Integrar história da ciência nas escolas pode revolucionar ensino

Para historiadora, abordagem auxilia compreensão pelos alunos de aspectos que são trabalhados fora das humanidades

Por - Editorias: Ciências
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Pesquisadora constatou que, mesmo em escolas com visão “mais humanizada”, pouca atenção é dada para a área interdisciplinar. Na imagem, a cientista francesa Marie Curie – Foto: Bettmann/Corbis

Uma tese de doutorado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP argumenta que o ensino da história da ciência pode ser fundamental para estudantes compreenderem e relacionarem aspectos essenciais, que usualmente são trabalhados apenas nas aulas de ciências da natureza e matemática.

Para a pesquisadora Gisela Tolaine Massetto de Aquino, membro do Grupo de Estudos do Progresso da Tecnologia e Ciência (Geptec) da FFLCH, a história da ciência está deslocada do resto do ensino da história, em especial, nos ensinos fundamental e médio.

Ao postular seu resgate não apenas pela disciplina de humanas, mas em conjunto com outras matérias, Gisela aponta que a ideia simples ainda encontra rejeição no dia a dia das escolas. “É muito fácil encontrar momentos no currículo em que essas disciplinas se aproximam”, destaca ela.

Partindo da premissa de que toda a contextualização da ciência deva ser realizada nas aulas de história, pelo professor da disciplina em questão, Gisela baseou-se em uma visão inserida na gênese dos estudos sobre história da ciência e tecnologia.

Para realizar sua análise, a historiadora fez uma comparação entre o pensamento de dois epistemólogos fundamentais para a educação e para a história da ciência: Thomas Kuhn e Jean Piaget.

De escola em escola

Da teoria à prática, Gisela, que sempre foi professora, sedimentou sua tese tentando aplicar em sala de aula o conjunto de pressupostos teóricos que estudou em Kuhn e Piaget. Em um conceituado colégio particular da capital paulista, a historiadora procurou aplicar o ensino da história da ciência entre diferentes disciplinas. Programando exercícios que contextualizariam, por exemplo, o ensino da teoria da evolução das espécies com o contexto histórico em que Charles Darwin publicou sua obra maior, Gisela iniciou seus trabalhos.

Na escola na qual trabalha, a professora encontrou as primeiras barreiras ao tentar dar novos rumos à uma programação didática estabelecida na separação rígida de disciplinas. “Tinha muitos colegas que eu julgava que teriam prazer em fazer uma atividade interdisciplinar, mas consegui apoio de alguns e não de todos”, conta ela ao destacar que foi durante a fase prática de seu doutorado que ficou clara a ideia velada entre professores de que “as matérias de humanas são menos importantes que as de exatas”.

Em seguida, tentando localizar exemplos positivos do ensino de história da ciência em diferentes escolas, Gisela constatou que, mesmo em escolas com visão “mais humanizada”, era dada pouca atenção para a área interdisciplinar.

“Numa instituição particular que analisei, observei um trabalho feito sobre história da ciência, mas que não conversava com as humanidades”, relembra. Em outra escola, considerada por educadores como “muito tradicional”, Gisela logo notou que, apesar da falta de abertura para o intercâmbio entre matérias, um professor de história se esforçava para ampliar horizontes por meio do ensino da história da ciência.

Ao final de suas observações e exercícios empíricos, a professora comprovou a ausência de políticas formalizadas para a implantação do ensino de história da ciência entre diferentes disciplinas. Admitindo que, embora seu escopo tenha sido pequeno e bastante localizado, as conclusões a que chegou reproduzem em parte uma visão sobre o ensino no Brasil.

Professores interdisciplinares

De volta à teoria, Gisela argumenta que o ensino de história da ciência de forma integrada evitaria “a perpetuação da ideia de que a produção de ciência seja considerada algo sagrado e inviolável, bem como o próprio cientista que é tratado como um ser de sabedoria incontestável”.

Ao contrário, sua ideia é que esse tipo de ensino integrado forme nos alunos uma nova visão da ciência, que esteja sujeita a críticas e a reformulações, assim como a própria prática pedagógica.

“Eu gosto de trabalhar junto com outros professores porque eu quero que meu aluno entenda que o conhecimento não é fragmentado”, explica ela, ao relembrar que, na sua opinião, para muitos educadores tradicionais essa não é a norma.

Ao final do doutorado, Gisela defende que esse formato de organização pode vir a auxiliar o estudante brasileiro  a construir o que chamou de “uma nova ordenação de pensamento”.

O ensino de história da ciência seria uma das saídas para sanar a superficialização da educação – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Durante sua pesquisa, a professora viu o governo brasileiro implementar de forma súbita uma outra proposta para o ensino médio. Apesar de ter lido e analisado as novas bases curriculares, ela acredita que o caráter urgente com o qual a reforma foi introduzida possivelmente não vai permitir que ideias como o ensino interdisciplinar entrem em prática efetivamente.

Ainda assim, para ela, o ensino da história da ciência pode ser a solução para uma série de metas que o novo programa quer alcançar. “Existe a possibilidade de se pensar a história da ciência como uma saída para resolvermos a superficialização do ensino”, diz ela, ao pontuar que a interação entre as matérias seria o segredo de uma nova prática educacional.

Para a pesquisadora, parte da chave do sucesso está com os próprios professores. “A ideia é tentar formar uma geração interdisciplinar para que professores, como os de matemática, entendam que história é importante e quanto mais cedo eles transmitirem isso para os alunos, melhor eles serão informados e terão mais facilidade para entender conceitos”, finaliza.

A tese História da ciência e epistemologia: um estudo no ensino médio brasileiro foi orientada pelo professor Gildo Magalhães dos Santos Filho e pode ser acessada neste link.

Mais informações: e-mail gtm.aquino@gmail.com, com Gisela Aquino

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