graduação: tanto os alunos quanto os professores tiveram que conviver, de maneira abrupta, com ferramentas pouco utilizadas no ensino tradicional. Essa experiência demonstrou como esses meios podem ser úteis para melhorar o aprendizado. Defendo que, em uma universidade de pesquisa, seu diferencial é oferecer o ensino no ambiente de pesquisa e o relacionamento aluno e professor é imprescindível. Entretanto, o emprego de novas metodologias didáticas e ferramentas desenvolvidas para o ensino a distância demonstrou que contribui e muito para o aprimoramento das aulas presenciais.
  • Internacionalização com restrição à mobilidade: a internacionalização das atividades das universidades é uma ação institucional que não pode retroceder.  Temos que formar profissionais competentes e competitivos internacionalmente e as pesquisas de ponta são necessariamente realizadas de forma globalizada. O desafio é conseguir manter essa situação, com dificuldades de mobilidade tanto dos docentes quanto dos alunos, por, provavelmente, um longo período de tempo.
  • Mudança do ritmo das pesquisas: pela situação emergencial, vários grupos de pesquisa responderam às demandas de maneira muito expedita, muitas vezes com equipes multidisciplinares sem atuação conjunta prévia. Esta parceria modificou o comportamento desses docentes e pesquisadores, o que deve ser disseminado em toda a instituição. Não se está defendendo um produtivismo na pesquisa, mas a introjeção desse comportamento no sistema, no qual grupos multidisciplinares trabalham conjuntamente e até no mesmo ambiente, desde o desenvolvimento do conhecimento básico até o produto final.

Todas essas transformações não são triviais e irão demandar muito esforço para a sua consecução, além da exigência da mudança de cultura e de conceitos pré-concebidos.

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