Como a Escola de Comunicações e Artes da USP resistiu à ditadura

Livro traz depoimentos de professores que viveram o período mais sombrio dos anos de chumbo na Universidade

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Luiz Augusto Milanesi, 50 Anos Depois, a Resistência da ECA-USP à Ditadura Militar – Foto: Reprodução

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A ECA foi uma voz que repercutiu, dentro da USP e em todo o território nacional, essa situação absolutamente anômala”, observa a professora Margarida Kunsch, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Foi essa voz que ressoou forte no debate 50 Anos Depois: a Resistência da ECA-USP à Ditadura Militar, promovido em dezembro de 2014 para registrar a implantação da ditadura no Brasil. Agora, neste mês em que o País relembra os 50 anos do Ato Institucional nº 5, promulgado no dia 13 de dezembro de 1968, os depoimentos dos professores Adilson Citelli, Luiz Augusto Milanesi, Roseméri Laurindo e Sinval Medina foram reunidos no livro que tem o mesmo nome do debate.

A professora Margarida Kunsch, organizadora do livro – Foto: Susana Sato

Organizado por Margarida Kunsch, 50 Anos Depois: a Resistência da ECA-USP à Ditadura Militar resgata fatos e pessoas que marcaram a luta da escola, diretamente atingida pelo regime totalitário. “Sensibilizar as novas gerações sobre a importância da democracia – e as problemáticas de sua ausência para uma sociedade e uma nação – foi um dos objetivos daquele debate”, explica. “Muitas vezes o termo ditadura é usado na própria Universidade, por diversos segmentos, sem a devida compreensão da sua abrangência e do que foram para a geração de então os anos de chumbo que vivenciamos no País.”

A Escola de Comunicações e Artes, segundo destaca a professora, foi palco de resistência durante o regime totalitário. “Esse período foi vivenciado por vários atores: dirigentes, professores, estudantes da escola e convidados especiais que por aqui passaram deixando mensagens de liberdade de expressão, coragem, persistência, libertação e ensinamentos, em uma conjuntura das mais duras do regime ditatorial então vigente, sob o auge do AI-5 e do decreto-lei 477.”

O evento mais radical e dramático dos casos assinalados, pelo seu desfecho, envolveu a prisão, tortura e morte de Vladimir Herzog.”

 Adilson Citelli, professor do Departamento de Comunicações e Artes da ECA, no artigo “Tempo vivido”, que integra o livro 50 Anos Depois: a Resistência da ECA-USP à Ditadura Militar, relata que, pelas suas próprias características de unidade formadora nos campos da comunicação e das artes, a escola tem na liberdade de expressão o seu compromisso mais significativo. “Há, pois, incompatibilidade visceral entre os desígnios últimos de uma unidade educativa como a nossa – extensiva às congêneres – e a violência da censura, do cerceamento expressivo, do controle da informação, do regime de força encarnado no regime ditatorial.”

Citelli lembra a luta desigual, as prisões, sevícias e eliminação dos estudantes. “A nossa escola, para nos restringirmos a ela – e conforme seguíamos e participávamos dos desdobramentos políticos que se processavam no interior da Universidade –, sofreu todas as consequências da estratégia do terror implantada pela ditadura. E nela, também, ocorreram as cassações, prisões, tortura e morte, a exemplo dos professores José Marques de Melo, Jean Claude Bernardet, Sinval Medina, José Freitas Nobre, Thomas Farkas, Jair Borin, Paulo Emílio Sales Gomes, cujas carreiras foram prejudicadas pelas formas diretas ou indiretas dos mecanismos discricionários que sobre cada um deles tiveram impactos particulares.”

Roseméri Laurindo, 50 Anos Depois, a Resistência da ECA-USP à Ditadura Militar – Foto: Reprodução

“O evento mais radical e dramático dos casos assinalados, pelo seu desfecho, envolveu a prisão, tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog, professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, onde ministrava aulas de Jornalismo Televisionado, e diretor de Jornalismo da TV Cultura, assassinado, aos 38 anos de idade, nas dependências do DOI-Codi”, assinala Citelli, citando o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, órgão ligado ao Exército.

No debate, o professor Citelli alertou: “Neste final de 2014, em que tenebrosas vozes pedem a volta dos militares ao poder, é imperioso estar atento e forte para que o ovo da serpente e seus cavernosos arroubos nostálgicos do autoritarismo, censura e intolerância não venham a gerar novos ciclos de terror protegidos pelo Estado”. E observou: “Por essa ótica, parece importante que a nossa escola continue exercendo o seu papel educador, tendo como referência uma história de envolvimentos e compromissos com o exercício democrático, com a liberdade de expressão e manifestação, realizando as pesquisas acadêmicas nos campos da comunicação e das artes e franqueando o mais amplo intercâmbio de ideias”.

Já em seu segundo ano de existência, a ECA se transformou num dos pontos de tensão da USP, um centro de turbulência quando as forças armadas queriam uma USP surda, cega e principalmente muda.” 

“1968 foi o segundo ano da ECA, o quarto do golpe militar e o meu primeiro ano da USP. Saindo de uma cidade de 20 mil habitantes, não entrei apenas em uma metrópole, mas na boca do vulcão. Não só porque me aproximava da capital paulista, a ‘Pauliceia desvairada’ do Mário de Andrade, mas porque chegara a uma USP convulsionada.”

Luiz Augusto Milanesi, professor do Departamento de Informação e Cultura da ECA, lembra a constante inquietação e pânico que a ECA e a USP viveram nos anos de chumbo. “Tínhamos entre nós os chamados dedos-duros, reais ou imaginários, principalmente imaginários. A imaginação se expandia de maneira intensa, inquietando e nos tirando qualquer resquício de tranquilidade. Vivíamos enclausurados no desassossego das ditaduras, quando não se sabe quem é quem. Nos anos de chumbo da repressão, todos os gatos eram pardos.”

Luiz Augusto Milanesi, 50 Anos Depois, a Resistência da ECA-USP à Ditadura Militar – Foto: Reprodução

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O professor ressalta que a ECA seria sempre avessa à censura. “A sua própria existência constituía-se em ameaça a todos que desejam um país onde as liberdades essenciais estão indisponíveis. A USP, como um todo, as humanidades em particular e especificamente a ECA foram duramente atingidas no período por todas as modalidades de repressão, que incorporavam mortes, encarceramentos e cassações que tanto prejudicaram seus objetivos de ensino e pesquisa. O próprio vice-reitor, no exercício do cargo de reitor, Hélio Lourenço de Oliveira, foi cassado.”

A ditadura já tinha produzido a morte de 21 jornalistas até o dia 25 de outubro de 1975, data em que um dos professores de Jornalismo da ECA, Vladimir Herzog, foi assassinado.” 

Roseméri Laurindo, hoje professora da Universidade Regional de Blumenau, relembra a perseguição ao Professor Emérito da ECA José Marques de Melo, na mesma época em que Vladimir Herzog foi assassinado. “Tão logo recebeu o título de Doutor em Jornalismo, o primeiro do Brasil, e concluiu pós-doutorado nos Estados Unidos, foi demitido da renomada Escola de Comunicações e Artes sem receber indenização ou explicação, ou explicação oficial, a respeito dos motivos da expulsão”, escreve Roseméri.

A professora explica que a avidez dos militares sobre os acadêmicos é atestada em relatório no qual o general Ednardo D’Ávila, comandante do 2º Exército, afirma que a ECA é o principal foco de agitação da USP. “A ditadura já tinha produzido a morte de 21 jornalistas até o dia 25 de outubro de 1975, data em que um dos professores de Jornalismo da ECA, Vladimir Herzog, foi assassinado pelas mãos dos torturadores no DOI-Codi.”

Além disso, éramos jovens da geração de maio de 68, nossas roupas, cabelos e atitudes confrontavam os padrões tradicionais. Aos olhos dos hierarcas, parecíamos mais alunos do que mestres.”

As recordações do significado da ECA são partilhadas por Sinval Medina, escritor, jornalista e ex-professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA. Seu depoimento é apresentado no livro 50 Anos Depois: a Resistência da ECA-USP à Ditadura Militar. Fala da atmosfera do seu departamento no contexto da USP em 1971, ano em que ele e sua companheira Cremilda Medina ingressaram na ECA como auxiliares de ensino.

“O País vivia uma das fases mais violentas da ditadura militar. A atmosfera repressiva dominava a Universidade”, conta. “Porém, na ECA, e particularmente no Departamento de Jornalismo e Editoração, respirávamos um clima de liberdade que beirava a ousadia. Integrávamos uma área de conhecimento muito recente, sem tradição científica, mal compreendida e mesmo desdenhada pelo conservadorismo então predominante no meio acadêmico. Além disso, éramos jovens da geração de maio de 68, nossas roupas, cabelos e atitudes confrontavam os padrões tradicionais. Aos olhos dos hierarcas, parecíamos mais alunos do que mestres.”

Medina destaca que o Departamento de Jornalismo e Editoração era um ponto fora da curva numa instituição dirigida por reacionários. “E aqui rendo minha homenagem ao meu querido amigo e ex-chefe José Marques de Melo, responsável pela criação e sustentação desse núcleo de resistência à ditadura”, lembra. “Trabalhávamos com informação, material explosivo para um sistema político que adotava a censura como forma de esconder seus crimes.”

Sinval Medina, 50 Anos Depois, a Resistência da ECA-USP à Ditadura Militar – Foto: Reprodução

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Professores passaram a ser afastados. “O primeiro a cair foi o professor Freitas Nobres, bravo líder do MDB na Câmara dos Deputados, seguiu-se o professor Thomas Farkas. Depois, José Marques de Melo. Depois, Jair Borin, que foi preso nas dependências da ECA, numa gritante violação da inviolabilidade do território universitário.”

Após o afastamento desses professores, chegou a vez de Sinval Medina, que, na época, ocupava o cargo de vice-coordenador do departamento. “Com a carreira acadêmica interrompida e ameaçado de prisão, retirei-me de cena e tratei de buscar emprego. Com o auxílio de amigos, em menos de duas semanas estava trabalhando na Rádio Difusora de São Paulo e na Editora Abril.”

No dia 5 de novembro de 1986, Sinval Medina foi reintegrado como professor da USP, decisão sancionada pelo então reitor José Goldemberg. “A essa altura, minha vida profissional se afastara por completo da academia. Assim, trabalhei durante um semestre no departamento e, em junho de 1987, pedi demissão, deixando a Universidade de São Paulo pela porta da frente.”

Dos bons tempos, Sinval Medina sente saudade. “Não esqueço, porém, a importância que essa casa teve na minha formação. Fui aluno de mestres como Egon Schaden, Paulo Emílio Sales Gomes, Eduardo Peñuela, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Virgílio Noya Pinto e do próprio José Marques de Melo. Além disso, aqui fiz amizades que perduram até hoje.”

O livro organizado pela professora Margarida Kunsch – Foto: Reprodução

 

50 Anos Depois: a Resistência da ECA-USP à Ditadura Militar, organização de Margarida Maria Krohling Kunsch, com depoimentos de Adilson Citelli, Luiz Augusto Milanesi, Roseméri Laurindo e Sinval Medina. O livro tem 66 páginas e pode ser encontrado para leitura em todas as bibliotecas da USP. Edição da ECA, 2018. A versão eletrônica pode ser acessada gratuitamente neste link:

http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/293

 

 

 

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