Como explicar com exatidão a tragédia de Brumadinho?

Laerte Idal Sznelwar, Mauro Silbovicius, Cláudio Marcelo Brunoro, Bernardo Luis Rodrigues de Andrade e José Rodrigues Piqueira são professores da Escola Politécnica (Poli-USP)

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=222383
José Roberto Castilho Piqueira – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
Laerte Idal Sznelwar – Foto: Cristiane Reimberg
Claudio Brunoro – Foto: Arquivo Particular
Mauro Zilbovicius – Foto: IEA
Bernardo Luis Rodrigues de Andrade – Foto: Amanda Rabelo / Poli

m

Parece-nos complicado tentar explicar com exatidão o que aconteceu no caso do rompimento da barragem de Brumadinho. Apesar de muitas vezes se utilizar a palavra exatidão no mundo da engenharia, sabe-se que, em muitos casos, se trata de um eufemismo. A arte da engenharia consiste em projetar, em construir, em implementar e em gerenciar diferentes tipos de sistemas que trazem consequências tanto positivas como negativas para os trabalhadores, para a sociedade, para o meio ambiente.

Cabe a nós constituirmos questões que podem nos ajudar a encontrar caminhos, os quais nos permitam compreender fatos já ocorridos, mas sobretudo encontrar caminhos para que se possa trabalhar com uma perspectiva mais promissora para o futuro.

A primeira questão que se coloca diz respeito ao fato de haver crime ou não quando se trata de algo desta monta. Apesar de não sermos especialistas em direito, há uma aproximação possível. Trata-se de um dos maiores acidentes de trabalho conhecidos da história do Brasil; de um dos maiores eventos destruidores com relação ao meio ambiente; da destruição de vários empreendimentos; do fim da vida para muitos; e da morte de animais e de vegetais.

Quando tratamos deste tipo de acidente, principalmente no que diz respeito aos de trabalho, há sempre responsabilidade por parte daqueles que têm poder de decisão, que também podem ter imputada a culpa ou dolo pelas escolhas que fizeram ao dirigir as empresas, ao definir os modos de produção e ao definir os processos de trabalho e as tarefas. A responsabilidade é objetiva e essa questão precisa ser trabalhada por quem de direito.

As visões mais clássicas relacionadas com a segurança industrial estão baseadas em tentativas de imputar a culpa a alguém isoladamente. No Brasil, a maioria dos acidentes de trabalho é ainda analisada como se este fosse de responsabilidade daquele que se acidentou. A culpa recai, muitas vezes, na pessoa envolvida diretamente na operação, naquele que tem pouco poder de decisão e que, por vezes, não tem como se defender, pois morreu.

É muito provável que se encontrem alguns culpados para esse caso, em diferentes níveis da hierarquia da empresa e nos órgãos de fiscalização e de licenciamento. A questão é saber em que esse tipo de abordagem ajuda a compreender os fenômenos para evitá-los, pois ao se pressupor haver um ou alguns que cometeram erros, ato inseguro no caso dos acidentes de trabalho de menor monta, parte-se do pressuposto de que exista um método correto e seguro.

Tanto no âmbito do que se costuma tratar como acidentes de menor monta, que fazem parte do dia a dia do trabalho de muita gente, como aqueles considerados catastróficos, há que se questionar as escolhas organizacionais. Sempre há aqueles que decidiram por algum tipo de tecnologia, aqueles que optaram por um tipo de divisão do trabalho e aqueles que decidiram manter as operações, mesmo em situações onde havia sinais de problema. As escolhas engajam a responsabilidade e, conforme dito anteriormente, a opção por algum tipo de abordagem que assegure que as probabilidades de um acidente são baixas é de regra. Por que será?

Ao tratar de probabilidades, estamos no mundo do conhecido. Os cálculos são feitos com base em dados do passado, daquilo que já se viveu, daquilo em que há informações para se poder calcular. Dificilmente no ambiente empresarial se usam cálculos sofisticados para ajudar nos processos decisórios, aquilo que se apregoa como bases para estudos aprofundados e que se usa em pesquisas, é complicado e sua utilização requer conhecimento aprofundado.

Mesmo ao utilizar abordagens mais aprofundadas, ainda se refere ao conhecido, daquilo que pode ser extrapolado para aumentar a segurança, e não do incerto, dos fenômenos emergentes, do acoplamento desconhecido de variáveis.

Ao analisar os acidentes ocorridos, a ideia é constituir, através de documentos e relatos, uma verdade factual. Isso é impossível. O que mais pode ser conseguido, e isso é importante, é um conjunto de visões distintas que poderão ajudar num debate sobre causas. Sempre é distorcido, no caso daqueles diretamente envolvidos, o que se obtém de uma narrativa modulada por um trauma que, quando não causou uma lesão, tinha o potencial de causar.

No Brasil, a maioria dos acidentes de trabalho é ainda analisada como se este fosse de responsabilidade daquele que se acidentou. A culpa recai, muitas vezes, na pessoa envolvida diretamente na operação, naquele que tem pouco poder de decisão e que, por vezes, não tem como se defender, pois morreu.

No caso de mortes, nem se fala, aquele que vivenciou a situação não poderá testemunhar. Isso explica a importância dada pelas ciências do trabalho ao relato dos envolvidos antes que haja um acidente; a construção de uma narrativa que mostre os problemas da produção, a evolução dos maus funcionamentos, é uma importante ferramenta para se conhecer o real da produção e, quiçá, se construir melhores abordagens sobre os riscos.

Nas últimas décadas, a partir do ideário do neoliberalismo e do “gerencialismo”, houve mudanças significativas nas empresas privadas e também públicas; essas mudanças tiveram impactos significativos nas políticas de retorno do investimento, as quais estão muito mais centradas no retorno o mais rápido possível para os investidores, que, muitas vezes, não têm qualquer interesse naquela produção, exceto o financeiro.

Com esse processo de “financeirização”, a produção em si perde importância e os gestores se tornam genéricos, são capazes de gerenciar qualquer tipo de produção, contanto que mantenham o foco nas regras que permitam o retorno rápido.

Para conseguir um maior alinhamento dos diferentes atores nas empresas, sobretudo os gestores de níveis mais elevados, os seus ganhos dependem diretamente dos resultados, principalmente os de curto prazo. Implantar políticas agressivas e mudar de empresa para evitar o apego fazem parte deste ideário. As consequências no que diz respeito à segurança das operações podem ser nefastas.

Qual será a decisão de um gestor de alto nível se tiver que escolher entre métodos mais seguros e mais custosos ou também seguros, mas nem tanto, e menos custosos?

Como se trata de uma questão de probabilidade e ela é baixa, mantém-se a mesma maneira de agir. Nesta mesma perspectiva, como não importa tanto o desenvolvimento da produção em si, mas a quantidade produzida, o retorno financeiro, pouco se pesquisa para se desenvolverem novas técnicas e também não há uma perspectiva de projeto de desenvolvimento industrial.

Se as commodities dão retorno, para que integrar a produção? No caso da mineração, para que integrá-la com empresas que produzem aço? O cenário do cada um por si prevalece. Se algo der errado, pena!

[…] há, ainda no mundo da produção e da engenharia, uma prevalência de ideias ultrapassadas, baseadas em epistemologias do século XIX ou ainda anteriores, onde o que mais importava era a perspectiva de separar, de fragmentar os fenômenos para poder entender o que se passa, e agir.

É evidente que isso não serve para toda e qualquer empresa, tal tipo de análise tem como base uma visão mais geral e que, infelizmente, se tornou muito prevalente. Basta analisarmos quem são os acionistas das grandes empresas e, como afirmou um dirigente de importante empresa brasileira recentemente, o que importa são os acionistas.

O que foi desenvolvido até o presente neste texto, como questionamentos gerais, reforça que há, ainda no mundo da produção e da engenharia, uma prevalência de ideias ultrapassadas, baseadas em epistemologias do século XIX ou ainda anteriores, onde o que mais importava era a perspectiva de separar, de fragmentar os fenômenos para poder entender o que se passa, e agir.

A importância deste tipo de racionalidade, profundamente baseada nas ideias de Descartes e, posteriormente, no positivismo, é inegável. Todavia ela não é mais suficiente! Os sistemas são altamente entrópicos, os riscos são de grande monta. Um acidente que poderia ser de pequena monta, pode se tornar catastrófico, dependendo dos cenários onde ocorreu. Não se pode mais negar a importância de uma epistemologia diferenciada para se tratar as questões da tecnologia, da economia, do trabalho, da sociedade de um modo mais amplo. A proposta é de se basear nas ideias da complexidade para tratar essas questões.

Uma das primeiras perguntas ancoradas em paradigmas da complexidade é entender para quê e com qual propósito se produz. Se essas questões não fizerem parte de qualquer ação de engenharia, ainda mais quando se trata de empreendimentos de alto risco, há algo  errado.

No caso da produção mineral, não há dúvidas de que se trata de algo estratégico, produzir minérios pode ser uma fonte de riqueza. Mas produzir de qualquer maneira, sem que se adotem condutas de prudência para evitar essas externalidades catastróficas, fica sem sentido. Questões ético-morais precisam fazer parte das decisões, não se pode adotar como base apenas a racionalidade estratégico-instrumental.

Não pretendemos tratar de todos os pressupostos da Teoria da Complexidade neste artigo. Todavia há mais alguns que precisam ser explicitados.

Todo sistema de produção, como sistema vivo, uma vez que nada é totalmente automatizado (mesmo os automatismos dependem dos programadores, pelo menos ainda), tende à desordem. A entropia está presente e o que fazem muitos atores da produção é buscar mecanismos de regulação, para alcançar novos tipos de ordem, evitando uma desagregação maior do sistema. Este tipo de conceito pode ajudar a compreender os acidentes catastróficos, até porque nos fazem refletir sobre as incertezas e sobre a incompletude de qualquer abordagem que tenhamos. Isto nos leva a sermos mais humildes e prudentes quando pensamos na segurança da produção, seja de qual tipo for.

Para concluir, há uma discussão que advém das ciências do trabalho, em especial da psicodinâmica do trabalho. Precisamos questionar como diferentes trabalhadores nessas empresas conseguem vivenciar esses cenários onde o risco está muito presente.

Para dar conta e conseguir conviver com essas situações, há mecanismos de defesa psíquicos que servem para, de alguma maneira, reduzir o medo, diminuindo o grau de consciência de que há perigo. Em muitas situações de produção, há quase um discurso monolítico, o qual serve para assegurar às pessoas que tudo está sob controle.

Mas como já mostrado em muitos trabalhos nos quais se escuta mais profundamente os trabalhadores, como também é o caso das abordagens da ergonomia da atividade, há sempre indícios que aqueles diretamente envolvidos nas operações reparam. Todavia poucos ou ninguém os escuta, qualquer semelhança com as consequências das defesas psíquicas, como o silêncio organizacional, seria mera coincidência.

É claro que isso não explica tudo, pois há questões relacionadas com as relações de poder, com a dominação, com a perda de importância das representações sindicais (incluindo o Sindicato dos Engenheiros), mas ajuda a pensar.

 

 

Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.


  • 95
  •  
  •  
  •  
  •