Pesquisas da USP recebem treinamento de comercialização

Elas fazem parte do Programa ASTRo, que busca melhorar a forma como os estudos são apresentados às indústrias

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Programa de aceleração de tecnologias busca fortalecer o ecossistema de inovação brasileiro – Imagem: Programa ASTRo (Applied Sciences Trail Roche)

Uma descoberta científica com aplicação prática, principalmente na área de saúde, passa por diversos testes até poder ser comercializada como produto. Porém, para alcançar esse último estágio, é necessário que os acadêmicos saibam apresentar de forma atrativa seus estudos para as indústrias, responsáveis pela produção em grande escala. Pensando nisso, o grupo farmacêutico suíço Roche, em parceria com a Fundação Instituto de Administração (FIA), criou o programa ASTRo (sigla para Applied Science Trail Roche). A iniciativa selecionou, entre instituições de todo o Brasil, seis pesquisas da USP para a capacitação de seus pesquisadores em planos de comercialização e negócios, dando apoio para que anos de trabalho científico se materializem em novos produtos, serviços ou processos.

Durante 12 semanas, os pesquisadores selecionados se reúnem com especialistas para uma série de atividades individuais e em grupo. Os trabalhos já começaram. “Eles envolvem módulos de desenho de proposta de valor, construção de plano de comercialização e definição de modelo de negócios”, exemplifica Lenio Alvarenga, diretor médico da empresa. Para Elizabeth Igne, pesquisadora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, o resultado vem sendo benéfico. “Estamos gostando muito. Eles nos explicam a forma de falar com a indústria. Entendemos muitos conceitos que não conhecíamos, como custo, liquidez, planos de negócio.” De acordo com a professora, contemplada pelo programa devido à elaboração de um fármaco contra a doença de Chagas, a cada encontro os grupos são instigados a apresentar como os conceitos aprendidos se aplicam às suas pesquisas.

A capacitação se encerra em dezembro, mês em que as pesquisas já devem estar preparadas para uma conversa com as empresas. “A ideia é que no fim do programa os grupos possam adquirir conhecimentos e desenvolver habilidades necessárias para a realização de parcerias e comercialização das tecnologias desenvolvidas”, explica Alvarenga.

Ainda não há uma previsão de quando pode ocorrer o próximo programa. A ideia é que os resultados da edição sejam analisados e o futuro do projeto discutido internamente. Mais informações estão disponíveis no site do programa.

Vencedores do Programa ASTRo – Foto: Divulgação/ASTRo

 

Critérios de seleção

A primeira parte da seleção foi escolher uma ICT (Instituição de Ciência e Tecnologia) vencedora, que pode ser uma universidade, instituto ou fundação. Para a se inscrever, era necessário que pelo menos quatro projetos da instituição fossem cadastrados. A USP foi escolhida por ter tido a melhor média entre as participantes. De acordo com Alvarenga, os critérios utilizados foram estes:

  • Qualificação do proponente/ grupo de pesquisa (produção técnico-científica, média de índice h dos pesquisadores, financiamentos, boas práticas, potencial inovador);
  • Gestão de processo de inovação (estrutura organizacional de gestão da inovação da ICT, equipe de gestão da inovação, política de inovação tecnológica e/ou política de gestão de propriedade intelectual da instituição);
  • Tecnologias (se se encontram dentro das linhas de interesse da Roche, nível de maturidade, impacto, grau de inovação, consistência e qualidade das propostas).

Logo em seguida, a mesma seleção foi feita considerando somente as pesquisas da USP, resultando em um total de seis vencedoras. Conheça os estudos selecionados:

Hidroximetilnitrofural (NFOH): novo líder antichagásico

Pesquisadores: Elizabeth Igne Ferreira (Faculdade de Ciências Farmacêuticas – FCF-USP), Chung Man Chin (Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp), Soraya da Silva Santos (FCF-USP) e Jeanine Giarolla Vargas (FCF-USP).

Resumo: o projeto desenvolve composto para o tratamento da doença de Chagas. Segundo o grupo de pesquisa, o composto está em fase de testes pré-clínicos — ensaios antes dos testes em humanos — e se mostrou menos tóxico que o medicamento disponível no mercado. A formulação foi desenvolvida pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP em parceria com a Unesp.

Atualmente, a doença de Chagas afeta de um a dois milhões de pessoas por ano e é caracterizada por possuir duas fases: a aguda e a crônica. A doença é transmitida pelo parasita Trypanosoma cruzi, encontrado nas fezes de alguns insetos, sendo o principal deles conhecido como barbeiro. No Brasil, só existe um medicamento disponível para o tratamento, que serve para apenas 5% dos casos em fase crônica.

Produção de Fatores de Coagulação Recombinantes em Linhagens Celulares Humanas

Pesquisadores: Dimas Tadeu Covas (Hemocentro de Ribeirão Preto/ Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – FMRP-USP), Virgínia Picanço Castro (Hemocentro FMRP-USP), Kamilla Swiesh (Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto-USP), Marcela Freitas (Hemocentro FMRP-USP) e Daianne Maciely (Hemocentro FMRP-USP).

Resumo: o objetivo é produzir fatores de coagulação recombinantes, ou seja, proteínas presentes no sangue, utilizados no tratamento das hemofilias A e B. Para isso, são utilizadas linhas celulares humanas que seriam mais seguras e eficazes em comparação com a maioria dos fatores disponíveis no mercado, produzidos com linhagens celulares de camundongos.

“As hemofilias A e B são doenças sanguíneas caracterizadas pela deficiência dos fatores de coagulação VIII e IX, respectivamente. O tratamento atual consiste no uso dos fatores VIII e IX, os quais podem ser derivados de plasma ou recombinantes. Uma das complicações do tratamento consiste na formação de anticorpos inibitórios contra o fator utilizado. Neste caso pode-se utilizar como alternativa o fator VII recombinante”, explica a descrição do projeto.

Ariloxazolinas: uma nova classe de agente antifúngico

Pesquisadores: Kelly Ishida (Instituto de Ciências Biomédicas – ICB-USP), Hélio A. Stefani (FCF-USP) e Vinícius Morais Barroso (ICB-USP)

Resumo: o projeto quer avançar nos estudos de moléculas da classe ariloxazolinas para desenvolver  um fármaco antifúngico que possa ser usado no tratamento das candidíases. Candidíases mucocutâneas, como as candidíases vaginal e oral e a candidíase sistêmica (candidemia) são micoses frequentes em humanos. De acordo com o grupo de pesquisa, a forma sistêmica é a mais grave, com taxas de mortalidade de até 70% dos casos.

“Além da gravidade da doença, o aumento da frequência dos isolados resistentes aos antifúngicos e a emergência de espécies multirresistentes impactam na necessidade da busca de novas alternativas de tratamento. Observamos que moléculas sintéticas da classe ariloxazolinas inibem o crescimento de Candida spp., incluindo linhagens resistentes ao fluconazol, e com baixa citotoxicidade.”

Imunoterapia combinada para tratamento de tumores associados ao HPV

Pesquisadores: Jamile Ramos (ICB-USP), Mariangela de Oliveira (ICB-USP), Luana Aps (ICB-USP), Bruna Maldonado Porchia (ICB-USP) e Luís Carlos de Souza Ferreira (ICB-USP)

Resumo: A pesquisa desenvolve experimentalmente uma imunoterapia antineoplásica – tratamento de tumores através do estímulo ao sistema imunológico – para combater o câncer induzido por infecções pelo Papiloma Vírus Humano (HPV). O tratamento combina uma vacina que age especificamente contra o tumor a um sistema que bloqueia a imunossupressão – diminuição da efetividade do sistema imunológico –  induzida pelo câncer. Assim, promove-se, a regressão completa desses tumores.

Atualmente, os tratamentos disponíveis se baseiam na cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Eles causam efeitos colaterais, não são específicos e comprometem a qualidade de vida do paciente. Segundo a pesquisa, “infecções pelo HPV estão associadas à quase totalidade dos casos de câncer cervical, que representa a quarta causa de morte por câncer entre as mulheres, bem como ao surgimento de outros tipos de tumores em homens e mulheres”.

Desenvolvimento de novas estratégias de diagnóstico sorológico para tipagem de infecção prévia pelo vírus dengue

Pesquisadores: Marianna Favaro (ICB-USP), Mônica Rodrigues (ICB-USP), Samuel Pereira (ICB-USP) e Luís Carlos de Souza Ferreira (ICB-USP)

Resumo: para determinar quem foi exposto ao vírus da dengue (DENV), a pesquisa propõe um kit diagnóstico sorológico, que permite diferenciar amostras de pacientes expostos a cada um dos quatro sorotipos do DENV, eliminando o obstáculo da reação cruzada com o vírus Zika. Segundo projeto, “tal kit permitirá entender melhor a extensão da epidemia de DENV no País e no mundo, além de ser uma potencial ferramenta para compreender o funcionamento das vacinas contra DENV que estão em desenvolvimento”.

Ainda de acordo com a pesquisa, “o vírus da dengue é um arbovírus de relevante impacto sobre a saúde pública mundial, uma vez que 2,5 bilhões de pessoas vivem em áreas de risco de infecção pelos DENVs”.

Triagem de compostos antitumorais em plataforma de co-cultivo de neuroesferas com células da micróglia

Pesquisadores: o projeto é coordenado pela professora Suely K.N. Marie e pela pesquisadora Sueli M. Oba-Shinjo, e envolve pós-doutores e pós-graduandos que compõem o LIM15, vinculado à Faculdade de Medicina da USP.

Resumo: de acordo com o grupo, a pesquisa propôs um sistema que “visa viabilizar a triagem em larga escala de compostos com potencial terapêutico, explorando a interação das células tumorais com células do sistema imune, o que até o momento era majoritariamente feito em modelos animais”.

O objetivo é agilizar o processo de identificação de substâncias para o combate do Glioblastoma multiforme (GBM), tipo de tumor cerebral mais comum em adultos e que apresenta sobrevida média após o diagnóstico em tempo menor que 15 meses. Além disso, também diminui-se o número de animais utilizados no procedimento.

 

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