Séries e filmes para entender a dimensão econômica que levou às mortes de Floyd e Miguel

Por Mônica Ribeiro e Ribeiro, graduada em Jornalismo e mestranda em Antropologia na FFLCH/USP

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Mônica Ribeiro e Ribeiro – Foto: Arquivo pessoal
A precariedade das relações de trabalho doméstico, que fazem parte dos resquícios da escravidão, dá o tom à tragédia mais recente envolvendo uma criança negra no Brasil. Como a Folha de S. Paulo noticiou, Sari Côrte Real, uma mulher branca e casada com o prefeito do município pernambucano de Tamandaré, levou o menino Miguel, de cinco anos, até o elevador porque a criança chorava de desespero por estar longe da mãe em um ambiente estranho. Ao deixar o elevador, a criança caiu de uma altura de 35 metros após subir em uma caixa que continha condensadores de aparelhos de ar-condicionado.

Indiciada por homicídio culposo por negligência de incapaz, Côrte Real pagou fiança de R$ 20 mil e foi liberada.

Mãe do garoto, a empregada doméstica Mirtes Renata Souza o levou com ela para o trabalho, em plena pandemia de covid-19, por não ter com quem deixá-lo – mesmo com a informação de que o patrão, Sérgio Hacker, estava com suspeita de coronavírus.

Embora particular, o episódio é um reflexo de um Brasil colonial que ainda hoje teima em se desenvolver calcado pela desigualdade. Em Racismo estrutural, Silvio Almeida traz um pouco de luz às nossas relações de trabalho. O autor faz uma abordagem socioeconômica do racismo no mercado de trabalho, trazendo para o debate reflexões sobre desemprego e disparidade salarial que afetam pessoas negras, sobretudo mulheres.

Em sua narrativa, Almeida faz uma abordagem sobre a dicotomia entre classe e raça e exemplifica que as minorias são alocadas no que ele sublinha como trabalhos improdutivos, que são essenciais mas desvalorizados por não produzirem mais-valia. Segundo ele, “as babás e empregadas domésticas, em geral negras que, vestidas de branco, criam os herdeiros do capital, são diariamente vítimas de assédio moral, da violência doméstica e do abandono, recebem o pior tratamento nos sistemas ‘universais’ de saúde e suportam, proporcionalmente, a mais pesada tributação”.

A saga das mulheres negras em geral, principalmente as que estão em situação de maior vulnerabilidade econômica, pode ser observada em sua relação com os espaços públicos e a cidade. Historicamente, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife passaram por processos de higienização social em suas regiões centrais – vide a belle époque tupiniquim que perdurou do fim no Império até a Primeira República.

O remodelamento urbano inspirado pelo francês George-Eugène Haussmann, que revolucionou a urbanização de Paris no século XIX, tinha como principal meta promover o afastamento dos ditos indesejáveis – pretos, mulatos e mestiços.

Em seu artigo “Mulheres negras, movimentos sociais e direito à cidade – uma perspectiva para as políticas públicas”, a historiadora Jéssica Mara Raul traz à tona esse histórico de segregação territorial a partir da visão de uma cidade-mercadoria, que barra o acesso à moradia e impacta a vida daquelas que são chefes de família, que, de acordo com a definição da antropóloga Lélia Gonzalez, citada pela autora, é a “mulher negra anônima” responsável, sobretudo, pelo sustento econômico dos seus.

Mas, se o leitor quer um filme, e não um livro, essa mesma relação precária da população negra com a questão de moradia é abordada pelo longa The Banker (George Nolfi, 2019), aqui num contexto norte-americano.

A história baseada em fatos reais conta a saga dos investidores negros Bernard Garret (Anthony Mackie) e Joe Morris (Samuel L. Jackson), que compram um banco para ajudar a comunidade negra a obter linhas de financiamento imobiliário no sulista e racista Texas – isso em plena década de 1960, no auge dos movimentos por direitos civis.

Assim como em O infiltrado na Klan (Spike Lee, 2018), os personagens contam com o apoio de um laranja, na ocasião o branco pobre Matt Steiner (Nicholas Hoult), que se passa por um investidor. Entre prisões, perseguições do FBI e embates com o Congresso Nacional, a atuação da dupla, principalmente a de Garret, foi determinante para a criação da Lei de Habitação Justa (1968), que tornou ilegal a recusa de venda ou aluguel de imóveis em razão da cor, raça, sexo ou religião.

Se a ideia é mergulhar numa minissérie, as estratégias de sobrevivência da população negra ante o racismo e as barreiras na economia do cotidiano impostas por ele também são retratadas em A vida e a história da Madame C.J. Walker” (Nicole Asher, 2020). Disponível na plataforma de streaming Netflix, a minissérie também é baseada numa história verídica. A primeira milionária negra estadunidense, Madame C.J. Walker/Sara Breedlove, fez sucesso entre a comunidade negra, no início do século XX, após criar um produto para cabelos crespos, com o intuito de deixar a vida precária de lavadeira e vislumbrar um novo destino.

A empreitada da personagem interpretada por Octavia Spencer, ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Vidas cruzadas (Tate Taylor, 2012), foi feita num período não muito distante de pós-escravidão nos EUA.

Os tentáculos do racismo encontrados em todos os cantos onde a diáspora negra se faz presente obrigam a população negra a desenvolver tecnologias de sobrevivência, sobretudo no campo socioeconômico.

Se o leitor busca entender um pouco melhor o que nos faz reproduzir o racismo que levou ao assassinato do americano George Floyd e à morte do menino brasileiro Miguel, e como é a dimensão econômica desse fenômeno, vale a penar encarar as sugestões a seguir.

Para entender a dimensão econômica do racismo

Minissérie

A vida e a história da Madame C.J. Walker

Direção: Nicole Asher, 2020 (Netflix)

Baseada na história real da primeira milionária negra dos EUA, Madame C.J. Walker, que fez sucesso no início do século XX por desenvolver um produto para cabelos crespos. O insight veio depois de ter tido problemas com produtos inadequados.

Filme

The banker

Direção: George Nolfi, 2019 (Apple TV+)

Também inspirado em história real, retrata os empresários negros Bernard Garret (Anthony Mackie) e Joe Morris (Samuel L. Jackson), que sonham em criar um banco para ajudar a comunidade negra a obter linhas de financiamento nos anos 1960.

Livro

Racismo estrutural

Autor: Silvio Almeida, 2019 (Editora Pólen)

Parte da série Feminismos plurais, coordenada por Djamila Ribeiro, o livro faz abordagem socioeconômica do racismo no mercado de trabalho, trazendo para o debate reflexões sobre desemprego e disparidade salarial que afetam pessoas negras, sobretudo mulheres.

Artigo

Mulheres negras, movimentos sociais e direito à cidade – uma perspectiva para as políticas públicas

Autora: Jéssica Mara Raul (Cefet/RJ), revista e-Metropolis, n. 22, set./2015

Faz uma abordagem interseccional sobre o mercado imobiliário no Rio de Janeiro, com uma deixa sobre a gentrificação e como isso afeta as mulheres negras. ​

 

(Texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 06/06/2020)

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