Cracolândia é destaque na 1ª Bienal de Arte Digital

Na videoinstalação “Odiolândia”, Giselle Beiguelman mostra a agressividade nas redes contra os dependentes do crack

Por - Editorias: Cultura
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Baseada em fatos, a videoinstalação Odiolândia impressiona o público da Bienal de Arte Digital, que apresenta a sua primeira edição em Belo Horizonte (MG) aliando arte e tecnologia. A criação é da artista Giselle Beiguelman, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e colunista da Rádio USP (assista clicando no link acima).
Diante de uma tela preta, o espectador lê mensagens e ouve gritos, helicópteros, rajadas, tiros, ordens de policiais, latidos de cães… Frases como:

– Sejamos sensatos, tem que matar, senão não resolve.

– Que coisa linda. Deixa a gente aqui do interior fazer isso com os sem-terra, mas usando a 12 com chumbo 3T.

Giselle Beiguelman, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP – Foto: Arquivo pessoal

O público acompanha o áudio real das operações policiais na Cracolândia. “Nesse processo, desvela-se um tecido social contaminado pela cultura do ódio”, explica Giselle. “A Cracolândia se expande como se fosse uma lente através da qual pudéssemos ler o Brasil atual. Transforma-se no ovo da serpente. Através da fina membrana, pode-se ver o réptil inteiramente formado.”

Odiolândia reúne comentários que a artista foi coletando nas redes sociais sobre as ações da Prefeitura de São Paulo e do governo do Estado na Cracolândia, entre maio e junho de 2017. O título da videoinstalação sintetiza a atmosfera que contamina a cidade. “O projeto foi realizado a convite de Paulo Herkenhoff e Leno Veras para a exposição São Paulo Não é Uma Cidade: As Invenções do Centro, apresentada no início do ano no Sesc 24 de Maio”, explica Giselle.
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A obra de Giselle Beiguelman em cartaz na 1ª Bienal de Arte Digital, em Belo Horizonte – Foto: Divulgação/Bienal de Arte Digital

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O título do trabalho nasceu do teor das mensagens postadas pelo público. Majoritariamente favoráveis ao tratamento policial da questão e ao uso da força e de armas de fogo contra os dependentes, elas expressam também o desejo de ver as mesmas políticas aplicadas a outros grupos. Nordestinos, sem-terra e gays são alguns dos seus alvos.

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Estar diante de uma tela preta, ouvindo os sons que povoam São Paulo e as frases de ódio que contaminam as redes sociais é assustador. Os mesmos sons estão no cotidiano de outras cidades. São os “continentes-odiolândia”, como a própria artista define.

Odiolândia mostra mensagens veiculadas nas redes sociais – Foto: Divulgação/Bienal de Arte Digital

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A Bienal de Arte Digital foi idealizada a partir do Festival de Arte Digital (FAD), promovido há dez anos em Belo Horizonte. O evento começou no dia 5 de fevereiro no Oi Futuro, no Rio de Janeiro. E desde o dia 26 de março está nos espaços culturais de Belo Horizonte. A videoinstalação da artista Giselle Beiguelman é apresentada no Museu de Arte da Pampulha. Mas há também programações na Casa Fiat de Cultura, Casa do Baile e Espaço Atmosfera. Com a curadoria de Tadeus Mucelli e Nina Gazire, reúne exposições, performances e instalações de 20 artistas do Brasil, Alemanha, Estados Unidos, México, Reino Unido e Suécia.

A 1ª Bienal de Arte Digital segue até o dia 29 de abril. A programação acontece no Museu de Arte da Pampulha (Avenida Otacílio Negrão de Lima, 16.585, Pampulha), na Casa do Baile (Avenida Otacílio Negrão de Lima, 751, Pampulha), na Casa Fiat de Cultura (Praça da Liberdade, 10, Funcionários) e no Espaço Atmosfera (Alameda do Ingá, 16, Vale do Sereno). A programação completa do evento está disponível em www.bienalartedigital.com.

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