E-mail, telégrafo, WhatsApp, tambores, “telefone-sem-fio-inca”…

Marcos Câmara de Castro é professor do Departamento de Música, campus Ribeirão Preto (mcamara@usp.br)

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Marcos Câmara de Castro – Foto: Arquivo pessoal via Facebook

 

Não tenho mais assinado meus e-mails, provavelmente por influência do WhatsApp. Embora a troca de e-mails tenha se restringido ao campo profissional, seu conteúdo foi contaminado pela agilidade do “Zap”, ainda que traga uma assinatura formal, com instituição, cargo, função e links pessoais.

Às vezes, recebo mensagens de trabalho até no Messenger, geralmente de alunos esbaforidos, com relatórios atrasados e datas urgentes para bancas e apresentações de seminários. O “Zap” é ágil para ações políticas com os colegas, quando decisões rápidas se impõem através da discussão.

O principal problema das mensagens eletrônicas é a discriminação etária. Para falar com certos queridos e idosos parentes, amigos e ex-professores, recorro com frequência à epístola escrita à mão, com minha caneta-tinteiro Mont Blanc Classic, e tintas das cores Amber, Azul-Turquesa, Cerise, Preta, Verde, Vermelha, Wild Strawberry, dependendo do meu humor.

Cada vez que troco de tinta, é preciso realizar um ritual que envolve o desmonte de suas peças. Quando desatarraxo o cone, solto o clip e a tampa superior fica livre e libera o plastiquinho que serve como fecho de pressão. Retiro a pena de seu corpo e também o suporte alimentador, que é chamado de “conversor”, mas que para mim é um êmbolo como qualquer outro. Mergulho as peças em água morna com poucas gotas de detergente, por alguns minutos, antes de enxaguar tudo, exaustivamente.

Assim que as peças deixam de soltar na água a tinta anterior, remonto-as e a caneta estará pronta para a nova cor. A Amber é um amarelo claro, só legível com muita luz, bom para dificultar a leitura de textos mais íntimos. Essas cores eu adquiro no Ravil, no comecinho da Avenida São João, em São Paulo, um senhorzinho de suspensório e sobrancelhas feitas, que empunha uma tinteiro, com a tampa acoplada ao cone, como ninguém.

Nos burgos da Idade Média, cercados por muros, os Stadtpfeifer eram aqueles músicos que inovavam o repertório para além do que era tocado nas Cortes, apresentando-se em mercados e feiras, recepcionando nobres, fazendo música incidental de teatro e dobrando as vozes da polifonia a cappella. Além disso, tinham a função de despertar a população, marcar as horas, dar o toque de recolher e alertar para eventuais perigos. Eles foram também os precursores dos sindicatos de músicos, organizando-se nas chamadas “Guildas”, que se opunham aos “rabequeiros da cerveja” que não eram sindicalizados nem sabiam ler partituras.

Às vezes, recebo mensagens de trabalho até no Messenger, geralmente de alunos esbaforidos, com relatórios atrasados e datas urgentes para bancas e apresentações de seminários. O “Zap” é ágil para ações políticas com os colegas, quando decisões rápidas se impõem através da discussão.

A função desses músicos é bem parecida com a do telegrafista, que atendia a necessidades pontuais com seu código específico. Lembro do meu pai, virtuose do telégrafo que, no radioamadorismo pré-internet, comunicava-se com longínquas regiões do planeta através de pontos e traços que ele digitava com assombrosa rapidez, a partir de um manipulador eletrônico Vibroplex que emitia, de um lado, traços e, de outro, pontos, numa incrível velocidade de 40 palavras por minuto — lembrando que cada letra pode ter de um até cinco traços ou pontos.

O telégrafo, por sua vez, é herdeiro dos sinais de fumaça ou de tambores, em vastas áreas despovoadas, tão populares nos filmes de faroeste, outrora também usados nas torres da Muralha da China, e seus sinais podem alcançar até quase mil quilômetros.

O SMS, ou “torpedo”, caiu quase em desuso e parece coisa de idoso como a saudosa epístola. Tanto quanto o telefone fixo, nos dias atuais, só serve para receber mensagens de telemarketing, saldos do FGTS, comunicados de faturas de cartões de lojas e códigos de segurança para transações bancárias na internet.

Os incas, que não conheciam a escrita, estabeleceram um império de cerca de dois milhões de quilômetros quadrados entre o Pacífico e a Amazônia, graças ao eficiente sistema de comunicação das chuclas, que eram os postos dos chaquis à beira das estradas, a partir de onde esses mensageiros-velocistas levavam as informações oralmente ao imperador, quando não eram atacados por inimigos.

Quando entrei na ECA para estudar Música, fomos submetidos a um curso básico de Artes no qual dava-se ênfase aos estudos da comunicação e da linguagem, como se arte fosse apenas ou principalmente linguagem… (mas isso é outro assunto).

As disciplinas tinham nomes estranhos como Semiologia da Imagem, Fundamentos Científicos da Comunicação, Técnicas e Poéticas em Imagem e Som, Sistemas de Significação em Imagem e Som, Filosofia da Comunicação, Fundamentos da Expressão e Comunicação Humanas, Fundamentos de Sociologia Geral e da Comunicação, Fundamentos Epistemológicos da Educomunicação.

Falava-se de autores como Barthes, Cherry, Edward Lopes, Jacobson, McLuhan, Umberto Eco, Pierce, Saussure e tínhamos grandes professores como Egon Schaden, Jacó Guinsburg, Milanesi, Miroel Silveira, Sangiorgi, Paulo Emílio Salles Gomes, Peñuela, Sábato Magaldi, Teixeira Coelho, Timochenco Wehbi, Tupã Gomes Corrêa, Walter Zanini, entre tantos outros, que versavam sobre significante, significado, signo, símbolo, ícone, índice etc.

Levamos um “caldo” no oceano das teorias da comunicação, mas nenhum desses meios — e essa conclusão me parece óbvia –, substitui o cheiro, o olhar, o tom da voz trêmula, o perdigoto indiscreto no rosto do interlocutor, o calor do corpo a menos de 50 centímetros de distância um do outro — que é a linha de demarcação da intimidade que tanta falta me faz agora.

 

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