Pesquisadores da USP discutem contextos da Rússia em coletânea

Lançamento on-line do livro “Russia and Russians in Different Contexts” acontece nesta quarta-feira, dia 5

Por
Soldados em Moscou durante a Revolução Russa de 1917 – Foto: Wikipédia

 

O pouco conhecimento, no Brasil, acerca da história da Rússia por vezes amplia preconceitos em relação ao país mais extenso do mundo. Seu importante papel geopolítico no cenário internacional, entretanto, assinala a relevância do estudo de suas diferentes épocas. É o que afirmam autores do livro Russia and Russians in Different Contexts (“Rússia e Russos em Diferentes Contextos”), coletânea de textos produzida por pesquisadores do Laboratório de Estudos da Ásia (LEA), ligado ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que será lançado nesta quarta-feira, dia 5, às 18 horas, em palestra virtual.

A versão on-line e gratuita da coletânea já está disponível. Esse é o segundo livro em inglês lançado pelo LEA contendo artigos de seus pesquisadores. O professor Angelo Segrillo, coordenador do LEA, diz que o objetivo é divulgar os trabalhos do grupo e da USP para fora do Brasil. 

O professor Angelo Segrillo, coordenador do Laboratório de Estudos da Ásia (LEA) da USP – Foto: Francisco Emolo/Jornal da USP

A edição traz cinco textos dos pesquisadores do Grupo de Trabalho Rússia e Ásia Central. “Como os autores se dedicam a temas variados dentro da história da Rússia, escolhemos o título Russia and Russians in Different Contexts, porque captura a diversidade explorada nos artigos”, diz Segrillo. “Todos eles são inovadores em suas áreas.”

O livro contém um amplo panorama sobre a Rússia, aspectos históricos e políticos, além de sociais, econômicos e culturais. Vicente Ferraro Jr., um dos autores da coletânea, afirma que “o leitor poderá se inteirar de tópicos relacionados à literatura russa, à Revolução de 1917, a teorias marxistas e liberais, bem como ao processo de democratização e transformações econômicas da Rússia pós-soviética”.

César Albuquerque, também autor participante, acredita que uma das virtudes do trabalho é dar visibilidade e contribuir para o fortalecimento dessa área de estudos no cenário acadêmico brasileiro e entre o público em geral. “Embora ainda pouco difundida e debatida, a temática atrai muita atenção e interesse, seja pelo fascínio, seja mesmo por curiosidade em relação à história e à cultura desse importante país”, afirma.

Contextos diversos

No texto de sua autoria, Liberalism, Marxism and Democratic Theory Revisited: Proposal of a Joint Index of Political and Economic Democracy Based On the Experience of Transition Countries (“Liberalismo, Marxismo e Teoria Democrática Revisitados: Proposta de um Índice Conjunto de Democracia Política e Econômica com base na Experiência de Países em Transição”), o professor Segrillo constata o impasse entre liberais e marxistas sobre o conceito de democracia. “Os liberais enfatizam a democracia política, e criaram vários índices quantitativos para medi-la, enquanto os marxistas enfatizam a democracia econômica (distribuição equitativa) e dizem que democracia política sem a econômica é manca. Mas nenhum marxista propôs um índice para medir isso.”

Para criar uma ponte diante do impasse, Segrillo propõe um índice triplo que mede ambas as democracias e um terceiro item, que formaria um índice compósito pela média aritmética entre os dois anteriores. A ideia, segundo ele, é “tentar criar uma linguagem mínima comum sobre como avaliar avanços e retrocessos em democracia, e estabelecer assim um diálogo entre essas duas escolas de pensamento vistas tradicionalmente como antagônicas”.

O segundo artigo, The Russian Revolutions of 1917 — A Necessary Revision (“As Revoluções Russas de 1917 — Uma Revisão Necessária”), é de autoria de Daniel Aarão Reis, professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF), que foi visitante no LEA em 2020. Segrillo contextualiza a revisão sugerida no texto: “Em vez de ver 1917 como representando uma Revolução Russa única, ele propõe que se use o conceito de ‘as Revoluções Russas’, ou seja, dois ciclos revolucionários, o democrático e o autoritário, compostos por cinco revoluções”.

Já o artigo “Good people have said that…”: The Literary Representation of French Economic and Social Theories in the Novel What Is to Be done? by Nikolay Chernyshevskii (“’Boas pessoas disseram que…’: A Representação Literária das Teorias Econômicas e Sociais Francesas no Romance O Que fazer? de Nikolay Chernyshevskii”), do pesquisador Camilo Domingues, “é bem técnico e investiga as influências de autores estrangeiros na obra de Chernyshevskii, que foi o romancista revolucionário mais influente do século 19 na Rússia”, diz Segrillo.

Em From Reformer to Spectator: Gorbachev’s Views on the Political and Economic Processes of Post-Soviet Russia (“De Reformador a Espectador: Visões de Gorbachev sobre os Processos Políticos e Econômicos da Rússia Pós-Soviética”), o pesquisador César Albuquerque propõe um exercício de revisão sistemática do pensamento de Mikhail Gorbachev após o fim da URSS. “O ex-dirigente soviético, conhecido pelas reformas econômica e política que conduziu entre 1985 e 1991, tem sido objeto de estudos e debates durante o período em que ocupou a Secretaria Geral do Partido Comunista da URSS, mas poucos trabalhos se dedicam à análise das ideias desse importante personagem da história contemporânea depois de deixar o Kremlin”, explica Albuquerque. 

Mikhail Gorbachev, último líder da União Soviética – Imagem: Fotos Públicas

 

O autor parte de uma releitura de obras e manifestações públicas de Gorbachev e busca identificar pontos de ruptura e de continuidade em seu pensamento. “Eles podem contribuir não apenas para a compreensão de suas ideias mais recentes, como também apontar respostas a algumas das principais questões relacionadas ao seu papel político e intelectual nos anos em que implementou a perestroika”, destaca Albuquerque, usando o termo utilizado para designar a política de reestruturação adotada pelo líder soviético.

O pesquisador Vicente Ferraro Jr. – Foto: Arquivo pessoal

O pesquisador Vicente Ferraro Jr., autor de Democratization in Post-Socialist States: An Overview of the Literature on Political Transition in Eastern Europe and the Post-Soviet Space (“Democratização em Estados Pós-Socialistas: Uma Visão Geral da Literatura sobre Transição Política na Europa Oriental e no Espaço Pós-Soviético”), aborda as principais características e desafios da transição política em países socialistas após a queda do Muro de Berlim. “Apresento as especificidades que diferenciaram o processo de democratização nesses países em relação a outras regiões do globo. Também comparo as transformações políticas que ocorreram em ex-países socialistas do Leste Europeu e da ex-União Soviética”, afirma Ferraro. Ele ressalta que, diferentemente do Brasil, que passou somente por uma transição política, tais países conduziram simultaneamente uma transição econômica e, em alguns casos, identitária-territorial. “Esses diferentes tabuleiros de transformações impactaram uns aos outros e tornaram o processo muito mais complexo.”

O assunto é relevante, segundo Ferraro, porque atualmente ocorre um processo de erosão democrática em diversas regiões do mundo. “A discussão sobre teorias da democratização está ganhando destaque e relevância novamente.” Além disso, o conflito geopolítico em que a Rússia e os países do Leste Europeu estão envolvidos é cada vez mais notório. “Analisar o processo de transição pelo qual esses países passaram após o fim do socialismo é fundamental para entender tanto as dimensões atuais da política interna quanto os seus posicionamentos geopolíticos”, completa o pesquisador.

Por que entender a história russa?

Para o professor Angelo Segrillo, a Rússia, atualmente ou no passado, “é um país que tem grande influência histórica no mundo, mas muitos detalhes não são conhecidos, ou mesmo estudados, no Brasil. Por isso acreditamos que é importante preencher essa lacuna”.

O pesquisador César Albuquerque – Foto: Arquivo pessoal

César Albuquerque pensa que esses estudos ainda são pouco difundidos no Brasil pela distância geográfica e cultural. “No entanto, a Rússia é um país de tradições históricas e culturais riquíssimas, que influenciaram profundamente os rumos políticos, econômicos e culturais em todo o mundo. Se olharmos atentamente, as trajetórias russa e brasileira não estão tão distantes assim.” Segundo ele, a compreensão da história do Brasil no século 20 se relaciona aos processos iniciados com a Revolução Russa. 

Esse conhecimento deficitário também contribui para que sejam difundidos mitos e visões distorcidas sobre a realidade russa, o que reforça preconceitos e hostilidades, continua o pesquisador. “Como afirma o próprio Gorbachev, os países do Ocidente — e nesse caso, poderíamos incluir também o Brasil — parecem ter ainda muita dificuldade em compreender a Rússia, o que resulta na permanência da atmosfera de tensão que mesmo com o fim da Guerra Fria insiste em dividir o mundo entre lados opostos”, completa Albuquerque.

O lançamento do livro Russia and Russians in Different Contexts acontece nesta quarta-feira, dia 5, às 18 horas, neste link. A versão on-line e gratuita do livro já está disponível. A edição impressa será disponibilizada no lançamento. Os livros anteriores (em português e em inglês) do LEA sobre Rússia e Ásia podem ser acessados no site do Laboratório.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.