Falar sobre família biológica fortalece laço entre pais e filhos adotivos

Estudo revela importância dos filhos conhecerem origem biológica para construírem seu próprio mito de origem

Um artigo da revista Psicologia USP discute um tema que quase sempre aparece nas famílias que têm filhos adotados. Partindo do chamado mito da origem, o texto aborda os questionamentos comuns dos filhos para os pais que fizeram a adoção: “onde nasci?” e “quem são meus pais?”, um assunto que muitas vezes é permeado de segredos. O estudo qualitativo que originou o artigo foi realizado por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), a partir de entrevistas com dez jovens cariocas das classes média e alta. O objetivo foi gerar novos elementos para compreender como se dá a vivência de pais adotivos em relação à parentalidade e à filiação no período da adolescência de seus filhos. Entre outras reflexões, as psicólogas indicam os benefícios da construção da própria história por parte desses filhos e destacam a necessidade de que a elaboração do sofrimento seja feita em família.

O mito da origem

Não admitir para si mesmo o desejo de conhecer os pais biológicos desperta ansiedades, dificuldades de relacionamento e medos – de si mesmo, do desconhecido, de enfrentar uma realidade que pode ser melhor ou pior do que imaginávamos. Uma das saídas é a construção do mito de origem, que tem a função de tentar solucionar enigmas. Tal tentativa é manifestada por meio da curiosidade infantil sobre o nascimento dos bebês e reatualizada no desenvolvimento da sexualidade. Por isso tudo, “a sensibilidade dos pais em reconhecer os questionamentos dos filhos apresentou-se como um fator promotor de saúde emocional familiar“. Hoje, a família é definida não só pelos laços biológicos, mas, principalmente, composta por pessoas unidas por vínculo afetivo. Neste caso, por meio da adoção, que não deve ser mais concebida como um desvio à normalidade da filiação biológica

De acordo com as autoras, “a sensibilidade dos pais em reconhecer os questionamentos dos filhos apresentou-se como fator promotor de saúde emocional familiar” – Ilustração: Pixabay

As autoras citam o mito de Édipo, explicando que “o homem sente desamparo diante da sua incompletude, que Freud chamará de castração, da qual ele nunca se liberta”. Para o filho, decifrar seu lugar na vida dos pais adotivos e conhecer sua história antecedente compõem a trama de enigmas dos laços de parentesco na adoção, ajudando pais e filhos a aceitarem que o mistério e o insondável fazem parte do processo de ser filho. “Como foi o encontro com a nova família? Onde os pais o encontraram?” são questões que os filhos adotivos lançam para esses pais, e a resposta é uma forma de confirmar e legitimar a história familiar. 

Essa história deve ser conversada, criando-se um enredo sem pretensão de terminá-lo – eis a chave do enigma, o qual, paradoxalmente, segundo as autoras, nunca será decifrado em sua completude. Os pais que adotam precisam ter a sensibilidade de entender a necessidade emocional de a criança/adolescente buscar a verdade de sua origem, pois os mesmos lidam com um duplo pertencimento: “entre o passado e o futuro, entre o sujeito e o grupo familiar, entre a filiação biológica e a adotiva”. As entrevistas demonstraram que no mito de origem dessas famílias adotivas trata-se de coexistirem “dois casais parentais que fazem nascer a criança, um par no nível biológico e outro no nível subjetivo da existência“. O artigo salienta a importância de cada um dos filhos adotivos elaborar sua história e construir o seu mito de origem

Segundo o artigo, no mito de origem das famílias adotivas entrevistadas coexistem dois casais parentais que fizeram a criança nascer: um em nível biológico e outro no nível subjetivo da existência – Foto: Pixabay

O silêncio dos filhos adotivos na adolescência pode representar a dificuldade em lidar com o aspecto de “ser diferente”. Portanto, aos pais cabe escutar, pois a elaboração do sofrimento em família parece fortalecer o senso de pertencimento familiar e o laço de parentesco: “quem é meu filho?”, “por que ele é assim?” ou “que mãe ou pai sou eu?”.

O papel dos profissionais de saúde

A dupla filiação e as experiências emocionais dolorosas dos filhos adotivos levaram os pais a buscarem dos profissionais de saúde respostas para os “por quês?” Porém, perguntam as autoras: “Em que medida esse desejo de saneamento vem carregado de intolerância, podendo propiciar uma dissociação da história da criança adotiva?“. Destaca-se a tarefa parental fundamental de identificar e dar significado às demandas dos filhos relacionadas ao mito de origem, escutando-os, compreendendo-os e apoiando-os. Por fim, deve-se conceber que nem todas as dificuldades do filho adotivo podem estar relacionadas ao ato da privação biológica e ao ato da adoção, pois não se pode rotular como patológicas ou mesmo banalizar essas questões.

Artigo

MACHADO, R.; FÉRES-CARNEIRO, T.; MAGALHÃES, A.; MELLO, R. O mito de origem em famílias adotivas. Psicologia USP, São Paulo, n. 30, e160102, 2019. ISSN: 10.1590. DOI: https://doi.org/10.1590/0103-6564e160102. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/psicousp/article/view/161337. Acesso em: 03/02/2020.

Rebeca Nonato Machado – Departamento de Psicologia. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ. E-mail: recanm@gmail.com

Terezinha Féres-Carneiro – Departamento de Psicologia. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ. E-mail: teferca@puc-rio.br

Andrea Magalhães – Departamento de Psicologia. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ. E-mail: andreasm@puc-rio.br

Renata Mello – Departamento de Psicologia. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

Margareth Artur / Portal de Revistas USP / Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica (Aguia)


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