Por que não precisamos de um prêmio para o “melhor professor do mundo”?

Jaime Cordeiro – Foto: Reprodução /arquivo pessoal via Facebook

 

 

Em março soubemos que o professor queniano Peter Tabichi receberia o Global Teacher Prize, que há nove anos vem premiando um professor ou professora que tenha se destacado na melhoria das condições de educação dos seus alunos. O prêmio é concedido pela Fundação Varkey, instituição de caridade internacional que busca incentivar a melhoria da educação para crianças carentes e elevar o status da profissão e o respeito aos professores. Na cerimônia anual, o homenageado recebe um troféu e a quantia de 1 milhão de dólares.

O prêmio foi criado por Sunny Varkey, empresário indiano do setor de educação que reside nos Emirados Árabes Unidos. Desde 2015 ele aderiu ao The Giving Pledge, uma iniciativa que estimula pessoas muito ricas a doarem pelo menos metade da sua fortuna para causas filantrópicas durante o seu tempo de vida. Como nas três últimas edições sempre houve brasileiros indicados como finalistas, o prêmio passou a receber destaque na mídia em geral por aqui, sendo tratado como uma espécie de “Nobel da Educação”.

Vencedor da edição de 2019, Peter Tabichi nasceu e trabalha no Quênia, lecionando numa escola muito pobre e carente de infraestrutura, no vilarejo de Pwani. Seus alunos são quase todos de famílias muito necessitadas e muitos são órfãos pelo menos de um dos pais. O professor promove uma série de iniciativas para manter seus alunos interessados no ensino e estimular entre eles o gosto pelo aprendizado de ciências. Seus estudantes têm sido bem-sucedidos em competições científicas nacionais e internacionais.

Pode-se afirmar que o professor Tabichi é digno de admiração, sem nem mesmo examinarmos as condições de ensino de fato bastante precárias que ele tem que enfrentar, a exemplo de muitos outros professores e escolas em todos os países pobres do mundo. No entanto, ao se conhecerem alguns detalhes da vida e do cotidiano desse professor, logo surgem preocupações. As matérias que noticiam o prêmio informam que Tabichi, membro da ordem religiosa franciscana, doa 80% do seu salário como professor para apoiar os estudos dos seus alunos na escola secundária em que leciona. As classes em que dá aula chegam a abrigar 70 ou 80 estudantes e muitos dos seus alunos andam até 6 km para chegar à escola. O professor se desdobra em múltiplas atividades para conseguir obter o material que utiliza nas suas aulas, já que ele não é fornecido pelo governo.

O objetivo proclamado do prêmio é o de ajudar a elevar o status da profissão docente e o respeito da sociedade pelos professores. Ora, apesar dos méritos do trabalho realizado por Peter Tabichi no Quênia, certamente ele não pode servir como modelo para os seus colegas no mundo todo. O esforço dos movimentos dos profissionais da educação ao longo de décadas, fora e dentro do Brasil, vem sendo feito no sentido de caracterizar a docência como uma profissão, que deve ser exercida por pessoas com a melhor formação teórica e prática e que deve ser bem remunerada e realizada em escolas dotadas de condições adequadas de infraestrutura e de ambiente de trabalho.

No entanto, em termos simbólicos, parece que a ideia da professora ou do professor missionário, abnegado, que trabalha apenas por amor à infância e à juventude, continua prevalecendo. E eventos como a entrega do título de “melhor professor do mundo”, tal como se expressou na edição deste ano do Global Teacher Prize, contribuem apenas para o reforço dessa imagem pública da profissão, que ainda carrega a herança da sua origem histórica, já que os professores são uma espécie de descendentes dos sacerdotes.

A exemplo de outros momentos e de outras lutas da categoria, os professores e as professoras da rede pública municipal da cidade de São Paulo iniciaram o ano letivo de 2019 realizando uma greve que se estendeu por muitos dias. Nesse caso, o protesto era contra a reforma no sistema de aposentadoria dos servidores públicos municipais, que implicou o aumento das alíquotas de contribuição para a previdência e acarretou, na prática, uma sensível diminuição da remuneração mensal. Em outros momentos, as queixas, os protestos e as manifestações dos professores têm sido pela justa remuneração, pelo cumprimento do piso salarial mínimo estabelecido em lei federal, por melhores condições de trabalho.

Além disso, vê-se no ambiente político atual no Brasil um clima de desconfiança e mesmo de perseguição de parte da sociedade em relação à profissão docente, cada vez mais ameaçada na sua liberdade de ensinar e desqualificada sucessivas vezes na fala dos agentes públicos, como uma categoria que ora é criticada por ser mal-formada, ora por ter uma atuação diretamente político-ideológica e doutrinadora. Por todo lado, a profissão docente vem sendo cercada. E esse cerco se dá também, no Brasil, em relação à atuação e ao papel da escola pública.

Mais do que escolher e louvar o “melhor professor do mundo”, a sociedade brasileira precisa se engajar coletivamente num projeto de valorização da escola pública, preservando os imensos ganhos que acumulamos nas últimas décadas e efetivando os propósitos já estabelecidos no Plano Nacional de Educação, documento que determina diretrizes, metas e estratégias para a política educacional no período de 2014 a 2024. Podemos ter críticas a esse plano, mas é preciso reconhecer que ele é o resultado de um longo processo de negociação coletiva, que passou por diversas instâncias da sociedade brasileira e que consolidou a sua legitimidade ao ser votado no Congresso Nacional e sancionado pela Presidência da República.

Não precisamos premiar o “melhor professor do mundo”. Mas precisamos, sim, que professores e professoras das escolas públicas do País sejam valorizados e respeitados, recebam condições dignas de remuneração e de trabalho e sejam ouvidos como trabalhadores preparados e capazes de bem realizar o seu trabalho. Que não precisa ser a missão de um abnegado que tem que gastar parte do seu salário para cumpri-la.

 

 

Este post foi modificado as 20/05/2019 21:13