Revista examina vida e obra de Moacyr Scliar, o médico-escritor

Autor gaúcho é tema de dossiê da nova edição dos “Cadernos de Língua e Literatura Hebraica”

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=144669
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A medicina era a forma como Scliar colaborava com as populações de baixa renda – Fotomontagem / Fotos: Marcos Santos / USP Imagens

Um dossiê sobre Moacyr Scliar. Esta é a principal atração da edição número 15 dos Cadernos de Língua e Literatura Hebraica — publicação do Centro de Estudos Judaicos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Lançada no dia 29 de janeiro, a revista reúne artigos desenvolvidos e comentados por grandes críticos literários nacionais. De resenhas a análises, os textos agora compilados no periódico foram debatidos durante as homenagens ao 80º aniversário do autor, falecido em 2011.

Moacyr Jaime Scliar, natural de Porto Alegre, nasceu no dia 23 de março de 1937. De ascendência judia, seus pais migraram para a América fugindo da perseguição que ocorria no Velho Continente durante a Segunda Guerra Mundial. Já no Brasil, a família Scliar situou-se no Bom Fim, bairro porto-alegrense que concentrou grande parte da comunidade refugiada do Rio Grande do Sul.

A criação em meio ao judaísmo faz com que essa cultura se mostre presente em boa parte da obra de Scliar. É o que aponta Wremyr Scliar, irmão do escritor, em seu artigo A influência Judaica na Literatura de Moacyr Scliar, publicado no dossiê.

Para o irmão, “Moacyr era fruto do judaísmo, mas dele não foi um personagem estático: ao contrário, atuou como escritor e como personalidade sobre o judaísmo”.

Wremyr conta que, mesmo sem praticar a religião, grande parte dos personagens criados pelo irmão foi inspirada em parentes, conhecidos ou personalidades judias. Além disso, as leituras e o ofício de ser escritor de Moacyr foi algo germinado em seio familiar — um ambiente judaico.

Doutor Scliar

Moacyr Scliar foi o sétimo ocupante da cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras – Foto: Reprodução

O primeiro contato do autor com a literatura aconteceu ainda no colégio, onde iniciou sua jornada recebendo prêmios. No entanto, na hora de escolher uma área a cursar, Scliar optou pela medicina. Formado médico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1962, voltou seus esforços principalmente ao ramo da saúde pública e à população de baixa renda.

Para além da profissão, a medicina serviu também de inspiração literária. Após ser colaborador do jornal universitário O Bisturi, Scliar publicou sua primeira obra: Histórias de um Médico em Formação, reunindo crônicas do período como estagiário na Santa Casa de Misericórdia.

A análise sobre Scliar médico e Scliar escritor está presente nos Cadernos com o artigo de Lincoln Amaral, Medicina e Literatura: a profissão e o “ofício”.   

Partindo da escolha acadêmica e das dificuldades que a área médica acarretava ao autor, Amaral busca definir se as práticas de Moacyr Scliar eram díspares ou complementares. Do pessoal ao profissional, do médico autor ao laico propagador de textos bíblicos, muitas das ambivalências vividas pelo escritor gaúcho são levantadas e comparadas no que aparenta ser um novo hibridismo.

Um autor, diversos gêneros

Scliar não foi autor de um só gênero. Em seus mais de 70 títulos publicados, vemos  obras em forma de contos, ensaios, crônicas e novelas, abordando assuntos como imigração judaica no Brasil, socialismo, vida da classe média e medicina.

Sua bibliografia rendeu três Prêmios Jabuti, em 1988, 1993 e 2009, tendo algumas histórias adaptadas também ao cinema, como os romances Um Sonho no Caroço do Abacate e Sonhos Tropicais.

Sobre o primeiro — um livro infanto-juvenil que chegou às telas com o nome adaptado de Caminho dos Sonhos —, Fernanda dos Santos Silveira Moreira, em seu artigo publicado na revista, analisa alguns dos aspectos problematizados na obra, considerando a importância do estudo do Holocausto pelos jovens a partir de Scliar.

Os renomados contos de Moacyr Scliar são analisados e, certas vezes, resenhados nas publicações acadêmicas presentes nos Cadernos. É o caso dos artigos Uma escrita à margem: ‘Notas ao Pé da Página’, de Moacyr Scliar, feito por Késia Oliveira, e Sobre monstros e seres imaginários na obra de Moacyr Scliar: Nossa frágil condição humana, de autoria de Lyslei Nascimento.

Artigos e traduções

O dossiê apresentado não é o único conteúdo trazido no 15º número dos Cadernos. A publicação conta com sua tradicional sessão de resenhas, a tradução inédita de um texto de Hannah Arendt e artigos de alunos que cursaram de maneira optativa a disciplina Judaísmo, Modernidade e Holocausto, ministrada pela professora Marta Topel, da FFLCH.

“A iniciativa tem como objetivo estimular alunos da graduação e da pós-graduação da FFLCH a se conscientizarem da importância dos estudos sobre o Holocausto e das contribuições relevantes que eles, como estudantes, são capazes de fazer”, explica Marta Topel em texto de apresentação da revista, elaborado com o professor Gabriel Steinberg, também da FFLCH.

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