Para governar, é necessário negociar com o Congresso

Momento inicial é de incertezas, mas, segundo especialista, presidente precisará fazer concessões nas negociações

  • 3
  •  
  •  
  •  
  •  

jorusp

Nesta segunda-feira (29), o Jornal da USP no Ar fez uma edição especial, repercutindo o resultado das eleições. André Singer, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e colunista da Rádio USP,  falou sobre os desafios para Jair Bolsonaro, eleito presidente da República com quase 58 milhões de votos, na área política.

Para ele, estamos no primeiro momento de uma longa fase que se inicia de mudança política. É a primeira vitória de um candidato de extrema-direita no País e há todo um cenário novo para analisar. É importante destacar que Bolsonaro fez dois discursos; o primeiro, aparentemente mais improvisado, no qual voltou a bater em teclas da campanha. No outro discurso, escrito previamente, ele assumiu um compromisso com a democracia, com o Estado de direito e com a liberdade. Segundo Singer, é necessário garantir que o segundo discurso prevaleça, pois a Constituição é resultado do esforço de duas décadas, devendo ser preservada nesse período.

Foto: Divulgação/Leon Rodrigues/Secom

Sobre o processo de transição e negociação, de acordo com o especialista, estamos diante de uma incógnita, pois o estilo desempenhado pelo candidato na campanha não era negociador. Em seus discursos depois de eleito, o novo presidente reafirmou que faria um governo “mais autônomo” em relação a partidos políticos. Entretanto, para o professor, é impossível governar democraticamente sem negociar com o Congresso e com os partidos lá representados. O momento atual é de incerteza. Se Bolsonaro se dispuser a negociar, há chances de conseguir uma maioria, mas terá de fazer concessões.

“O alvo preferencial é o centrão”, afirma. Esse agrupamento relativamente amplo de parlamentares tem interesses específicos e bases que precisam de benefícios, com um viés clientelista de favorecer suas bases específicas. “O centrão é sempre mais aberto a negociar com qualquer governo que venha a assumir e acredito que haverá também disposição para negociar com o novo governo”, explica.

O especialista comenta ainda o que esperar da oposição. Os partidos do “campo da esquerda” somam em torno de 30% das Câmaras dos deputados. “Essa oposição, neste momento, será obrigatoriamente forte, porque o candidato vitorioso fez muitas ameaças no primeiro turno”, afirma o professor. Portanto, o primeiro momento é de uma oposição forte que procura se contrapor a esse clima de ameaça. “Com o passar do tempo, pode-se ter uma amenização desse clima tão hostil com o qual se encerrou a campanha. Isso vai depender do encaminhamento que Bolsonaro vai dar à sua conduta nos próximos dias”, finaliza Singer.

  • 3
  •  
  •  
  •  
  •  

Textos relacionados