Forças Armadas têm de respeitar a vontade civil, não o contrário

Cientista político defende que Bolsonaro deveria compreender a democracia para assumir seu papel com propriedade

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Em discurso para militares, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que vai governar ao lado “daqueles que respeitam a família” e afirmou que democracia só existe se as Forças Armadas “assim o quiserem”. O presidente fez um rápido discurso na cerimônia do 211º aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio de Janeiro. Ele descreveu sua vitória nas eleições do ano passado como uma missão. “A missão será cumprida ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia. E isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”, afirmou.

“O presidente Bolsonaro apresenta uma profunda incompreensão da democracia, ao vinculá-la a uma tutela das Forças Armadas” alega o professor José Álvaro Moisés, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em entrevista ao Jornal da USP no Ar. A democracia, ao redor do globo, foi conquistada através de muitas lutas. Na maioria das vezes, levantes civis contra regimes autoritários; externos, como no caso da guerra de Independência norte-americana, ou internos, a exemplo da Revolução Francesa.

Moisés aconselha o presidente a buscar orientações de Olavo de Carvalho. Já que o influenciador de direita considera-se um filósofo, tem a obrigação de entender o pensamento democrático, seja assentado no passado ou em teorias, comenta o entrevistado. “Esses são os paradigmas básicos da democracia. São obrigações de um chefe de Estado eleito entender, fora isso, a totalidade de sua nação, possibilitando um regime em conformidade com o resto dos países que valorizam a liberdade.” Para o cientista político, desse modo, Bolsonaro não precisaria se justificar após suas declarações.

“O presidente Bolsonaro parece impressionado pela própria experiência nas Forças Armadas, apesar de breve”, argumenta o professor. Os generais que compõem o governo repetem “nós queremos respeitar a Constituição”. Eles entendem que seu poder militar é delegado pela Constituição, uma herança da luta democrática, defende Moisés. Onde se consolidou o poder do povo, Exército, Marinha e Aeronáutica são subordinados às autoridades civis eleitas. Oficiais e recrutas somente podem assumir cargos eleitorais ao entrarem na reserva.

O professor ainda fala que os esforços do presidente no intuito de inflamar sua base são vãos, enquanto ele não entender sua função como governante. Foi eleito pelo povo  brasileiro, não pelo que define como pessoas de bem. O Brasil é um país de enorme diversidade cultural, justamente sua maior riqueza, aponta o entrevistado. Essa diferença e a liberdade são os caminhos da luta pela conquista de direitos, tão comuns ao regime democrático, define Moisés.

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