Imagem inédita de buraco negro comprova Teoria da Relatividade

Tecnologia utilizada no experimento pode permitir desvendar novos detalhes desses fenômenos, diz especialista

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Buraco negro supermassivo – Ilustração: Dana Berry/Nasa via Visual Hunt

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Agências espaciais da Europa e dos EUA apresentaram na manhã desta quarta-feira a primeira imagem de um buraco negro no Universo. Trata-se de uma descoberta do telescópio Event Horizon. Em outras situações, um buraco negro era retratado com imagens conceituais ou animações. Desta vez, é uma imagem real captada pelo projeto, que envolve 200 pesquisadores e oito telescópios de rádio interligados. O buraco negro fotografado foi encontrado no centro da galáxia batizada de Messier 87, ou M87, região a 500 quintilhões de quilômetros de distância da Terra ou 53 milhões de anos-luz (unidade que corresponde à distância percorrida pela luz em um ano). O que vemos na imagem é um aparente anel de fogo criado pela deformação do espaço-tempo e formado pelas ondas de luz que conseguiram escapar de serem sugadas pelo buraco.

“É um feito histórico para a humanidade. Primeiro, comprova a Teoria Geral da Relatividade. Depois, não só coloca o fenômeno no imaginário das pessoas, mas também traz avanços científicos. Se poderá medir diretamente o diâmetro do corpo, como, eventualmente, a sua velocidade de rotação”, prevê João Steiner professor do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) e colunista da Rádio USP. O cientista conta que o grau de sofisticação do experimento comandado por Katie Bouman é inédito, destacando o uso da tecnologia.

O astrofísico já se empolga com o futuro. Apesar da imagem divulgada ser a mais precisa da história da humanidade, Steiner diz que, caso coloquem os radiotelescópios no espaço, haveria um ganho significativo de qualidade. “As distâncias entre os pontos de observação e a nitidez são diretamente proporcionais. Assim, conseguiríamos, quem sabe, entender o que acontece no interior do buraco negro, hoje meras, porém muitas, especulações”, esclarece.

Embora o estudo se dê com auxílio de uma rede com mais de 50 observatórios, apenas oito foram utilizados na construção da fotografia do corpo da galáxia M87. Segundo o professor, condições climáticas, a exemplo de chuva e nuvens, atrapalham a observação. Além do que, a conformidade espacial da Terra impede que uma região seja observada ao mesmo tempo dos Estados Unidos e do Japão. Logo, a distância entre os radiotelescópios fica ainda mais limitada.

Uma grande dúvida entre a comunidade científica era qual seria o alvo da primeira imagem. O buraco negro da M87, ou o gigante da Via Láctea, a Sagittarius A*, cuja massa é 4 milhões de vezes maior que a do Sol. “Mesmo que 1.500 vezes mais leve que o corpo celeste fotografado, sua maior proximidade da terra (25.640 anos-luz) permitiria uma imagem de qualidade semelhante. No entanto, a galáxia, que abriga o sistema solar tem uma grande quantidade de gás em sua região central, dificultando a obtenção de uma foto precisa”, aponta Steiner. O cientista supõe que foram feitas imagens, mas que aguardam resultados melhores antes da divulgação.

Como os cientistas viam os buracos negros?

A fotografia não deixa mais dúvidas, mas num passado não tão distante suspeitava-se dos buracos negros. O astrofísico alemão Karl Schwarzschild, a partir da teoria de Albert Einstein, fez uma série de deduções. Uma delas, a singularidade conhecida como buraco negro. Stephen Hawking e Roger Penrose descreveram algumas das características do corpo celeste que possibilitariam sua existência. O corpo ficou na base da suposição até 1973, quando o satélite Uhuru identificou o buraco negro Cygnus X1. A partir de 95, o avanço no campo foi paulatino e, em 2002, a Sagittarius A* foi identificada. “Os céticos diminuíram, desde então. Agora, a imagem dificulta qualquer contestação”, argumenta o professor Steiner.

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