Doação de órgãos e tecidos para transplantes cai com pandemia

Pessoas que morreram com a covid-19 ou com suspeita da doença não podem ter nenhum órgão ou tecido doados

A importância da doação de órgãos se dá única e exclusivamente por salvar vidas. Mas, com a pandemia, as doações têm caído. Para se ter uma ideia, entre janeiro e março deste ano foram registrados 2.282 transplantes de órgãos e 3.409 transplantes de tecidos. O cenário apresenta redução de 10% no número de doadores de 1º de março a 18 de abril e uma baixa em torno de 20% na efetivação de transplantes em relação ao mesmo período do ano passado. Os dados são da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO).

Um dos motivos para a baixa na doação de órgãos é o fato de indivíduos contaminados com o sars-cov-2, o vírus que causa a covid-19, não poderem doar pelos riscos que oferecem ao receptor. Sendo assim, todos os potenciais doadores precisam passar por exame para detectar a presença do novo coronavírus, segundo norma da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo alinhada com o Sistema Nacional de Transplantes (SNT). Pessoas que morreram com a covid-19 ou com suspeita da doença também não podem ter nenhum órgão ou tecido doados.

O médico intensivista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP) da USP, Marcelo Bonvento, acaba de assumir a coordenadoria da Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Departamento Regional de Saúde (DRS) em Ribeirão Preto. Ele explica que a pandemia traz ao País desafios à doação de órgãos, que está sendo mantida mesmo neste período de crise na saúde.

“Os médicos ligados aos transplantes estão trabalhando. Estamos fazendo a avaliação dos nossos pacientes, garantindo a adequada manutenção dos órgãos e viabilizando os transplantes, mesmo com a pandemia. Mas, sem dúvida nenhuma, houve redução do número de órgãos e tecidos para transplantes”, afirma Bonvento.

Mas há outros problemas que impactam na doação de órgãos. Bonvento aponta a diminuição no número de leitos de isolamento devido ao avanço da pandemia da covid-19. Para o especialista, esse é um empecilho logístico que também leva à redução do número de transplantes.

Além disso, outro fator que dificulta a doação, e que é sempre presente, é a recusa familiar na doação de órgãos ou tecidos de seus entes queridos. No Brasil, a doação só é possível com a autorização familiar. Por isso, é necessário que o indivíduo interessado em ser um doador comunique os familiares seu desejo, uma exigência da lei brasileira. A logística de transporte de órgãos também é empecilho às doações, lembra o médico.

“Na nossa regional de saúde de Ribeirão Preto tivemos, em 2020, 71 potenciais doadores identificados. Desses, nós conseguimos efetivar o transplante em 30% dos pacientes. Cerca de 40% dos pacientes apresentaram contraindicações médicas à doação. Em 13% dos casos houve recusa familiar e, em 18%, os pacientes apresentaram a parada do coração, o que inviabilizou a doação”, explica.

O Brasil tem o maior sistema público de saúde do mundo em transplantes. Segundo a ABTO, de janeiro de 2010 a março de 2020, foi registrado um número absoluto de 81.259 transplantes. Em 2019, o Brasil alcançou a marca de 3.768 doadores efetivos, registrando 14.943 transplantes de córnea, que assumiu a liderança de órgão mais transplantado.

Mais informações sobre doação de órgãos e tecidos para transplantes estão disponíveis no site da ABTO, www.abto.org.br.

(Informações atualizadas em 22.06)

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