José Saramago e a poética do desnorteio

Jean Pierre Chauvin é responsável pela disciplina A Prosa de José Saramago na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP)

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Jean Pierre Chauvin – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

A ponta, onde está[?][1]

Repara na criatura sentada ao teu lado, neste banco de pedra. Vê que ela não descola o olhar da página? O que estará a sorver? Terá sido cooptada pelo narrador? Ah, agora melhor vemos. Trata-se de um romance daquele escritor português. Como se chamava, mesmo? José… José Saramago.

Aproxima-te mais um pouco: nem custará muito, se quiseres visualizar a lombada. Daqui onde estou, parece ser A Jangada de Pedra, de 1986. Chegou quatro anos depois do Memorial e há dois após aquela pseudobiografia sobre Ricardo Reis. Ficção de ficção da ficção.

Mas, agora a pessoa se levantou. Tem uma expressão que eu diria dúbia, entre resoluta e cogitativa: bem sabemos os efeitos que Saramago costuma provocar. Cogitará retomar a vida que ficou de fora da ficção? Claro esteja, se supusermos que a vida ultrapassa o estatuto de microssistema – por definição imperfeito –, que criamos para nós mesmos.

Fizeste a soma? Que livros dele leste? Pensa no que suas narrativas fazem conosco. Repara como repõe o lugar dos que, porventura, ficaram de fora da historiografia, centrada em celebridades, tramoias e eventos, como se vê no convento, transformado em personagem-alegoria do ostentatório reinado de Dom João V.

E então terias que considerar novo limite entre o que a narrativa diz, desdiz ou esconde. Pode um heterônimo pessoano, sem data de partida de entre os vivos, embarcar do Brasil rumo a Portugal e, de volta à terra de origem, morar em um hotel, feito poeta o mais simples? Como se se tratasse de persona corporificada pela palavra. Quem dentre nós, que nem somos feitos de papel, seria capaz de condensar tamanha humanidade e sabedoria?

Pode um heterônimo pessoano, sem data de partida de entre os vivos, embarcar do Brasil rumo a Portugal e, de volta à terra de origem, morar em um hotel, feito poeta o mais simples?

Mesura, também, o salto metafórico que implica descrever uma fenda quilométrica a destacar a Península Ibérica (de súbito, exclusiva ínsula) do continente Europa – “mãe aflita”, como ironiza este outro narrador.

Eis que logo toparemos com um evangelho apócrifo, que leva o nome de um pseudo-autor, embora narrado em terceira pessoa. Discurso do que não se nomeia ou registra, feito diabo? O terceiro, à margem, o que escapa ao binário? Replicação da trindade, a desafiar o conceito uno e trino de Tomás de Aquino, no século XIII?

Logo cruzaremos com aquele cego, empastelado em meio ao trânsito de uma metrópole, que bem pode ser Lisboa, Londres, Paris, Cairo, Belém, Tóquio ou São Paulo. “O disco amarelo iluminou-se”, mas o veículo não se move. Condição do sujeito que perdeu a noção de si mesmo por não reconhecer o outro?

Repara ainda outra vez. Talvez seja nisto mesmo que o leitor, sentado ali agora mesmo, esteja a ruminar. Daí os olhos postos naquela nuvem (vês?) em aresta, sob a copa da terceira árvore que temos em frente. Aventemos ainda outra hipótese.

Quem sabe esteja a cogitar sobre a ocupação rotineira que exerce, a quilômetros daqui? Mais ou menos como funciona aquele cenário matemático, a sugerir simetria, rigor e coerção, no ambiente em que trabalha José – refiro-me àquela personagem, sabe quem, da Conservatória Geral.

Eis que me ocorre aquele diálogo tenebroso, de tão sarcástico, entre gente que, em tese, cuida das gentes: “Eminência, perdoe-me, temo não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja, Ó diabo”.[2]

Por acaso, estarás desnorteado? Será um bom presságio. Condição mais que desejável, ao deixares um livro de José Saramago. Daqui em diante, terás uma direção a perseguir. Por aí vemos que a boa literatura nos assujeita a outra rotação.

[1]     José Saramago. A Jangada de Pedra. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 16.

[2]     José Saramago. As Intermitências da Morte: Romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 18.

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