Florestan Fernandes raro e inédito chega às livrarias

Coletânea “O Brasil de Florestan” traz artigos e resenhas escritos entre 1943 e 1991, com dois textos inéditos

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O professor Florestan Fernandes – Foto: Reprodução / “Florestan Fernandes 20 Anos Depois: Um exercício de memória” via Agência Fapesp

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Sociólogo e socialista, Florestan Fernandes (1920-1995) passou a vida preocupado com a realidade brasileira. Registrou muito de suas observações, questionamentos e análises em livros que se tornaram clássicos do pensamento social, como A Integração do Negro na Sociedade de Classes (1964) ou A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica (1975).

Florestan escreveu muito. E, com isso, é natural que mapear a totalidade de suas reflexões passe por garimpar terrenos mais complexos, como prefácios e resenhas de livros de outros autores ou anotações manuscritas deixadas pelo intelectual.

Esse foi o trabalho empreendido pelo organizador Antônio David em O Brasil de Florestan, publicação da Fundação Perseu Abramo em parceria com a Autêntica. A obra é uma coleção de pequenas preciosidades, com 23 textos que englobam resenhas e prefácios de livros, artigos para revistas, anotações de conferências e planos de aula.

Apresentados em ordem cronológica, os escritos vão de 1943, quando Florestan ainda era um estudante de graduação em Ciências Sociais da USP, até 1991, época em que militava no plano institucional como deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT). São textos pouco acessíveis, que não tiveram reedições ou se perderem em meio a publicações de terceiros. Dois deles chamam a atenção pelo ineditismo, tendo sido reunidos a partir do Fundo Florestan Fernandes da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“A seleção ora publicada tem como fio condutor exprimir a preocupação de Florestan em tomar parte no esforço de oferecer um quadro interpretativo do Brasil”, explica David na apresentação do volume. “São textos menos conhecidos, mas que merecem ser lidos ao lado das obras mais consagradas do autor.”

Florestan Fernandes na greve de alunos da USP em 1987 – Foto: Jorge Maruta / Arquivo Jornal da USP

Ciência e socialismo

A publicação abre com “Elementos étnicos na formação brasileira”, texto inédito retirado de uma conferência realizada em 1943 na Faculdade de Direito da Universidade de Assunção, no Paraguai. No artigo, Florestan aborda a questão da miscigenação do povo brasileiro e a presença do imigrante no País, temas-chave do debate nacional da primeira metade do século 20. O autor dá atenção especial aos japoneses e alemães, reflexo das preocupações advindas da Segunda Guerra Mundial.

“Os elementos fundamentais que entraram na formação brasileira foram o índio, o branco e o negro”, escreve Florestan, para em seguida salientar o surgimento de novos aspectos na miscigenação, datados do fim do século 19 e motivados pelas colônias da Região Sul. “Mas, como os elementos que integram esses núcleos não são muito numerosos”, continua o sociólogo, “é possível que eles sejam totalmente assimilados à corrente branca que vem dos portugueses, da era colonial.”

“Formação e desenvolvimento da sociedade brasileira” é o outro documento inédito do volume. Consiste em anotações manuscritas de Florestan para um curso direcionado aos estudantes do quarto ano da graduação em Ciências Sociais, em 1966. Ao longo do texto é possível conhecer não só as ideias do professor, mas o método de suas aulas.

“Nosso curso tem um objetivo eminentemente didático e precisa ser desenvolvido em forma de diálogo, como se fosse uma reflexão em comum”, registra Florestan. “Se vocês não colaborarem comigo, apresentando questões e problemas, não iremos muito longe.”

Ao traçar as linhas do curso, o sociólogo descreve e analisa as características da colonização brasileira, com ênfase nas condições sociais dos primeiros séculos da ocupação europeia.

“Apesar de vasto intercâmbio cultural na esfera das técnicas adaptativas, os portugueses foram inflexíveis ao nível das relações que podiam assegurar o controle da situação e a dominação colonial. Nesse nível, nenhuma instituição ou valor importante foi transferido das demais heranças sociais e absorvido. Ao contrário, como elementos alternativos e possível base para dificultar a estratificação interétnica, eles foram colocados à margem da lei e da normalidade e perseguidos de forma feroz.”

De acordo com Florestan, atrás da aparente habilidade cultural dos portugueses se escondia um verdadeiro monolitismo cultural na integração da ordem social. “Esta não só se orientava pelos modelos transplantados de Portugal, adaptava-se às condições locais e às exigências da situação unilateralmente, em função dos interesses e dos valores sociais defendidos pelo colono português”, escreve. “Em suma, as outras etnias, eliminadas das condições de autonomia material ou moral, e subjugadas socialmente, reduziram-se a agentes subordinados e destituídos na cena histórica.”

O longo alcance da publicação, cobrindo seis décadas de trabalho, revela também a amplitude de interesses de Florestan. Na resenha de Gente sem Raça, livro de Ataliba Viana, publicada originalmente na revista Sociologia em 1944, o sociólogo denuncia o racismo e as explicações pseudocientíficas que, em vez de mitigá-lo, apresentam-no sobre outra roupagem.

“O certo é que a humanidade reconstruirá a civilização moderna tornando-a universalmente compatível com os ideais mais sólidos de igualdade social, de solidariedade humana e de justiça integral. Todavia, o cientista social deve situar-se dentro desse processo, dispondo-se a discutir o enlace do presente processo com o futuro em gestação.” Trecho do artigo “A revolução burguesa no Brasil em questão”, de Florestan Fernandes, publicado em 1977 – Foto: Arquivo Jornal da USP

“Começando num preconceito, é claro que A. Viana deveria terminar num outro. Assim, da nossa ‘inferioridade’, através de páginas sui generis, chega o autor à patriótica decisão de que ‘estamos entre os povos menos misturados, pois aqui é ainda possível contar pelos dedos os contingentes que contribuíram para nossa formação’.”

O professor não deixa de exercer sua análise crítica mesmo em relação a obras monumentais como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Escrevendo sobre a segunda edição do livro para a Revista do Arquivo Municipal de São Paulo em 1949, comenta:

“O especialista em ciências sociais poderia fazer certos reparos, embora de pequena importância, tomando-se em consideração a natureza e a finalidade do ensaio. Assim, a caracterização tipológica esboçada pelo autor (o ‘aventureiro’, o ‘trabalhador’, o ‘homem cordial’) cabe mais dentro da orientação metodológica de compreensão intuitiva (Froebenius) do que na orientação metodológica de construção positiva dos tipos ideais ou dos tipos categoriais.”

O desenvolvimento das ideias e das ações de Florestan aparece em “A revolução burguesa no Brasil em questão”, artigo de 1977 em que o autor oferece respostas aos comentários feitos ao seu livro A Revolução Burguesa no Brasil. Ao longo do texto, o sociólogo reafirma suas convicções paralelamente ao repasse de sua trajetória.

“Ao mesmo tempo que me iniciava no estudo das ciências sociais, aprendia nos movimentos subterrâneos a lutar contra uma ditadura, naquele tempo a do Estado Novo, de Getúlio Vargas”, destaca Florestan. “Nunca me afastei dos ideais socialistas e procurei realizar uma carreira científica tão exigente quanto estava ao meu alcance preservando tais ideais. Portanto, minha carreira, como professor e como sociólogo, sempre foi marcada por essa dupla vinculação entre a ciência e o socialismo, o que me levou a viver a responsabilidade do intelectual em termos de extrema tensão crítica com as iniquidades da sociedade brasileira e a figurar na vanguarda dos que tentaram lutar por uma revolução democrática autêntica, dentro da ordem ou contra ela.”

No mesmo artigo, Florestan expõe sua análise da situação política nacional, então tomada pelo regime militar, justificando assim o conteúdo de A Revolução Burguesa no Brasil. “O livro conduzia a uma resposta intelectual a uma situação de extrema tensão política, denunciando simultaneamente os efeitos da dominação conservadora e contrarrevolucionária interna e da dominação externa, das nações capitalistas hegemônicas e de sua superpotência”, explica o professor. “Escrito com base em uma visão sociológica da realidade e através de uma linguagem sociológica rigorosa, ele devia corresponder às funções da literatura engajada, de desmascaramento social e de combate político.”

“Não se tratava, apenas, de defender a ‘liberdade’ e a ‘democracia’”, continua em seguida. “Porém, de pôr em evidência que a sociedade de classes engendrada pelo capitalismo na periferia é incompatível com a universalidade dos direitos humanos: ela desemboca em uma democracia restrita e em um Estado autocrático-burguês, pelos quais a transformação capitalista se completa apenas em benefício de uma reduzida minoria privilegiada e dos interesses estrangeiros com os quais ela se articula institucionalmente.”

Pensamento vivo e atual

Filho de uma empregada doméstica que o criou sozinha, Florestan deixou os estudos para ser engraxate e garçom na metrópole paulistana, a gigante de concreto em franca expansão e modernização. Pode-se dizer que os primeiros anos de vida foram um intenso trabalho de campo, que imprimiu no corpo as questões e contradições que ganhariam terreno em sua produção intelectual.

Após resgatar o ensino perdido, graças a um curso supletivo, Florestan ingressou na graduação em Ciências Sociais da USP no início dos anos 1940: infiltrava-se assim no que deveria ser o projeto de formação de quadros para a elite paulista, ofendida pelo desenrolar da Revolução de 1932. De estudante, tornou-se professor titular da cadeira de Sociologia. O militante contudo, não tardaria a incomodar a ditadura civil-militar.

Em 1969, foi limado dos quadros da Universidade, vítima do decreto 477, o Ato Institucional nº 5  “das universidades”, na mesma navalhada que sangrou da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) Fernando Henrique Cardoso e Caio Prado Júnior. Arrancado de sua razão de ser, Florestan aceitou uma temporada de exílio na Universidade de Toronto, no Canadá, voltando ao Brasil em 1971.

No retorno, os traços reformistas do pensamento de Florestan foram substituídos pela radicalização. Ao intelectual se junta o revolucionário, munido das ideias de Marx e com uma escrita e atuação que sobrepõem o político e o polêmico ao cientista. Nos anos 1980, sua militância se expande para a política institucional, sendo eleito deputado federal constituinte pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e reeleito para a legislatura seguinte.

O novo livro com textos de Florestan Fernandes – Foto: Reprodução

A trajetória de Florestan encontra um fim antecipado, contudo, em 1995. Sofrendo de hepatite C desde os anos 1970, um erro humano durante uma sessão de hemodiálise encerra, aos 75 anos, a trajetória do indivíduo que se entregou integralmente ao social.

“Florestan teve a rara capacidade de, ao ler o Brasil, ultrapassar o episódico e o conjuntural para, neles, observar com extrema agudeza os ecos de uma rígida estrutura social”, analisa David. “Ele não foi apenas um grande intelectual; foi um intelectual cujo pensamento permanece vivo e atual.”

Florestan Fernandes – O Brasil de Florestan (organização Antônio David), Editora Fundação Perseu Abramo e Editora Autêntica, 256 páginas, R$ 49,80.

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