Tecnologia de drones e hidrofones ajuda a entender como golfinhos caçam

Pensando em futuros projetos de conservação da espécie, pesquisadores usaram equipamentos para descrever como botos-cinza do litoral sul de SP se alimentam

O uso da tecnologia foi a base do estudo do comportamento acústico dos golfinhos de Cananeia – Foto: Pixabay

Uma pesquisa realizada no Instituto de Oceanografia (IO) da USP utilizou drones e hidrofones (microfones adaptados ao meio marinho) para estudar as emissões de ecolocalização de botos-cinza na captura de peixes no estuário de Cananeia, litoral sul de São Paulo. Com vistas a aliar tecnologia e oceanografia, o trabalho, desenvolvido por Nayara Carvalho Tannure, possibilitou fazer uma descrição acústica de como os golfinhos caçam e os resultados poderão, no futuro, auxiliar na tomada de decisões que visem à conservação ambiental. 

Marcos César de Oliveira Santos é professor do IO e possui mestrado e doutorado em Ecologia pela USP – Foto: Reprodução/Lattes

A ideia de utilizar drones para estudar os botos-cinza surgiu de um acaso. “Por coincidência fui fazer um trabalho de campo em Cananeia e a Nayara estava lá em outra viagem com o laboratório em que ela estagiava. Ela estava brincando com um drone no estacionamento. Eu vi e sugeri de usarmos para a pesquisa”, contou ao Jornal da USP o biólogo e professor do IO, Marcos César de Oliveira Santos, orientador do estudo.

O professor Marcos já trabalhava pesquisando os botos-cinza de Cananeia, da espécie Sotalia guianensis, desde 1995. Os animais apresentavam um comportamento que chamou sua atenção: davam um rasante para capturar peixes em áreas rasas. Então, o professor convidou Nayara para desenvolver um trabalho com drones e hidrofones com o objetivo de estudar melhor essa ação dos golfinhos. 

Pegou ou não pegou o peixe?

A primeira etapa da pesquisa, desenvolvida no Laboratório de Biologia da Conservação de Mamíferos Aquáticos (LABCMA), foi colocar hidrofones passivos (sem nenhuma ação humana) próximos aos locais de caça dos golfinhos. Em seguida, Nayara conta que a equipe de pesquisadores ficou em um barco, enquanto ela usava outro hidrofone para acompanhar em tempo real e ouvir o que estava acontecendo debaixo d’água. O drone fazia imagens aéreas do golfinho e do cardume de peixes, de forma que fosse possível enxergar quando o animal capturava a presa. 

Mesmo com o golfinho caçando próximo à praia e na água rasa não era possível ver com clareza da terra se ele tinha êxito na caçada, pois tudo acontece muito rápido e há o movimento da água, que contém partículas como areia e lama, e dificulta a visualização. 

Nayara Carvalho Tannure é graduada em Oceanografia pela USP – Foto: Reprodução/Lattes

“Nós fizemos o trabalho usando a gravação dos dois hidrofones. O meu tinha uma resolução mais baixa, e o volume do som era maior, por estar mais perto do golfinho. O outro captava o som com a resolução melhor, era mais completo, mas ficava mais longe, então o volume que aparecia no gráfico era menor”, detalhou Nayara. 

Ouvindo as captações dos hidrofones e vendo as imagens geradas pelo drone, que estavam sincronizadas com o som, a pesquisadora identificou que o golfinho emite sons para procurar a presa e, quando ele vai atacar, esses sons vão se refinando. O animal passa a soltar pulsos sonoros cada vez mais rápidos, o que provavelmente ajuda a formar uma imagem muito mais complexa e próxima no cérebro para que ele capture a presa precisamente. Foi este o processo acústico, chamado de ecolocalização, que foi descrito no trabalho. 

A ecolocalização pode ser descrita como um processo no qual o animal emite ondas ultrassônicas e, posteriormente, analisa o eco que retorna para ele. Esse mecanismo é usado para que o animal se localize no ambiente. Para que o processo ocorra, é necessário que ele possua um órgão, que nos golfinhos, por exemplo, fica na cabeça, que consiga produzir um sinal acústico e apresente capacidade de interpretar o eco do sinal emitido. Tal interpretação é possibilitada pelo sistema auditivo. A ecolocalização permite ao animal montar um mapa de localização sem depender da visão, recurso importante para aqueles que vivem em ambientes pouco iluminados ou que não possuem visão bem desenvolvida. Esse recurso ajuda na detecção de presas e obstáculos. 

“Para capturar a presa, quando os golfinhos ficam com fome, começam a disparar sons, que são sempre num volume alto pois precisam que vá para longe. Conforme miram o alvo e resolvem que vão para perto, os animais começam a direcionar esse som. À medida que vão chegando, os golfinhos emitem ‘cliques’ mais rápidos, diminuindo a distância entre eles e a presa”, explicou a pesquisadora. 

Segundo Nayara, “o barulho do golfinho pegando o peixe era parecido com uma porta enferrujada abrindo”. O som da captura foi estudado juntamente das imagens, pois as captações em vídeo do drone é que davam a confirmação precisa de que o golfinho teve êxito na caça. 

No vídeo e na imagem abaixo, é possível ver momentos de capturas de sucesso. 

 

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Imagens de outra captura na qual é possível ver, nitidamente, que o golfinho conseguiu pegar o peixe – Foto: Cedida pela pesquisadora

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Já essa é uma imagem de uma captura que não deu certo. É possível ver que o golfinho tentou, mas não conseguiu pegar o peixe – Foto: Cedida pela pesquisadora

A equipe de pesquisadores ficou no Estuário de Cananeia por cinco dias para conseguir realizar o trabalho. Foram 20 capturas no total, das quais metade tiveram sucesso. 

Importância da conservação ambiental 

Entender a acústica dos golfinhos e a forma como eles caçam são muito importantes para que essa espécie seja preservada. Pegar o peixe em áreas rasas, como o Sotalia guianensis faz, é um fenômeno raro. “Espero que quando as pessoas analisarem o meu trabalho, essa pesquisa seja levada em conta na tomadas de decisão em relação à conservação ambiental”, contou Nayara. Algo notado pela pesquisadora foi que o barulho dos barcos impacta muito negativamente na alimentação dos botos-cinza. 

“A poluição sonora é cada vez maior globalmente, mas como ela está abaixo da água e não nos afeta diretamente, é um pouco negligenciada pela sociedade. Podemos começar aliar ciência e tecnologia com vistas à conservação e manejo”, complementou Marcos. 

Como perspectivas futuras estão o estudo mais aprofundado da comunicação entre essa espécie de golfinhos para caça e o aprofundamento do estudo dos parâmetros acústicos, com foco em saber se há algum parâmetro específico que consiga denotar todas as capturas de sucesso. 

A pesquisa Acoustic Description of Beach-Hunting Guiana Dolphins (Sotalia guianensis) in the Cananeia Estuary, Southeastern Brazil foi publicada no início de 2020 na revista científica Aquatic Mammals

Mais informações: e-mail nctannure@gmail.com, com Nayara Tannure; e-mail mcos@usp.br, com Marcos César de Oliveira Santos

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