Telepsiquiatria pode ser tão eficaz quanto as consultas presenciais

Wagner Farid Gattaz avalia que o tratamento a distância não exclui totalmente o contato pessoal entre médico e paciente

jorusp

Pesquisas realizadas por 12 meses revelam que, em São Paulo, 20% da população apresentou quadros de transtorno de ansiedade e 11% de depressão, mas 53% dos adultos com transtornos mentais agudos ainda não recebem tratamento. A falta de assistência é ainda maior em outras regiões do País e é motivada, principalmente, por dificuldades logísticas, como o tempo gasto em transporte. Nesse sentido, o desenvolvimento de novas tecnologias móveis pode facilitar o atendimento, como na telepsiquiatria. Esse tipo de tratamento é feito a distância, via internet, e sua eficácia é pesquisada por alunos do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP. O Jornal da USP no Ar conversou com Wagner Farid Gattaz, diretor do Laboratório de Neurociências do IPq, sobre o assunto.

O professor conta que os estudos sobre telepsiquiatria começaram há quatro anos no IPq, envolvendo a tese de doutorado de sua aluna, Inês Hungerbühler, e perduram até hoje. O atendimento a distância, contudo, não é algo tão recente como se pensa, segundo ele: “Eu digo que quando o primeiro médico comprou o primeiro telefone foi quando começou a telemedicina, porque passaram a existir atendimentos a distância. Com o advento da internet e de vários aplicativos, a qualidade de sons e imagens melhorou muito; portanto, hoje o que temos são condições essenciais para desenvolver esse tipo de assistência de forma positiva”.

Por enquanto, a telepsiquiatria é permitida no Brasil apenas para fins acadêmicos, e no IPq os estudos tentam validar o método. “Chegamos à conclusão de que esse tratamento funciona muito bem”, avalia Gattaz.  “Foram acompanhados 107 pacientes, na faixa etária de 35 anos, diagnosticados com depressão, durante um ano.”

Foto: Divulgação

O especialista conta que a regulamentação dessa prática ainda está acontecendo no País. “Há pouco tempo houve uma liberação das consultas a distância, mas depois decidiu-se fazer uma consulta popular em relação a isso que será concluída em breve. Em algumas áreas, como a psicologia, esse tipo de atendimento já é liberado e aprovado pelos respectivos conselhos, e também existe em tramitação no Conselho Federal de Medicina uma proposta de normatização, permitindo, por exemplo, consultas por telepsiquiatria quando do outro lado da linha também há um médico em conferência, que possa fazer a prescrição de medicamentos.”

A telepsiquiatria, no entanto, não exclui totalmente o contato pessoal entre médico e paciente, pois isso é importante, principalmente no início, quando são feitos diagnósticos e prescrições médicas. Além disso, nem todos os tipos de transtornos psiquiátricos podem ser contemplados por esse método: “O paciente precisa desejar o tratamento, e nem sempre isso é uma realidade. Por exemplo, pacientes com quadros de intoxicações agudas por drogas ou álcool, ou com surtos psicóticos agudos, não podem ser submetidos apenas ao tratamento a distância. Esses pacientes podem fazer o acompanhamento via internet apenas quando a fase aguda de seu problema já tiver sido amenizada.

Uma das principais vantagens do método é expandir o acesso à terapia, principalmente em áreas do Brasil onde há maior dificuldade em encontrar profissionais de áreas relacionadas. “Em regiões onde é difícil encontrar um psiquiatra, a telepsiquiatria tem um uso primordial, pois ela torna praticamente universal o acesso ao diagnóstico, que é o primeiro passo para um tratamento adequado. Isso contribui com a universalização dessas oportunidades, conseguindo o maior número de pessoas necessitadas possível”, explica o psiquiatra.


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