Ansiedade no isolamento social faz aumentar vendas pela internet

Cristiane Baes, explica que o ato de comprar pode levar à liberação de hormônios relacionados ao prazer, mas alerta para os excessos que podem levar a uma bola de neve de problemas

Foto: Mediamodifier/Pixabay

 

O isolamento social gera ansiedade e angústia, o que leva as pessoas a buscarem soluções para aliviar as tensões. Ir às compras é uma delas. Como não podem sair de casa, compram pela internet. O número de compras on-line no Brasil aumentou mais de 98% durante a pandemia do novo coronavírus, elevando o faturamento das empresas em mais de 81%, na modalidade on-line, comparado ao mesmo período do ano passado.  Os dados são do Comitê de Métricas da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, em parceria com o Movimento Compre e Confie, e mostram a nova realidade dos brasileiros.  

Apesar da crise financeira que muitos vivem, “comprar produtos pela internet tem sido uma forma de distração e de combate à ansiedade durante este período”, garante a psiquiatra Cristiane Baes, do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. 

Cristiane explica que “o ato de comprar pode levar à liberação de hormônios relacionados ao prazer e, portanto, geram um bem-estar ao indivíduo”. Diz que, enquanto alguns fazem atividade física, arrumam a casa, leem, estudam ou meditam, “muitos descobriram o alívio da ansiedade e das angústias nas compras. Sem contar que, atualmente, passa a ser uma distração para o tédio, já que não podemos sair de casa”.

No entanto, a médica ressalta a importância de ficar atento e se questionar sobre a real necessidade da compra a ser feita. Para que não se perca em excessos de compras on-line, o indivíduo deve “se perguntar se realmente está precisando do produto que está comprando”. Assim evita um problema psicológico maior e, ainda, problemas financeiros que podem se agravar com parcelamentos do cartão de crédito.

A compulsão por compras pode representar indício de algum problema de saúde mental, diz a médica. Cristiane alerta para o consumo desenfreado e outras doenças psiquiátricas, como dependências químicas, jogo ou até comida. E que, além disso, “esse sintoma pode estar mascarando outros transtornos psiquiátricos, como depressão ou um quadro grave de ansiedade”. 

A médica aconselha as pessoas a se “atentarem ao número de compras; se está havendo um excesso, um consumo desenfreado e se isso já virou uma obsessão”. Para ela é importante verificar se esse excesso afetou a vida financeira da pessoa, levando ao endividamento. “O consumo excessivo e compulsivo costuma levar a uma bola de neve de problemas. Começa com a destruição das finanças pessoais do indivíduo e desequilíbrios na vida pessoal, familiar e até profissional.” 

E todo o cuidado é pouco diante do bombardeamento de propagandas on-line. E essa atenção redobrada também pode ser usada como um exercício de autocontrole. “Isso é o marketing. É assim que funciona a economia. Cabe a nós termos crítica, controlarmos nossos gastos e nos perguntarmos antes de comprar se realmente precisamos do que estamos comprando”, conclui.

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