Uma geração de renda campeã no Brasil

Marcos Fava Neves é professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP (favaneves@gmail.com)

Por - Editorias: Artigos
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Marcos Fava Neves – Foto: Arquivo pessoal
Entre os nossos compradores de 2017 destaca-se a China, que representou 27,7%, seguida da União Europeia com 17,7%, EUA com 7%, Japão e Hong Kong com aproximadamente 2,5% cada. Os cinco maiores compradores representam quase 60% do total e os cinco maiores produtos (soja, carnes, cana, florestais e café) trazem quase 80% do total. Nas duas últimas décadas, onde boa parte do Brasil teve dificuldade no nosso principal objetivo, que é a geração de renda, o agro mostrou ser uma máquina azeitada de criação de recursos à nossa sociedade. Fechados os números de 2017, vale refletir sobre eles. As exportações do agronegócio foram de US$ 96 bilhões, 13% acima de 2016, e retirando-se as importações de US$ 14,1 bilhões, o agro deixou um superávit 14,8% maior, de US$ 81,8 bilhões. Representou 44,1% de todas as exportações brasileiras. Um setor exporta quase metade do Brasil, e sem o agro teriamos um déficit de US$ 15 bilhões na balança comercial. Nos últimos 20 anos, as exportações acumuladas do agro brasileiro atingiram incríveis US$ 1,23 trilhão, ou a valores de hoje, podemos estimar entre 5 e 10 trilhões de reais o montante que entrou pelos nossos portos e subiu até as fronteiras com os países andinos, movimentando a economia e permitindo distribuição de renda e inclusão.

Uma análise do desempenho dos principais produtos mostra que tivemos salto de 24,8% no complexo soja, que trouxe ao Brasil US$ 31,7 bilhões, puxado pelas exportações recordes de soja em grãos (subindo 33%, para US$ 25,7 bilhões) e o milho não ficou atrás, subindo 25% e alcançando US$ 4,5 bilhões. As carnes tiveram performance impressionante, quando se considera o pesadelo criado internamente pela desastrada operação Carne Fraca, e cresceram praticamente 9%, nos trazendo US$ 15,4 bilhões. Dentro destas, o frango cresceu 5,5% (US$ 7,1 bilhões), a carne bovina 13,7% (US$ 6 bilhões) e suínos 9,7% (US$ 1,6 bilhão, recorde do setor). A cadeia da cana também teve crescimento de 7,8%, para US$ 12,2 bilhões e bom desempenho nos produtos florestais e café, entre outros.

Esta máquina de geração de renda não se dá somente pelas exportações, pois parte importante da produção fica no mercado interno, também gerando renda com a transformação de sementes, fertilizantes, defensivos e trabalho em produtos finais. De acordo com o MAPA, o valor bruto da produção (VBP) agropecuária em 2017 deve fechar com quase R$ 540 bilhões, 1,87% maior do que o valor de 2016. Os quase 240 milhões de toneladas de grãos produzidas (28% acima do ano anterior), somados às carnes, às frutas, sucos, café, biocombustíveis, bioeletricidade, entre outros, contribuíram fortemente para o impressionante recuo da inflação no Brasil e consequentemente para a queda na taxa de juros, beneficiando nossa população e sendo um dos principais responsáveis por trazer o crescimento de volta ao Brasil.

A análise do ano de 2017 é positiva para o valor das commodities alimentares (índice da FAO), que cresceram 8,2% no ano, sendo o maior valor desde 2014. As carnes subiram 9%, os lácteos 31,5%, os óleos vegetais 3% e os cereais 3,2%. Além do açúcar, que tombou 11,2% em 2017, o ano não foi muito bom em preços para o café (queda de 13%) e para o suco de laranja (queda de 25%) mas ambos tiveram grandes crescimentos em 2016 e permanecem hoje em bom patamar. O algodão teve mais de 6% de aumento, a soja termina o ano com preços 4,5% menores e o milho 0,56% abaixo. No geral foram preços razoáveis para a grande produção desta máquina brasileira.

Esta geração de renda é fruto de um grande conjunto de fatores e mensurável. Analisando dados das duas últimas décadas (FGV), o professor José Roberto Mendonça de Barros mostra que a produtividade do trabalho cresceu apenas 0,9% ao ano. O setor de serviços (73,2% do PIB) teve produtividade crescendo somente 0,3% ao ano,  a indústria (21,2% do PIB) teve sua produtividade caindo 0,8% ao ano e a agricultura/pecuária (5,5% do PIB) teve crescimento de produtividade de 5,4% ao ano. Duas décadas crescendo mais de 5% ao ano, vencendo com produtividade os problemas que a máquina geradora de caixa enfrenta fora da porteira, que só cresceram no período, desperdiçando parte desta renda.

As carnes tiveram performance impressionante, quando se considera o pesadelo criado internamente pela desastrada operação Carne Fraca, e cresceram praticamente 9%, nos trazendo US$ 15,4 bilhões.

E o que esperar do futuro? Olhamos primeiro para o curto prazo e na sequência para as oportunidades de longo prazo. No Brasil, o Relatório Focus do Banco Central estima o PIB em 2018 crescendo 2,70% e em 2019 outros 2,80%. A inflação fica em 3,95% em 2018 e 4,25% em 2019, a taxa de juros seria de 6,75% em dezembro de 2018 e em 8,00% em 2019 e finalmente, o câmbio em R$/US$ 3,35 (dez/2018) e R$/US$ 3,40 (dez/2019). Este crescimento do nosso PIB, após um período sombrio, deve favorecer o agronegócio pela volta do consumo no mercado interno, puxando vendas de carnes e lácteos principalmente, e com isto os grãos para fazer as rações usadas nestas produções. Outros produtos também devem ter mercados crescentes, gerando oportunidades. Vale um exemplo empresarial: em recente entrevista, o CEO da Cacau Show, um caso de sucesso de fabricante e varejista de chocolates que já tem 2.121 lojas no Brasil, abriu 69 lojas em 2017 e pretende abrir 200 lojas em 2018, além de ampliar a rede de revendedores de 30 mil para 45 mil pessoas no ano, abrindo 15 mil oportunidades, com a volta do consumo de chocolates e confeitos.

No lado mundial são boas também as perspectivas, pois teremos pelo menos dois anos de economia mais aquecida e consumidora. Espera-se com os recentes estímulos que os EUA cresçam 3%, contra a expectativa anterior de 2,3%. Também se acredita em estímulo fiscal e maior crescimento na Europa, o índice de confiança atingiu o maior valor em 17 anos o desemprego já é o menor desde 2008. Japão crescendo mais, China deve manter em 6,5% o crescimento, da mesma forma que a Índia segue bem e outros países da Ásia. Isto tudo se traduz num crescimento mundial esperado de 4% em 2018, com impactos positivos ao agro e ao Brasil, pois cresce da demanda mundial de alimentos, e se a produção não responder a este crescimento, teremos alguma reação de preços das commodities em 2018, como a FAO já trouxe em 2017.

Devem entrar no nosso planejamento os riscos para este cenário mais favorável, que seriam, entre outros, o problema da Coreia do Norte e algum fato comercial entre EUA e China, que neste caso beneficiaria o agro brasileiro, lembrando que os EUA são nossos competidores neste grande mercado chinês, caso haja retaliações. Se este crescimento mundial trouxer mais inflação, é de se esperar aumento de juros no mundo, e o impacto aí é negativo ao Brasil pela fuga de capitais, mas favorável ao agro pela desvalorização do real, apesar do custo mais elevado do dinheiro às nossas cadeias produtivas. Este crescimento também dá força ao preço do petróleo, que beneficia o etanol e por consequência o açúcar, o biodiesel e outros, apesar do aumento dos custos de fretes. Portanto teremos bons momentos no curto prazo na economia brasileira e mundial e a máquina geradora de renda do agro terá boas oportunidades para continuar seu desempenho.

E para o longo prazo do agro?  Somos produtores de comida, e o mundo segue crescendo e precisando deste produto. O Outlook Fiesp – Projeções para o Agronegócio Brasileiro 2027 trouxe importantes projeções, a saber: na soja em 10 anos teremos aumentos de 17% na área (39,7 milhões de hectares), 8% na produtividade (3,6 toneladas por hectare) e 27% no total produzido (144,4 milhões de toneladas), levando as exportações para quase 90 milhões de toneladas (43% acima). No milho teremos aumentos de 10% na área (19,3 milhões de hectares), 10% na produtividade (6,1 toneladas por hectare) e 20% no total produzido (117,7 milhões de toneladas), levando as exportações para 53 milhões de toneladas (75% acima).

E para o longo prazo do agro? Somos produtores de comida, e o mundo segue crescendo e precisando deste produto.

Nas proteínas animais também são boas as projeções e a carne bovina deve crescer 21% no total produzido (11,2 milhões de toneladas), 53% nas exportações (2 milhões de toneladas) e 14% no consumo interno, atingindo 8,7 milhões de toneladas. A carne de frango cresce 23% no total produzido (15,8 milhões de toneladas), 31% nas exportações (5,7 milhões de toneladas) e 19% no consumo interno, atingindo 10,7 milhões de toneladas. Na carne suína, os saltos projetados são ainda maiores – o da demanda doméstica chega a 27%, para 3,6 milhões de toneladas.

Concluindo, a “agro-máquina geradora de renda” teve um desempenho notável em 2017, contribuindo muito com nossa sociedade e tem tudo para ir muito bem nos próximos anos, pelos cenários colocados. Importantes reformas foram aprovadas em 2017 que permitirão melhorar o desempenho desta máquina, destacando as de limitação do tamanho do Estado (gasto público), das terceirizações, trabalhista, entre outras.

Mas para esta máquina avançar mais fortemente na geração de renda, o foco do setor privado é adotar os pacotes tecnológicos e melhorar sempre a gestão e o aparelho gestor público deve ter foco em reduzir cada vez mais seu peso e aprovar mais reformas que permitam reduzir os crescentes custos totais da produção, ligados à infraestrutura (projetos de concessões e privatizações), redução do problema previdenciário, agilidade e eficiência do Judiciário, simplificação fiscal/tributária, aumento do crédito, seguro, financiamento, facilitar os processos de expansão da atividade agrícola (licenças, outorgas, autorizações) e redução da assustadora criminalidade no campo, entre outros.

Com isto o governo, ao remover entraves, facilitará a competitividade nos próximos anos e criará mais combustível para esta máquina geradora de renda. Bons governos estimulam a geração de renda, pois com isto seus orçamentos permitem criar, ampliar e melhorar programas de distribuição de renda. O caminho contrário à sociedade brasileira viu nos últimos anos que não funciona e vem pagando alto preço por isto, com desemprego, exclusão e menos distribuição de renda. Máquina do agronegócio, siga firme gerando renda no Brasil, precisamos disso para melhorar nossa sociedade gerando mais oportunidades às pessoas.

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