Livro retrata o teatro de resistência de Sami Feder

Sobrevivente do Holocausto, diretor polonês resistiu ao terror nazista através das artes cênicas

Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=248852
Integrantes da Companhia Kazet Theater, do DP Camp Bergen-Belsen. Sami Feder, ao centro com gorro, e ao seu lado direito, Sonia Boczkowska. Fotógrafo não identificado. Alemanha, 1945. Acervo: Bergen-Belsen Memorial (Alemanha)

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“A palavra e o gesto eram ainda o que os nazistas não teriam como aniquilar”, escreveu o diretor de teatro Sami Feder (1906-2000) em um de seus diários, registrados em centenas de cadernos, muitos deles enterrados ou escondidos na época do Holocausto. “Sami Feder é um exemplo único de força espiritual, dirigindo teatro durante o Holocausto. Ele não era famoso antes da guerra, ao contrário de Kurt Gerron ou Ehrlich Max, Schwenk Karel ou Ullmann Viktor, Kotzenelson Yitzhak ou Arnshtam Mark – estrelas culturais do pré-guerra da Europa que foram impiedosamente dizimados por nada, a não ser por seu judaísmo. Sami Feder tinha apenas 29 anos de idade, em 1939, quando começou a sua jornada de luta espiritual através de 12 campos de trabalho e campos de extermínio”, escreveu a pesquisadora russa Zlata Zaretsky, num artigo publicado na internet. Esse artigo originou uma extensa e minuciosa pesquisa de Leslie Kirchhausen Marko, filha de uma sobrevivente do Holocausto.

Resultado de sua tese de doutorado, defendida em 2016 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o livro Teatro de Sami Feder – Espaço Poético de Resistência nos Tempos do Holocausto (1933-1950) – que acaba de ser lançado pela Editora Humanitas – reconstitui a trajetória do diretor de teatro judeu-polonês que atuou no  movimento de resistência artística e emocional durante o período em que o nazifascismo dominou grande parte da Europa (1933-1945). A análise do livro ainda se estende para o período imediatamente após a liberação do campo de concentração de Bergen-Belsen, onde o diretor esteve nos últimos dias antes da libertação e onde permaneceu por cinco anos, mesmo com o final da Segunda Guerra, vivendo no campo de refugiados Deslocated People Camp of Bergen Belsen. Segundo a autora, nesse local o seu teatro foi institucionalizado e foi criada a companhia Kazet Theater. Ali, “a reabilitação e recuperação da dignidade humana tornou-se uma urgência frente ao desenraizamento e ao trauma vividos durante a guerra”.

Cena da peça Der Goel (O Messias), de Emil Bernhard, adaptação e encenação de Sami Feder. Fotografia provavelmente de Sami Feder, durante ensaios, entre 1945 e 1947. Local não identificado. Acervo: Bergen-Belsen Memorial (Alemanha) – Foto: Extraída do livro Teatro de Sami Feder

Para Leslie, imaginar o fenômeno teatral durante o Holocausto talvez fosse inconcebível. Como afirmou Sami Feder, em palavras reproduzidas no livro, “não tínhamos a mínima condição necessária. Aí reside nossa grande força. Não tínhamos literalmente nada: não tínhamos papel, lápis, nada para anotar. Tínhamos coração e sentimento”.

“O teatro como espaço de resistência acolheu e deu moldura a atores e espectadores em um pacto construído entre a realidade oculta com o gesto, a palavra e o silêncio”, escreve Leslie. “Muitas vezes, o silêncio da pausa e a mímica representaram o lamento e o ruído do acontecimento real sofrido. Em palcos improvisados ou clandestinos, decorando textos proibidos, desenhando partituras recuperadas da memória dos companheiros, usando cortinas e outros objetos para confeccionar indumentárias e cenografias, a cultura ídiche foi preservada num ato heroico em que parte da alma do povo judeu, que vinha sendo exterminado, conseguiu rebelar-se.”

Para Leslie, a relevância de um livro sobre o diretor está em “resgatar, analisar historiograficamente e divulgar o percurso e a atuação de Feder, que, por meio da arte teatral, aliada à música, literatura e poesia, buscou o exercício ético do acolhimento coletivo e da cidadania”.

 

Cartaz da peça teatral Hitleriada, de Sami Feder (1934), uma sátira ao Führer. Acervo: Bergen-Belsen Memorial (Alemanha) – Foto: Extraída do livro Teatro de Sami Feder

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O teatro em situações-limite

Sami Feder e Sonia Boczkowska em 1946, Deslocated People Camp of Bergen Belsen. Fotógrafo não identificado. Acervo Museu do Holocausto Yad Vashem (Israel) – Foto: Extraída do livro Teatro de Sami Feder

Sami Feder, nascido em 5 de dezembro de 1906, em Zawiercie, na Polônia, emigrou para Frankfurt, na Alemanha, no final da década de 1910. Ali frequentou uma escola de artes cênicas, engajou-se nos círculos dos imigrantes poloneses, tornou-se sionista, jornalista, escritor e idichista, como conta a professora Maria Luiza Tucci Carneiro, do Departamento de História da FFLCH, que assina o prefácio da obra. Mas, segundo ela, foi em Berlim, centro cultural, político e artístico da Alemanha, que ele se entregou ao teatro, aprendendo a encenar com mestres como Erwin Piscator, Alexeu Granowsky e Zvi Friedland. “Tudo transcorria bem até o momento em que o jovem Feder teve seu nome inscrito numa ‘lista negra’ preparada pelos nazistas, que o classificaram como ‘judeu e apátrida da esquerda política’. A partir desse incidente registrado em 1933, Feder passou a viver no inferno”, relata.

Depois de passar por vários campos de concentração, conseguiu sair vivo de Bergen-Belsen. “Felizmente alguns mortos-vivos foram liberados em 15 de abril de 1945, mantendo acesa a força de viver do povo judeu: 90% dos 60.000 sobreviventes de Bergen-Belsen estavam com tifo, disenteria e outras tantas doenças; mal conseguiam digerir as ofertas de comida que recebiam das tropas britânicas de ocupação”, escreve Maria Luiza.

A professora acrescenta que, em meio a esse cenário de desolação e reconstrução da vida, Feder se mobilizou para levar arte e oferecer esperança aos seus novos espectadores. Segundo ela, Sami Feder, como poucos conseguiram fazer, dirigiu grupos teatrais de resistência anti-hitlerista, compostos por artistas/prisioneiros judeus, em guetos, campos de concentração, de trabalho e de extermínio durante a dominação nazista principalmente na Alemanha e no Leste Europeu. “Tanto o teatro como as memórias deixadas por Feder devem ser retomadas enquanto estratégias educativas capazes de gerar benefícios para as relações e os direitos humanos”, ressalta.
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Túmulo de Sami Feder em Herzliya, Israel, onde se lê: (texto cuja autoria refere-se à Dora Feder) “(…) A meu esposo e avô querido, Sami Shmuel Feder, filho de Eliezer e Golda, recordação a ser levada no nosso coração (…)”. Visita com Arie Olewski, maio de 2013. Fotografia: Leslie Marko. Acervo: Leslie Marko

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Documentos únicos

Estandarte do Kazet Theater, que se encontra no Bergen-Belsen Memorial (Alemanha), emprestado do YIVO Institute for Jewesh Research (Estados Unidos) – Foto: Extraída do livro Teatro de Sami Feder

No seu artigo, a pesquisadora russa Zlata Zaretsky sublinha a importância do estudo do teatro do Holocausto como parte da história do teatro judaico e do teatro mundial, identificando Sami Feder como um artista pouco estudado e de significado relevante. “Encontrei poucas referências sobre o diretor e alguns registros sobre teatro ídiche em geral durante o Holocausto”, conta Leslie, que se encontrou com Zlata em 2012, na cidade de  Ma’ale Adummim, nas proximidades de Jerusalém, na orla do deserto da Judeia.

Nesse encontro, que durou três horas, a pesquisadora russa mostrou a Leslie tudo o que tinha em mãos: parte do arquivo pessoal de Sami Feder, doado a ela pela segunda esposa do diretor, Dora Feder, depois do falecimento dele, em 2000 (a primeira mulher foi Sonia Lizaron, membro-chave de seu grupo teatral), fotografias, documentos e recortes de jornal da época sobre Sami Feder e o Kazet Theater, escritos em hebraico, ídiche, inglês e espanhol.

Além disso, entregou para Leslie um diário e um livro de Feder, além de dois textos: Anotações sobre o Kazet Theater para o diário ídiche do Teatro do Campo de Concentração em Bergen-Belsen 1945/1947, em ídiche, e Punhos Cerrados, em hebraico, publicado em Israel. Leslie ainda recebeu a cópia de um livro escrito por Zlata, The Phenomenon of Theatre Israeli, ainda a ser publicado, no qual se encontra uma entrevista realizada com Sami Feder em 1995. Materiais que a pesquisadora cedeu em confiança a Leslie, com o objetivo de que pudesse dar continuidade à pesquisa iniciada por ela.

O livro sobre o diretor judeu polonês, lançado pela Editora Humanitas – Foto: Reprodução

Como afirma o jornalista Arie Olewski, membro da diretoria da Associação de Sobreviventes de Bergen-Belsen (Herzliya, 2018), em depoimento publicado em Teatro de Sami Feder: “Era como se ela (Leslie) tivesse sido enviada pelo céu para criar um final apropriado para a história inacabada de Sami Feder e Sonia Lizaron. Uma história, de milhões, de duas pessoas cujas vidas foram entrelaçadas nos tempos e espaços do Holocausto. Sami e Sonia foram bons amigos dos meus pais; todos eram sobreviventes de Auschwitz e de outros conhecidos campos de trabalho forçado, e posteriormente proeminentes figuras do campo de deslocados de Bergen-Belsen. Eles foram os iniciadores da arte cênica no campo”.

A própria autora faz um agradecimento a Sami Feder, a Sonia Lizaron e aos membros do Kazet Theater, “que durante o Holocausto buscaram resistir e desafiar o extermínio e a desumanização e que, apesar da dor naqueles dias terríveis, acreditaram e praticaram a arte como forma de sobrevivência, solidariedade e consciência coletiva, tentando construir um mundo possível mais justo e melhor”.

Teatro de Sami Feder – Espaço Poético de Resistência nos Tempos do Holocausto (1933-1950), de Leslie Kirchhausen Marko, Editora Humanitas (438 páginas, R$ 50,00). Mais informações neste link

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