Gênese e avanço das editoras universitárias

Jean Pierre Chauvin é professor de Cultura e Literatura Brasileira no curso de Editoração da ECA

Por - Editorias: Artigos
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Jean Pierre Chauvin – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

No texto introdutório a Livros e Universidades (Marisa Midori Deaecto & Plinio Martins Filho [Orgs.], Com-Arte, 2017, 392 págs.), Marisa Midori Deaecto lembra que “[…] o modelo de edição universitária surge como suporte das atividades dentro dos colégios e das universidades, no século XVIII”. A seu turno, Plinio Martins Filho ressalta que “[…] a consolidação do espaço universitário chegou tarde ao Brasil”, o que explica o fato de que o cenário editorial somasse apenas meio século de atuação orgânica e sistemática, influenciando decisivamente “a cultura brasileira”.

Ora, em 2012 a Editora da Universidade de São Paulo celebrava cinquenta anos de atividade. Considerada como uma das casas universitárias mais importantes do Brasil, e reconhecida internacionalmente, o momento foi bastante propício para que se realizasse um evento homônimo[1], que congregou historiadores e pensadores de vários países. No capítulo de abertura, Laurence Hallewell resgata sua pesquisa, iniciada na década de 1960, em torno das editoras, circulação e recepção de livros no País, fenômeno que acontecia paralelamente à transferência e instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro.

No segundo capítulo, Paulo Franchetti defende o papel das editoras universitárias, lembrando que diferentemente das editoras comerciais, que priorizam o retorno financeiro do que publicam, nas editoras universitárias os livros contemplam o “retorno acadêmico, […] o impacto da obra na consolidação, na expansão ou no aprimoramento de um determinado campo do saber”.

Para Ursula Rautenberg, deve-se levar em conta o diálogo – nem sempre pacífico – entre as bibliotecas científicas, universitárias e públicas, já que “servem de intermediários com relação à comunidade científica, para a qual fornecem serviços”. Edoardo Barbieri relembra que, no princípio, as editoras italianas acompanharam o ritmo das universidades – “fenômeno de elite” que interferiu decisivamente na “produção editorial ligada a ela”.

Plinio Martins Filho ressalta que “[…] a consolidação do espaço universitário chegou tarde ao Brasil”, o que explica o fato de que o cenário editorial somasse apenas meio século de atuação orgânica e sistemática, influenciando decisivamente “a cultura brasileira”.

Por sua vez, Marco Santoro desloca a atenção para as universidades medievais, que tinham o papel de “fornecer uma cultura profissional […] comumente em teologia, direito e medicina”. No capítulo 6, John Donatich considera a resistência simbólica do livro, em meio a defensores e detratores: uns a se comportar como amantes, que tratam o livro como organismo vivo, submetendo-o a cuidados e preciosismos; outros a criticar o papel da indústria, o componente antiecológico da impressão em papel etc. A seguir, Andreas Degkwitz ressalta a competição entre o suporte impresso e o eletrônico, especialmente na academia, em que o dinamismo das publicações on-line disputa terreno com a robustez do livro.

Qual o papel da Hungria, no consórcio entre o livro e a universidade? István Monok responde a essa questão, ao recuar a história para o século XIII – momento em que o clero seguia uma formação comum, em obediência ao studium generale. Do ponto de vista histórico, só recentemente os livros em croata e alemão ultrapassaram, em número, as edições em outras línguas, especialmente o latim, que foi “a língua oficial” da Hungria, até 1844, e integrava o estudo obrigatório nas escolas da Transilvânia até 1844.

No capítulo 9, Frédéric Barbier oferece um panorama da “economia do livro” na França, entre os séculos XII e XVIII, já que “até a virada do ano 1000, os livros permaneceram quase exclusivamente coisa da Igreja”. A quinta seção de Livros e Universidades descreve o funcionamento do mercado de livros didáticos no mundo ibérico. Jean-François Botrel enfatiza o protagonismo do livro didático no mercado editorial espanhol, entre 1845 e 1936, o que lhe permite abordar a vocação pedagógica do material, bem como as formas de controle exercidas pelo Estado.

Já Nuno Medeiros salienta o caráter dispersivo das edições portuguesas contemporâneas, o que levou à “constituição formal da Associação Portuguesa de Editoras do Ensino Superior” em 2007. Na seção seguinte, “A Escrita dos Livros”, Jerusa Pires Ferreira descreve o livro como “objeto de prazer, desafio aos sentidos, agente transformador” e vincula a importância do impresso como suporte para o registro do texto popular, especialmente o cordel. Michel Melot alerta para a perda de vínculos entre “o escriba e a escrita”, graças ao contato cada vez mais assíduo entre a palavra e a tela do computador. O capítulo de Ivan Teixeira encerra a seção. Para o pesquisador, o livro era um “artefato cultural” específico que não permitia confundi-lo com outros suportes e materiais, já que, “ultrapassando a condição de suporte tipográfico”, o livro possibilitaria “a existência conceitual da arte, confundindo-se parcialmente com sua estrutura”.

No capítulo 15, Jean-Yves Mollier resgata o aparecimento das primeiras “casas de edição escolar”, durante o oitocentos. No século XX, o autor destaca a atuação da PUF, que resistiu à Segunda Guerra Mundial e, em 1941, criou a coleção Que sais-je? Denis Rodrigues enfatiza o papel da PUR (Presses Universitaires de Rennes), criada na década de 1990. Patricia Sorel relembra que “os cursos de formação nos três ofícios do livro, […] a biblioteca, a livraria, a edição, nasceram fora da universidade”. A formação do editor também é matéria da oitava seção.

Valeria Sorín concentra-se na trajetória de graduados em Editoração – demanda profissional que acompanha de perto a comercialização de livros infantis e infantojuvenis, desde 1990. No capítulo 19, José de Paula Ramos Júnior descreve a nova grade, comenta a estrutura e a concepção do curso de Editoração da ECA, em 2012 – inaugurado em 1972. Eduardo Pablo Giordanino completa a seção. O pesquisador considera o estudo dos catálogos editoriais “como ferramenta pedagógica” do curso de Editoração da Universidade de Buenos Aires.

Para Ivan Teixeira o livro era um “artefato cultural” específico que não permitia confundi-lo com outros suportes e materiais, já que, “ultrapassando a condição de suporte tipográfico”, o livro possibilitaria “a existência conceitual da arte, confundindo-se parcialmente com sua estrutura”.

No capítulo 21, Gonzalo Alvarez avalia os impactos das tecnologias no mundo acadêmico e, em particular, na edição de livros universitários, corroborando a tese de que “A universidade é produtora de bens culturais socialmente significativos”. Daí a ênfase na desejável autonomia das editoras universitárias. A seguir, Bernardo Jaramillo Hoyos reflete sobre a conscientização dos editores, frente aos avanços da tecnologia e aos novos suportes do texto. Para o autor, o ponto de partida é assegurar “maior visibilidade da oferta editorial regional” – fenômeno relativo ao Caribe, mas que se aplica a diversos países da América Latina.

Na seção final, Mary Katherine Callaway enaltece o papel da Association of American University Presses, criada em 1935: entidade que se propõe a coordenar as editoras dos Estados Unidos, com ênfase na “publicação sem fins lucrativos”. Garrett Kiely salienta a atuação da University of Chicago Press – “a maior editora universitária” daquele país. Por fim, Andrew Brown esclarece que a plataforma digital não alterou fundamentalmente o fato de que ser publicado por uma grande editora universitária confere prestígio ao seu autor e aumenta a confiabilidade do leitor.

Síntese do empenho e atuação de acadêmicos e profissionais diretamente ligados aos estudos sobre a edição, o ensino e a trajetória do livro, o volume rende uma bela e justa homenagem à Edusp, por ocasião do cinquentenário da editora, em 2012. Preparado sob os cuidados da editora-laboratório Com-Arte, Livros e Universidades é objeto modelar. Produzido pelas mãos de professores e alunos do curso de Editoração da ECA, a obra deverá frequentar a estante de todo estudioso ou profissional interessado nas trilhas percorridas pelo livro, dentro e fora do Brasil. A publicação representa um marco editorial para os estudos sobre livro e o mercado editorial universitário e sugere que sempre é tempo de refletir sobre as práticas em torno da palavra impressa ou digital. Especialmente em nossa Universidade.

[1]     O Seminário Livros e Universidades foi realizado na Universidade de São Paulo entre os dias 5 e 8 de novembro de 2012.

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