Livro explica o poder e a consolidação dos Estados Unidos

Obra faz reflexões críticas sobre a narrativa de criação da nação norte-americana

Por - Editorias: Cultura
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O Monte Rushmore, nos Estados Unidos, com os rostos de quatro grandes líderes da nação esculpidos na rocha: da esquerda para a direita, George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln – Foto: Reprodução / Estados Unidos: Estado Nacional e Narrativa da Nação (1776-1900)

A formação e a consolidação dos Estados Unidos da América são o tema da pesquisa de mais de duas décadas de Mary Anne Junqueira, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Um estudo publicado no livro Estados Unidos: Estado Nacional e Narrativa da Nação (1776-1900). A primeira edição foi lançada em 2001 pela Editora da USP (Edusp), que está lançando uma nova edição revista e ampliada. Diante dos últimos acontecimentos políticos e sociais, o livro chega em um momento oportuno para uma reflexão sobre a atuação dos Estados Unidos no presente, com os discursos e ações do atual presidente Donald Trump.

A autora inicia o livro lembrando uma frase que os historiadores norte-americanos Allan Nevins (1890-1971) e Henry Steele Commager (1902-1998) escreveram na introdução de um manual de história dos Estados Unidos: “Os Estados Unidos saíram da escuridão para penetrar na história há quase quatro séculos. É a mais nova das grandes nações e, sem dúvida, em muitos aspectos a mais interessante. E é interessante porque sua história recapitula a história do gênero humano e resume o desenvolvimento das instituições sociais, econômicas e políticas”.

A ênfase que os citados historiadores dão aos Estados Unidos de serem a primeira república, a mais velha democracia e a Constituição mais antiga do mundo é questionada no livro. “A ideia de que a democracia e a opção pelo contrato social são concepções e projetos que fazem parte da história do Ocidente há muito o ultrapassa, alcançando outras regiões do globo”, observa. “Por obra das elites coloniais, essas ideias que já vinham sendo debatidas por pensadores europeus penetraram não só nas treze colônias continentais inglesas como também no Novo Mundo. São, portanto, tendências mais antigas do que julgam os historiadores citados. Por que então a ênfase na centralidade dos Estados Unidos em âmbito mundial?”

Discurso de posse de Abrahan Lincoln no Capitólio – Foto: Reprodução / Estados Unidos: Estado Nacional e Narrativa da Nação (1776-1900)

“Forjou-se uma narrativa nacional, além de símbolos que fornecessem aos indivíduos um sentimento de pertencimento…”

O questionamento se estende pelas 184 páginas do livro. “O objetivo desta obra é abordar dois temas estritamente articulados entre si: a formação e a consolidação do Estado nacional e a configuração da narrativa da nação norte-americana”, salienta Mary Anne. “Em relação à narrativa da nação, o propósito é compreender suas origens, sua constituição e os dispositivos mobilizados e avançar na direção da compreensão de seus habituais usos.”

A historiadora lembra que a população norte-americana foi composta de imigrantes originários de várias partes da Europa, grupos religiosos diversos, negros escravizados e livres oriundos da África e nativos da terra. “A consciência nacional – o sentimento de que, independentemente da origem, eles eram norte-americanos – não se consolidou da noite para o dia. O mesmo ocorreu com outros países que constituíram o Estado nacional.”

Segundo a pesquisadora, foi instituída uma unidade política, porém havia a necessidade de criar uma identidade cultural norte-americana. “Forjou-se uma narrativa nacional, além de símbolos que fornecessem aos indivíduos um sentimento de pertencimento. O que um habitante de Massachusetts teria em comum com outro da Virgínia? Certamente eles compartilhavam o sentimento de ser norte-americano. Essa consciência foi sendo forjada aos poucos, reforçada pela evocação de uma pretensa história comum e de elementos igualmente compartilhados entre a população.”

Fachada do Home Insurance Building em Chicago, indicado como o primeiro arranha-céu do mundo, inaugurado em 1885 e demolido em 1931 – Foto: Reprodução / Estados Unidos: Estado Nacional e Narrativa da Nação (1776-1900)

“Fabricou-se uma galeria de heróis nacionais que passou a ser reverenciada até os dias atuais.”

Mary Anne cita os pais fundadores da nação, ou os homens que levaram a cabo a Independência, arquitetaram as bases do Estado nacional e prepararam a Constituição. “Fabricou-se uma galeria de heróis nacionais que passou a ser reverenciada até os dias atuais É possível constatar ainda hoje esse tratamento dado aos líderes norte-americanos nas ruas, nas escolas, nos jornais, nos livros.”

O livro da professora Mary Anne Junqueira – Foto: Reprodução

Capa do livro (Clique para ampliar)

O primeiro citado é George Washington (1732-1799). “Tornou-se se o modelo para os presidentes que o sucederam”, observa a pesquisadora. Outro cultuado como herói é Thomas Jefferson (1743-1826), autor da Declaração da Independência (1776) e presidente do país (1801-1809). “Benjamin Franklin (1706-1790), John Adams (1733-1826), Alexander Hamilton (1755 -1804), James Madison (1751-1836) e John Jay (1745- 1795) também estão, como a pesquisadora aponta, no panteão sagrado dos fundadores da nação. “Não só os Estados Unidos, evidentemente, criaram ídolos públicos, especialmente no momento de formação da nação. A maioria dos países assim o fez, mas é possível perguntar: que outra cultura esculpiria o rosto de seus presidentes em uma montanha, como fizeram os norte-americanos no monte Rushmore?”

O livro é o número 91 da Coleção Acadêmica da Edusp, que tem origem no Programa de Incentivo à Produção de Livros Didáticos para o Ensino de Graduação da Pró-Reitoria de Graduação da USP.

Estados Unidos: Estado Nacional e Narrativa da Nação (1776-1900), de Mary Anne Junqueira. Reedição da Editora da Universidade de São Paulo, 186 páginas. Preço: R$ 30,00.

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