Origens e infância do ICB5, em Rondônia

Erney Plessmann de Camargo é professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP

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Erney Plessmann de Camargo – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

A história de Rondônia (ex-território do Guaporé, 1943-1981) foi marcada por sucessivas epidemias de malária envolvendo migrantes do Nordeste e do Caribe que foram atraídos à Amazônia pelo comércio florescente da borracha e pela construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré no início do século XX. Outro episódio epidêmico começaria no fim do século, nos anos setenta, quando o governo militar ofereceu posse de terra a migrantes, desta vez do Sul do País. Sem nenhum preparo, vivência ou cultura malárica, gaúchos, capixabas e, principalmente, paranaenses povoaram Rondônia.

A população do Estado cresceu de 100 mil habitantes para 1 milhão  (10 x) em 20 anos e o número de casos de malária subiu de 6 mil para 300 mil (5 x) casos por ano. O atendimento à saúde era precário, uma vez que o Estado não estava preparado para esse crescimento explosivo da população. Em muitos assentamentos, a situação tornou-se de absoluta calamidade, particularmente em Ariquemes, Machadinho do Oeste e mesmo Porto Velho.

Aí começa a história do ICB5 (Instituto de Ciências Biomédicas da USP), em Monte Negro, Rondônia.

Nos anos oitenta, Luiz Hildebrando Pereira da Silva era pesquisador chefe do Laboratório de Malária do Instituto Pasteur de Paris e eu havia recentemente migrado da Escola Paulista de Medicina para a chefia do Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Luiz Hildebrando e eu, ambos discípulos de Samuel Pessoa e originários do assim chamado Departamento Vermelho da Faculdade de Medicina da USP, entendemos que era parte de nossas obrigações sociais atuar de alguma forma a entender e minorar as consequências dessa nova epidemia malárica.

Procuramos nosso amigo, o professor Marcos Boulos, que já atuava em Rondônia, para nos pôr a par da situação e nos apresentar aos serviços e alguns profissionais de saúde de Rondônia. A partir daí, Luiz Hildebrando começou a vir com frequência ao Brasil e ambos passamos a visitar Rondônia com relativa assiduidade. Luiz Hildebrando progressivamente convenceu-se de que seu lugar era lá e, a meu convite, decidiu prestar concurso para Professor Titular no Departamento de Parasitologia do ICB. Luiz Hildebrando e eu começamos a submeter projetos de pesquisa a várias instituições nacionais e internacionais.

A história de Rondônia (ex-território do Guaporé, 1943-1981) foi marcada por sucessivas epidemias de malária envolvendo migrantes do Nordeste e do Caribe que foram atraídos à Amazônia pelo comércio florescente da borracha e pela construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré no início do século XX.

Conseguimos auxílios da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Organização Mundial da Saúde (OMS), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e iniciamos nossos trabalhos, após recrutarmos Marcelo Urbano Ferreira, jovem médico, hoje professor da Parasitologia do ICB, e Luís Marcelo A. Camargo, então pesquisador da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen-SP), e hoje coordenador do ICB5.

O começo foi muito difícil. Ficávamos em hotéis muito simples ou casas de conhecidos. Inicialmente, juntamente com alguns docentes da Universidade de Rondônia, pudemos documentar o caráter explosivo da malária em Candeias do Jamary, pequena vila-dormitório de caminhoneiros a caminho de Porto Velho (25 km).

Passo a passo fomos ganhando a confiança do governador, jornalista Jerônimo Santana, e do secretário da Saúde, dr. Olympio Távora Correa, que nos conseguiram um espaço para instalar nosso laboratório improvisado no Cemetron, Centro de Medicina Tropical de Rondônia. Também ocupamos o que seria o embrião do Cepem, Centro de Pesquisas em Doenças Tropicais, e que viria gradativamente a dispor de condições satisfatórias para o tipo de pesquisa que podíamos fazer.

Além disso nos associamos ao Centro de Hematologia e Hemoterapia  de Rondônia (Hemeron) que nos serviu por algum tempo de laboratório e onde o Marcelo Urbano fez sua tese de mestrado. O Luís Marcelo, por sua vez, passou a colaborar em vários projetos dos governos estadual e federal, inclusive no atendimento às tribos indígenas do Estado. Delegamos a ele também o estudo da malária em garimpos e madeireiras, sendo que nestas últimas pudemos caracterizar a malária como “doença profissional”.

Vivíamos uma vida de faroeste. A travessia não foi fácil.

Com o tempo e muito trabalho, as coisas foram melhorando e nosso relacionamento com o governo também. Sem o apoio do governo lá, não se faria nada. O secretário da Saúde, dr. Olympio, adaptou um depósito da Prefeitura  para servir de casa ao Luís Marcelo, que assim pôde levar sua família, mulher e duas filhas pequenas, para morar em Rondônia. Contamos com sucessivo apoio dos governadores Oswaldo Pianna e Valdir Raup e de secretários de Saúde, particularmente do dr. Confúcio Moura, que se tornou nosso amigo e  hoje é governador do Estado. O Luiz Hildebrando, que a esta altura já passava a maior parte de seu tempo em Porto Velho, decidiu se mudar para lá e acabou comprando uma casa razoável em um condomínio seguro.

A partir daí, a casa do Luiz Hildebrando, que se aposentou na USP, passou a ser o ponto de apoio a todos nós que viajávamos para Porto Velho. O Marcelo Urbano voltou para São Paulo, mas o Luís Marcelo optou por ficar definitivamente em Rondônia. A equipe foi aumentando com a adesão dos professores Marcello Barcinsk e Henrique Krieger, dos seus pós-graduandos e dos alunos de pós-graduação meus e do Luiz. Com o tempo constituímos uma pequena colônia uspiana em Rondônia à qual se associaram alguns médicos que haviam migrado recentemente da UnB, como Mauro Tada, Juan Salcedo, Roberto Penna  e Elza Noronha.

Vivíamos uma vida de faroeste. A travessia não foi fácil.

Tudo isso se passava em Porto Velho, quando resolvemos estender nossos estudos às regiões do Rio Madeira e afluentes. O Luís Marcelo iniciou estudos da malária em uma aldeia ribeirinha do Madeira, a vila de Portochuelo, que se tornou um épico de nossa história em Rondônia e que foi recentemente destruída em uma enchente do Rio Madeira, quando nossos amigos de lá ou morreram ou fugiram em tempo. Recentemente, com o diretor do ICB, professor Jackson C. Bittencourt, e os pró-reitores Antonio Carlos Hernandes e José Eduardo Krieger, fomos visitar Portochuelo: só ruínas.

A partir de Portochuelo, minha aluna Fabiana Alves estendeu os estudos sobre malária de populações ribeirinhas a populações isoladas do distante Rio Ji-Paraná, onde pudemos caracterizar a alta prevalência da malária assintomática, fato inesperado em termos epidemiológicos.

Esse foi, como disse acima, um período épico de descobertas e de luta antimalárica. Nosso velho mestre, Samuel Pessoa, certamente teria aprovado essa nossa incursão amazônica.

Passadas as primeiras refregas, Luís Marcelo foi convidado a organizar a Saúde do município de Monte Negro, com 13 mil habitantes à época, hoje 15 mil. Monte Negro situa-se no centro do Estado (250 km de Porto Velho), próximo de Ariquemes, que foi um dos centros da devastação malárica em Rondônia. O prefeito, Jair Mioto, nos cedeu o Posto de Saúde para instalarmos um laboratório para a USP. Passamos a centralizar nossas atividades em torno de Monte Negro, onde compramos alguns terrenos a preço de banana com recursos pessoais e fomos construindo, primeiro uma casa para o Luís Marcelo, e outra para visitantes, geralmente eu ou o Krieger.

Passadas as primeiras refregas, Luís Marcelo foi convidado a organizar a Saúde do município de Monte Negro, com 13 mil habitantes à época, hoje 15 mil.

Nessa fase inicial de Monte Negro tivemos continuado apoio de pesquisadores e dirigentes da USP. A dra. Marta Teixeira, hoje professora titular do Departamento de Parasitologia, foi a responsável por nossas instalações laboratoriais junto a Wolfgang Fischer, um de nossos técnicos. Em seguida, o professor Miguel T. Rodrigues, do Instituto de Biociências (IB), levou seus alunos para coletar sapos e lagartos nas florestas e riachos de Monte Negro. Em várias oportunidades a professora Marta também levou seus alunos às nossas bases em Monte Negro. Os professores Marcello Barcinsk e Alejandro Katzin organizaram trabalhos e cursos de pós-graduação em Monte Negro.

Em uma dessas oportunidades tivemos, inclusive, um curso de sobrevivência na selva, dado pelo Exército, para alunos da USP. Além do apoio do Departamento de Parasitologia, contamos com permanente apoio de todos os diretores do ICB: profs. Magda Maria Sales Carneiro, Henrique Krieger, Luiz Roberto G. de Britto, Rui Curi e Jackson Cioni Bittencourt. Três reitores nos visitaram: profs. Jacques Marcovitch, Adolpho José Melfi e Suely Villela.  Pesquisadores importantes desenvolveram projetos de pesquisa em MN, como a professora Aldina Barral, da Fiocruz de Salvador, e o professor Edson Durigon, da Microbiologia do ICB.

Recebemos pós-docs de diversas instituições nacionais e estrangeiras, e assim o ICB5 foi ganhando consistência. Com o tempo a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP, capitaneada pelos doutores José Roberto de Magalhães Bastos e Magali Caldana, juntou-se a nós em Monte Negro para o atendimento da população local. Mais tarde o professor Rubens Belfort de Matos Jr., da Unifesp, nos ajudou a montar um serviço de Oftalmologia com apoio via Internet.

Assim foi que amadureceram os dois polos originários da USP em Rondônia: um dirigido pelo Luiz Hildebrando em Porto Velho, outro coordenado pelo Luís Marcelo em Monte Negro. O polo Porto Velho, agora sob a direção de um doutor pela USP, Ricardo Godoi, tornou-se unidade da Fiocruz, enquanto o polo Monte Negro cresceu como unidade orçamentária da USP. Hoje os dois polos voltam a se encontrar como partícipes do INCT EpiAmo (Instituto Nacional de Epidemiologia da Amazônia Ocidental) – coordenado pelo professor Henrique Krieger.

Mas, daqui para diante, quem completa esta história é o dr. Luís Marcelo e sua equipe montenegrina.

 

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