Mudança na postura jornalística pode ser justificável em certos casos

Carlos Eduardo Lins da Silva refere-se à decisão de emissoras de TV americana, que optaram por tirar pronunciamento de Donald Trump do ar por este fazer denúncias sem comprovação durante apuração dos votos

 23/11/2020 - Publicado há 1 ano
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Durante a apuração dos votos da eleição presidencial dos Estados Unidos, Donald Trump realizava um pronunciamento em que acusava fraude no pleito. Devido à ausência de provas que embasassem a denúncia, algumas das emissoras que transmitiam o discurso optaram por tirá-lo do ar. Em um momento histórico em que a luta contra as fake news é a tônica dos embates eleitorais, o posicionamento adotado por ABC, CBS e NBC é justificável, de acordo com Carlos Eduardo Lins da Silva, doutor e livre-docente em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP: “Em princípio, o jornalismo tem que cobrir com a maior amplitude possível todos os pronunciamentos de chefes de Estado, por uma questão de interesse público. No entanto, quando temos pessoas como Donald Trump, Jair Bolsonaro, entre outros, que fazem do cargo que ocupam uma forma de disseminação de desinformação, esse cânone do jornalismo pode ser colocado em cheque”.
O fato de que os veículos jornalísticos possuam liberdade para realizar escolhas editoriais, ou seja, optar sobre o que deve ou não ser noticiado, reforça a tese. Ainda assim, “parece que o mais adequado [para lidar com a situação] seria transmitir o discurso na íntegra, mas já ir legendando para que o espectador tivesse conhecimento de que aquelas acusações são mentirosas. Ou, melhor ainda, ir aos pontos de apuração e perguntar se as pessoas responsáveis tinham testemunhado algum tipo de fraude”, aponta Lins da Silva.
A decisão das emissoras é um demonstrativo da mudança de postura pela qual vem passando a imprensa americana. Ineficiente em combater as fake news no pleito de 2016, a cobertura das eleições evoluiu em 2020, segundo o especialista. Donald Trump recorrentemente acusou o filho do candidato JoeBiden de ter negócios escusos na Ucrânia. Contudo, os veículos do país optaram por não dar destaque à denúncia, por falta de embasamento. Em 2016, em uma situação semelhante, a postura não foi a mesma. Poucos dias antes do pleito, diversos jornais deram como destaque uma reportagem em que o então diretor do FBI (Federal Bureau of Investigation) afirmava ter elementos para reiniciar uma investigação contra a então candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton. A notícia foi veiculada, em partes, devido à pressão que havia sobre o jornalismo americano. Alguns setores acusavam a imprensa de ser muito crítica em relação a Donald Trump e pouco a Hilary. Essa decisão — de acordo com Lins da Silva ​—​ “com certeza teve influência no resultado do pleito”.

No Brasil, o último pleito presidencial também teve como tônica o combate às fake news. Além disso, o perfil do chefe de Estado brasileiro, Jair Bolsonaro, é semelhante ao de Donald Trump, inclusive em sua maneira de se relacionar com os veículos de comunicação. “A imprensa brasileira parece cair no jogo de Bolsonaro como a americana caía na de Trump” [em 2016]. Por fim, Carlos Eduardo Lins da Silva aponta um caminho para que os jornais brasileiros, assim como os norte-americanos, evoluam e possam atuar de maneira mais efetiva no pleito de 2022: “Deve haver um registro rápido nesse tipo de ocasião [declarações insultuosas de Jair Bolsonaro]. Então, a imprensa deve se concentrar nos desmandos e desvarios administrativos e nos prejuízos à nação que o governo Bolsonaro tem cometido diariamente”.


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